Exorcismo

Padres Exorcistas explicam

Consagração a Virgem Maria

Escravidão a Santissima Virgem, Orações, Devoção

Formação para Jovens

Espiritualidade, sexualidade, diverção, oração

4 de jul. de 2008

Sermões sobre o Pai Nosso e Ave Maria segundo S. Tomás de Aquino.





O PAI NOSSO E A AVE MARIA. SERMÕES DE S. TOMÁS DE AQUINO. EDIÇÃO ELETRÔNICA
Rio de Janeiro, 2003 EDIÇÃO ELETRÔNICA PERMANÊNCIA

INTRODUÇÃO

Conforme o testemunho de seus contemporâneos, entre os quais se
contam muitos de seus irmãos de ordem, sabemos que um ano antes
de sua morte, isto é, desde o Domingo da Sexagésima, 12 de
fevereiro de 1273, até o dia da Páscoa, 9. de abril, Santo Tomás se
consagrou, com todo o cuidado, à instrução dos fiéis, na igreja
conventual de São Domingos, em Nápoles.

Fez ali sermões, sucessivamente sobre o Símbolo dos Apóstolos, a
Oração Dominical, a Saudação Angélica, sobre os dois preceitos
gerais da caridade e os dez mandamentos da lei.

Não se vê, à primeira vista, o que une esses diferentes assuntos, mas
o santo Doutor teve o cuidado de mostrá-lo aos seus ouvintes:

«Três coisas são necessárias ao homem para a sua salvação. A
primeira é o conhecimento daquilo que se deve crer; a segunda,
conhecer o que se deve desejar e a terceira, conhecer o que se deve
realizar. O homem tem o primeiro desses conhecimentos no Símbolo
dos Apóstolos; a Oração Dominical o instrui sobre o que se deve
desejar; e os dois preceitos da caridade e os dez mandamentos da lei
mostram o que se deve pôr em prática».

O conjunto desses sermões constitui uma verdadeira catequese pré-
batismal. Padre Toco, dominicano, que assistia às práticas, afirma
que cada dia aumentava mais o número de assistentes; a multidão
escutava o Bem-aventurado com veneração, como se a palavra
viesse diretamente de Deus. Somente o aspecto físico de Santo
Tomás, já causava uma impressão profunda. Segundo João Blasio,
juiz de Nápoles, Santo Tomás fez os dois sermões sobre a Saudação
Angélica, de olhos fechados ou elevados para o céu, o ar extático.
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Os numerosos ouvintes do santo, nessa quaresma de 1273,
pertenciam a todas as classes sociais e Santo Tomás dirigia-se a eles
em italiano, não em latim. Os textos latinos que chegaram até nós,
não são, pois, textos originais, mas apenas um resumo destes. Não é
certo que o Santo os tenha escrito de sua própria mão nem mesmo
que ele os tenha revisto. No entanto, todos os autores que falaram
sobre esses textos (Mandonnet, Michelitisch, Grabinan, Walz) são
unânimes em afirmar sua autenticidade. Todos asseguram que eles
exprimem fielmente o pensamento do Santo Doutor.

A origem dos textos explica porque algumas vezes são encontradas
obscuridades na expressão e porque nem sempre se discerne
perfeitamente o elo que une alguns pensamentos. As citações das
Sagradas Escrituras são muito numerosas, mas nem sempre a
relação das citações com o contexto é muito clara.

Para tornar a leitura da tradução mais corrente, não hesitamos em
suprimir algumas destas citações, quando a relação destas com o
contexto não era perceptível. Pela mesma razão, todas as vezes em
que isso pareceu necessário, procuramos exprimir explicitamente o
pensamento de Santo Tomás, seja desenvolvendo o que a concisão
do texto latino apenas sugeria, seja modificando a ordem material
das proposições.

É certo que o homem não pode fazer nada maior, nem mais
necessário à sua salvação, do que elevar sua alma a Deus para ligá-la
a Sua Majestade. Ora, é pela oração que o homem se eleva a Deus e
a Ele se une. E quanto mais perfeita for sua oração, maior será sua
união com Deus.

Mas qual será, no mundo, a oração mais perfeita e mais santificante,
senão aquela que o Filho de Deus, Deus Ele mesmo, compôs para nos
dar?


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Sendo assim, é da maior importância compreender bem esta sublime
oração, em todos os seus pedidos, para fazê-la inteiramente nossa.
Possa a leitura atenta das explicações de Santo Tomás sobre a
Oração Dominical ajudar-nos a penetrar melhor no sentido profundo
das diferentes partes desta prece divina.

Falando sobre a Saudação,Angélica, em seu Tratado sobre a
verdadeira devoção à Santíssima Virgem, São Luiz-Maria Grignion de
Montfort escreve (§ 252, 253):

«A Ave-Maria é a mais bela de todas as orações, depois do Pai Nosso:
É a saudação mais perfeita, que podeis fazer a Maria, pois é a
saudação que o Altíssimo lhe fez por meio de um Arcanjo, para
ganhar o coração da Virgem de Nazaré. E tão poderosas foram
aquelas palavras, pelo encanto secreto que contêm, que Maria deu
seu pleno consentimento para a Encarnação do Verbo, apesar de sua
profunda humildade. É por esta saudação que também vós ganhareis
infalivelmente seu coração, contanto que a digais como deveis... isto
é, com atenção, devoção e modéstia».

Poderemos acrescentar: com inteligência, o que nos obriga a um
esforço para compreendermos melhor o sentido profundo das
palavras que pronunciamos. A leitura das explicações do Doutor
Angélico nos ajudará muito nisto.

Segundo a opinião mais aceita, atribui-se ao papa Urbano VIII a
introdução do nome de Jesus na Saudação Angélica. Este pontífice
reinou de 1261 a 1264. Santo Tomás, no entanto, em sua explicação
da Ave-Maria, composta em 1273, não faz menção do nome de Jesus.
Mas o fez, por diversas vezes, especialmente na Suma Teológica (IIIa ,
q. 37, a. 2, c.). Parece também não ter conhecido a segunda parte da
Ave-Maria, que se foi formando pouco a pouco. No século XII
encontra-se um esboço dela, num hino atribuído a Gottschalk,
capelão do imperador Henrique IV. No século XV, São Bernardino de

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Sena conhecia um resumo desta segunda parte: Santa Maria, rogai
por nós, pobres pecadores. A fórmula atual foi posta em uso no
século XVI; e consagrada oficialmente por sua inserção, no breviário
de São Pio V, em 1568.

Como muitos escolásticos do século XIII, Santo Tomás pensava, e
pensou até o fim de sua vida, que a Santa Virgem tinha contraído o
pecado original e que tinha sido purificada por uma graça especial,
desde o seio de sua mãe. Ele o diz por duas vezes na explicação da
Saudação Angélica (n° 6 e 7). Nestes dois pontos, nossa tradução,
propositadamente, não é uma tradução; pois não exprime o sentido
do texto latino, mas o que é de fé, para a Santa Igreja e o que hoje
contempla o Santo Doutor na visão beatífica, a saber, a Imaculada
Conceição da Bem-aventurada Virgem Maria.

Um monge de Fontgombault

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PRÓLOGO


I. As cinco qualidades requeridas para todas as orações.

1. — A Oração Dominical, entre todas, é a oração por excelência, pois
possui as cinco qualidades requeridas para qualquer oração. A oração
deve ser: confiante, reta, ordenada, devota e humilde.

2. — A oração deve ser confiante, como São Paulo escreve aos
Hebreus (4, 16): Aproximemo-nos com confiança do trono da graça,
a fim de alcançar a misericórdia e achar graça para sermos socorridos
no tempo oportuno.

A oração deve ser feita com fé e sem hesitação, segundo São Tiago.
(Tg 1,6): Se algum de vós necessita de sabedoria, peça-a a Deus...
Mas peça-a com fé e sem hesitação.

Por diversas razões, o Pai Nosso é a mais segura e confiante das
orações. A Oração Dominical é obra de nosso advogado, do mais
sábio dos pedintes, do possuidor de todos os tesouros de sabedoria
(cf. Cl 2, 3), daquele de quem diz São João (I, 2, 1): Temos um
advogado junto ao pai: Jesus Cristo, o Justo. São Cipriano escreveu
em seu Tratado da oração dominical: «Já que temos o Cristo como
advogado junto ao Pai, por nossos pecados, em nossos pedidos de
perdão, por nossas faltas, apresentemos em nosso favor, as palavras
de nosso advogado».

A Oração Dominical parece-nos também que deve ser a mais ouvida
porque aquele que, com o Pai, a escuta é o mesmo que no-la
ensinou; como afirma o Salmo 90 (15): Ele clamará por mim e eu o
escutarei. «É rezar uma prece amiga, familiar e piedosa dirigir-se ao

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Senhor com suas próprias palavras» diz São Cipriano. Nunca se deixa
de tirar algum fruto desta oração que, segundo santo Agostinho,
apaga os pecados veniais.

3. — Nossa oração deve, em segundo lugar, ser reta, quer dizer,
devemos pedir a Deus os bens que nos sejam convenientes. «A
oração, diz São João Damasceno, é o pedido a Deus dos dons que
convém pedir».

Muitas vezes, a oração não é ouvida por termos implorado bens que
verdadeiramente não nos convêm. «Pediste e não recebeste, porque
pediste mal», diz São Tiago. (4,3).

É tão difícil saber com certeza o que devemos pedir, como saber o
que devemos desejar. O Apóstolo reconhece, quando escreve aos
Romanos (8, 26): Não sabemos pedir como convém, mas
(acrescenta), o próprio Espírito intercede por nós com gemidos
inefáveis.

Mas não é o Cristo que é nosso doutor? Não foi ele que nos ensinou o
que devemos pedir, quando seus discípulos disseram: Senhor,
ensinai-nos a rezar? (Lc 11, 1).

Os bens que ele nos ensina a pedir, na oração, são os mais
convenientes. «Se rezamos de maneira conveniente e justa, diz Santo
Agostinho, quaisquer que sejam os termos que empregamos, não
diremos nada mais do que o que está contido na Oração Dominical».

4. — Em terceiro lugar, a oração deve ser ordenada, como o próprio
desejo que a prece interpreta.

A ordem conveniente consiste em preferirmos, em nossos desejos e
preces, os bens espirituais aos bens materiais, as realidades celestes
às realidades terrenas, de acordo com a recomendação do Senhor

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(Mt, 6,33): Procurai primeiro o reino de Deus e sua justiça e o resto
— o comer, o beber e o vestir — ser-vos-á dado por acréscimo.

Na Oração Dominical, o Senhor nos ensina a observar esta ordem:
primeiro pedimos as realidades celestes e em seguida os bens
terrestres.

5. — Em quarto lugar, a oração deve ser devota.

A excelência da devoção torna o sacrifício da oração agradável a
Deus. Em vosso nome, Senhor, elevarei minhas mãos, diz o Salmista,
e minha alma é saciada como de fino manjar.

A prolixidade da oração, no mais das vezes, enfraquece a devoção;
também o Senhor nos ensina a evitar essa prolixidade supérflua: Em
vossas orações não multipliqueis as palavras; como fazem os pagãos,
(Mt 6,7). S. Agostinho recomenda, escrevendo a Proba: «Tirai da
oração a abundância de palavras; no entanto não deixeis de suplicar,
se vossa atenção continua fervorosa».

Esta é a razão pela qual o Senhor instituiu a breve oração do Pai
Nosso.

6. — A devoção provém da caridade, que é o amor de Deus e do
próximo. O Pai Nosso é uma manifestação destes dois amores.

Para mostrar nosso amor a Deus, o chamamos «Pai» e para mostrar
nosso amor ao próximo, pedimos por todos os homens justos,
dizendo: «Pai nosso», e empurrados pelo mesmo amor,
acrescentamos: «perdoai as nossas dívidas»,

7. — Em quinto lugar, nossa oração deve ser humilde, segundo o que
diz o Salmista (Sl 101, 18): Deus olhou para a prece dos humildes.


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Uma oração humilde é uma oração que certamente será ouvida, como
nos mostra o Senhor, no evangelho do Fariseu e do Publicano (Lc 18,
9-15) e Judite, rogando ao Senhor, dizia: Vós sempre tivestes por
agradável a súplica dos humildes dos mansos.

Esta humildade está presente na Oração Dominical, pois a verdadeira
humildade está naquele que não confia em suas próprias forças, mas
tudo espera do poder divino.


II. Os bons efeitos da oração.

8. — Notemos que a oração produz três espécies de bens.

Primeiramente, constitui um remédio eficaz contra todos os males.
Livra-nos dos pecados cometidos: «Remistes, Senhor, a iniqüidade de
meu pecado, diz o Salmista (Sl 31,5-6) por isso todo homem santo
dirigirá a Vós sua prece». Assim pediu o ladrão sobre a cruz e obteve
seu perdão, pois Jesus lhe respondeu: «Em verdade vos digo, hoje
mesmo estareis comigo no paraíso». (Lc 23,43), Do mesmo modo
rezou o publicano e voltou para casa justificado (cf. Lc 18,14).

A oração nos liberta do medo dos pecados que virão, das tribulações
e da tristeza. Alguém está triste entre vós? Reze com a alma
tranqüila (Tg 5,3).

A oração nos livra das perseguições dos inimigos. Está escrito no
Salmo 108, 4: Em resposta ao meu afeto me fizeram mal; eu, porém,
orava.

9. — Em segundo lugar, a oração é um meio útil e eficaz para a
realização de todos os nossos desejos. Tudo o que pedirdes na
oração, diz Jesus, crede, recebereis. (Mc 11,24)


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Se não somos atendidos, será porque — ou não pedimos com
insistência: é preciso rezar sem descanso (Lc 18, 1) — ou então não
pedimos o que é mais útil à nossa salvação. «O Senhor é bom, diz
Santo Agostinho, muitas vezes não nos concede o que queremos,
para nos dar os bens, que desejaríamos receber, se nossa vontade
estivesse bem de acordo com a sua divina vontade». São Paulo é
exemplo disso, pois, por três vezes, pediu para ficar livre de um forte
sofrimento em sua carne e não foi atendido (cf. II Cor 12,8).

10. — Em terceiro lugar a oração é útil, porque nos torna familiares
de Deus. Que minha oração suba até vós, como a fumaça do incenso,
diz o Salmista (Sl 140, 2).


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A ORAÇÃO DOMINICAL

PAI NOSSO

11. — Perguntamos: como é que Deus é Pai? E quais são nossas
obrigações para com Ele devido à sua paternidade?

Chamamo-lo Pai, por causa do modo especial com que nos criou.
Criou-nos à sua imagem e semelhança, imagem e semelhanças estas,
que não imprimiu em nenhuma outra criatura inferior ao homem. Não
é ele teu Pai, teu C riador que te estabeleceu? (Dt 32, 6).

Deus merece também o nome de Pai, por causa da solicitude
particular que tem para com os homens no governo do universo.
Nada escapa ao seu governo, sendo este exercido de modo diferente
em relação a nós e em relação às criaturas inferiores a nós. Os seres
inferiores são governados como escravos e nós como senhores. Ó Pai,
diz o livro da Sabedoria (14, 3), vossa providência rege e conduz
todas as coisas; e (12, 18) a nós governa com indulgência.

Deus, enfim, tem direito ao nome de Pai, porque nos adotou.
Enquanto não deu, às outras criaturas, senão pequenas dádivas, a
nós fez o dom de sua herança, e isso porque somos seus filhos. São
Paulo diz (Rm 8, 17): Porque somos seus filhos, somos também seus
herdeiros, e ainda (vers. 15): Vós não recebestes um espírito de
servidão, para recairdes no temor, mas recebestes um espírito de
adoção, que nos faz clamar: Abba, Pai.

12. — Em primeiro lugar, devemos honrá-lo. Se sou Pai, diz o
Senhor, por Malaquias, (1,6) onde está a minha honra?


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Esta honra consiste em três coisas: a primeira em relação aos nossos
deveres para com Deus; a segunda, nossos deveres para conosco
mesmos; a terceira, nossos deveres para com o próximo.

A honra devida ao Senhor consiste, primeiramente, em oferecer a
Deus o dom do louvor, seguindo o que está escrito (Sl 49, 23): O
sacrifício de louvor me honrará. Este louvor deve estar não só nos
lábios, como no coração. Está escrito em Isaías (29,13): Este povo
me honra com os lábios, mas seu coração está longe de mim.

A honra devida a Deus, em segundo lugar, consiste na pureza de
nossos corpos, pois o Apóstolo escreveu: (1 Cor 6, 20) Glorificai e
trazei a Deus em vosso corpo.

Consiste, enfim, esta honra, na equidade de nossos julgamentos para
com o próximo. O Salmo 98, 4 diz: Honrar o rei é amar a justiça.

13. — Em segundo lugar, devemos imitar Deus, porque ele é nosso
Pai. Diz o Senhor, em Jeremias: (3, 9) chamar-me-eis Pai, e não
deixareis de andar atrás de mim.

A imitação para ser perfeita requer três coisas.

A primeira é o amor. Diz São Paulo (Ef 5, 1-2): Sede imitadores de
Deus, como filhos bem amados, e caminhai no amor. Este amor deve
ser encontrado em nosso coração.

A segunda é a misericórdia. O amor deve ser acompanhado da
misericórdia, segundo a recomendação de Jesus (Lc 6, 36): sede
misericordiosos. E essa misericórdia deve mostrar-se nas obras.

A terceira é a perfeição, porque o amor e a misericórdia devem ser
perfeitos. Foi, com efeito, depois de falar da disposição e das obras

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servis, que o Senhor diz, no Sermão da Montanha, (Mt 5, 48) Sede
perfeitos, como vosso Pai celestial é perfeito.

14. — Em terceiro lugar, devemos obediência a nosso Pai. Se nossos
pais segundo a carne nos castigam e nós os respeitamos, por mais
forte razão devemos submeter-nos ao Pai dos espíritos, diz São Paulo
(Heb 12,9).

A obediência é devida ao Pai celeste por causa de seu domínio
soberano, sendo Ele o Senhor por excelência. Já os Hebreus, ao pé do
monte Sinai, declararam a Moisés (Ex 24, 7): Tudo o que disse o
Senhor nós o faremos e obedeceremos.

Nossa obediência está também fundada no exemplo de Cristo que,
sendo o verdadeiro Filho de Deus, se fez obediente até à morte (Fp 2,
8).

Por fim obedecemos por interesse próprio. David dizia de Deus:
Tocarei diante do Senhor que me escolheu (2 Rs 6,12).

15. — Em quarto lugar e sempre, porque Deus é nosso Pai, devemos
ser pacientes, quando ele nos castiga. Meu filho, dizem os Provérbios
(3, 11-12), não rejeites a correção do Senhor; nem desanimes,
quando Ele te corrige. O Senhor castiga àquele que ama e se compraz
nele como um Pai com seu filho.

16. — O Senhor nos prescreveu dirigirmo-nos a seu Pai, na Oração
Dominical, não somente como «Pai», mas também como «Pai nosso»,
Fazendo isto, mostrou quais são nossos deveres para com nossos
próximos.

A nossos próximos, devemos primeiramente o amor, porque são
nossos irmãos; todos somos filhos de Deus. Quem não ama seu irmão

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a quem vê, diz São João (I, 4,20), como pode amar a Deus a quem
não vê?

Em segundo lugar, devemos respeito a nossos semelhantes. Temos
um único Pai, diz Malaquias (2, 10). Não foi um só Deus que nos
criou? Por que haverás de desprezar teu irmão? E São Paulo escreve
aos Romanos (12-10): Cuidai de respeitar-vos uns aos outros.

A realização desde duplo dever nos proporciona os mais desejáveis
frutos, pois o Cristo, nos escreve São Paulo (Heb 5,9) é, para todos
os que lhe obedecem, princípio de salvação eterna.


QUE ESTÁIS NO CÉU

17. — Entre as disposições necessárias àquele que reza, a confiança
tem uma importância considerável. Quem pede alguma coisa a Deus,
diz São Tiago, (1,6) faça-o com confiança e sem hesitação.

O Senhor, no princípio da Oração que nos ensinou, expõe os motivos
que fazem nascer a confiança.

Primeiro, a complacência do Pai: Pai Nosso. Depois, diz o Senhor (Lc
11, 13): Vós que sais maus, sabeis dar coisas boas a vossos filhos;
quanto mais dará vosso Pai celeste, do alto dos céus, àqueles que lhe
pedem, seu bom Espírito.

Um outro motivo de confiança é a grandeza e o poder do Pai, o que
nos faz dizer ao Senhor não apenas Pai nosso, mas Pai nosso que
estais no céu. O Salmista também diz: (Sl 122, 1) Elevei meus olhos
para vós que habitais nos céus.

18. — O Senhor usou a expressão que estais no céu por três razões
diferentes.

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Em primeiro lugar, esta expressão tem por objeto preparar a oração,
como nos recomenda o Eclesiástico (18, 23): Antes da oração,
preparai vossas almas. Seguramente, o pensamento de que nosso Pai
está nos céus, isto é, na glória celeste, nos prepara para lhe
dirigirmos nossas súplicas.

Na promessa do Senhor a seus Apóstolos (Mt 5, 12): vossa
recompensa será grande nos céus, a expressão «nos céus» tem
igualmente o sentido de «na glória celeste».

A preparação da oração se realiza pela imitação das realidades
celestes, pois o filho deve imitar seu pai. Assim, São Paulo escreve
aos Coríntios (I, 15,49): Como revestimos a imagem do homem
terrestre, é preciso também revestirmos a imagem do homem
celeste.

A preparação para a oração requer também a contemplação das
coisas celestes. Os homens têm por hábito dirigir freqüentemente o
pensamento para o lugar onde está seu pai e onde se acham os
outros seres, objetos de seu amor, segundo a palavra do Senhor (Mt
6, 21): Lá onde está o teu tesouro, também está teu coração. Foi por
isso que o Apóstolo escreveu aos Filipenses (3,20): Nos céus está a
nossa morada.

A preparação da oração reclama, enfim, que aspiremos às coisas
celestes. Àquele que está nos céus devemos pedir coisas celestes,
como nos diz São Paulo (Cl 3, 1): Procurai as coisas do alto, lá onde
está o Cristo.

19. — Em segundo lugar, as palavras «Pai nosso que estais no céu»
podem significar a facilidade que tem Deus de ouvir as nossas preces,
porque está próximo de nós. Aquelas palavras significam então: Pai
nosso que estais nos santos. Com efeito, Deus habita nos santos.

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Jeremias diz (14, 9): Senhor, Vós estais em nós. Os santos são
realmente chamados «céus», segundo essas palavras do Salmo
18,12: «Os céus proclamam a glória de Deus».

Ora, Deus habita nos santos pela fé. São Paulo escreve aos Efésios
(3, 17): Que Cristo habite em vossos corações pela fé.

Deus também mora nos santos pela caridade. Aquele que habita na
caridade, diz São João (I, 4, 16), habita em Deus e Deus nele.

Deus mora ainda nos santos pela realização dos mandamentos. Se
alguém me ama, declara o Senhor (Jo 14,23), guarda minha palavra
e nós viremos a ele e nele faremos nossa morada.

20. — Em terceiro lugar, «que estais nos céus» se refere à eficácia do
Pai ao nos ouvir. Neste caso a palavra «céus» designa céus materiais
e visíveis; não que queiramos dizer, com isso, que Deus está
encerrado no céu corpóreo, pois está escrito (2 Rs 18, 27): Eis que os
céus e os céus dos céus não vos podem conter; mas estas palavras
«que estais nos céus» mostram:

a) que Deus, por seu olhar, é clarividente e penetrante, porque vê do
alto. Ele olhou de sua santa altura, diz o Salmo 101,20;

b) que Deus é sublime em seu poder, segundo a palavra do Salmista
(102, 19): O Senhor dispôs seu trono, nos céus;

c) que Deus é estável em sua eternidade, segundo outras palavras
(Sl 101, 13 e 28): Senhor, permaneceis eternamente e vossos
anos, não têm fim. Por isto, diz-se de Cristo (Sl 88, 30): Seu
trono é como o dia do céu, isto é, sem fim, como a duração do
que é celeste. E o Filósofo confirma, com sua autoridade, a
justeza desta comparação, quando faz notar em seu tratado «do

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céu»: «Por causa de sua incorruptibilidade, o céu é olhado por
todos, como sendo a morada dos puros espíritos».

21. — Estas palavras «que estais nos céus» dirigidas ao Pai, no
momento da oração, nos dão um triplo motivo de confiança, que
repousa:

a) sobre o poder de Deus;

b) sobre a amizade de Deus, que nós invocamos;

c) sobre a conveniência de nosso pedido.

a) O poder do Pai que nós imploramos nos é sugerido pela expressão:
«que estais nos céus», se por céus compreendermos os céus
materiais e visíveis. Sem dúvida, Deus não está encerrado nos céus
materiais, pois nos diz em Jeremias (23, 24): Encho o céu e a terra;
diz-se, entretanto, «estais nos céus» para insinuar a virtude de sua
natureza.

22. — Contra aqueles que afirmam que tudo vem necessariamente
pela influência dos corpos celestes e negam a utilidade de se pedir
qualquer coisa a Deus pela oração — como são tolos! — dizemos a
Deus: «que estais nos céus» e ali está, por virtude de Seu poder,
como Senhor dos céus e das estrelas, seguindo a palavra do Salmo
(102, 19): O Senhor preparou seu trono nos céus.

23. — E também contra aqueles que em suas preces constroem e
compõem imagens corpóreas de Deus, é na intenção deles que
dizemos: «que estais nos céus». Desta sorte: pelo que há de mais
elevado nas coisas sensíveis, nós lhes mostramos a sublimidade de
Deus, que ultrapassa a tudo, incluindo o desejo e a inteligência dos
homens, e assim tudo que se possa pensar e desejar é inferior a
Deus. É por isto que está escrito no livro de Jó (32, 26): Deus é

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grande e ultrapassa nossa ciência, e no livro dos Salmos (Sl 112, 4):
O Senhor se elevou acima de todas as nações. E Isaías declara (40,
18): A quem tendes vós assemelhado Deus?

24. — b) Muitos disseram que Deus, pelo fato de estar tão alto, não
cuida das coisas humanas. É preciso, ao contrário, pensar que Ele
está próximo de nós, e que está intimamente presente em nós. Esta
familiaridade de Deus com o homem nos é apontada pelas palavras
da Oração Dominical «que estais nos céus», se as entendemos assim:
«vós que estais nos santos». Os santos são os céus, segundo a
palavra do salmista (18,2): os céus mostram a glória de Deus e
também Jeremias (14,9): Estais no Senhor.

25. — Esta intimidade de Deus com os homens nos inspira dois
motivos de confiança quando rezamos ao Senhor.

O primeiro se apóia nesta proximidade divina que o Salmista mostra
nas palavras (14, 4, 18): O Senhor está próximo dos que o invocam.
Por isto o Senhor nos dá o aviso (Mt. 6, 6): Quando rezardes entrai
em vosso quarto, quer dizer, no interior de vosso coração.

O segundo repousa no patrocínio dos santos. Por sua intercessão,
podemos obter o que pedimos. (Jó 5, 1): Dirigi-vos a qualquer dos
santos e São Tiago (5, 16): Rogai uns pelos outros, para que sejais
salvos.

26. — c) Se, quando dizemos ao Pai celeste,: Vós que estais nos
céus, pensamos que céus designam os bens espirituais e eternos,
objeto de bem-aventurança, então nosso desejo das coisas celestes
se inflama. Nosso desejo deve inclinar-se para onde está nosso Pai,
pois lá também está nossa herança. São Paulo diz aos fiéis: Procurai
os bens do alto (Cl 3, 1) e São Pedro (1, 1, 4) nos fala desta herança
incorruptível, que nos está reservada nos céus.


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O pensamento de que o Pai é nosso Bem espiritual eterno, objeto de
nossa bem-aventurança, nos convida, com força, a levarmos uma
vida celeste, a fim de nos tornarmos conforme o nosso Pai. Como é o
celeste, assim também serão os celestiais, declara o Apóstolo (1 Cor
15, 18).

Estas duas coisas, o desejo da bem-aventurança do céu e o levar
nesta terra uma vida celestial — nos predispõem incontestavelmente
a rezar com devoção ao Senhor e dirigir-lhe uma oração digna de sua
Majestade.




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SANTIFICADO SEJA O VOSSO NOME

27. — Este é o primeiro pedido, no qual pedimos que o nome de Deus
seja manifestado em nós e por nós proclamado.

Ora, o nome de Deus é antes de tudo, admirável, porque em todas as
criaturas opera obras maravilhosas. O Senhor declara no Evangelho
(Mc 16,17): Em meu nome, expulsarão os demônios, falarão novas
línguas, e se beberem algum veneno mortal, este não lhes fará mal
algum.

28. — Em segundo lugar, o nome de Deus é amável. «Não existe
debaixo do céu, diz São Pedro (At 4, 12) nenhum outro nome, entre
os que foram dados aos homens, que possa salvar-nos». E a salvação
deve ser buscada por todos. Santo Inácio dá-nos o exemplo do
quanto devemos amar o nome de Cristo. Quando o imperador Trajano
exigiu que ele negasse o nome de Cristo, Santo Inácio respondeu:
«Não podereis arrancá-lo de minha boca». O tirano ameaçou cortar-
lhe a cabeça e assim tirar o nome de Cristo de seus lábios; replicou o
bem-aventurado: «Não o arrancarás jamais de meu coração, pois é lá
que está gravado, por isto não posso deixar de invocá-lo». Ouvindo
estas palavras, Trajano, desejoso de verificar-lhes a exatidão,
mandou cortar a cabeça do servidor de Deus e extrair-lhe o coração.
E no coração encontrou gravado, com letras de ouro o nome de
Cristo. O santo possuía este nome como um selo em seu coracão.

29. — Em terceiro lugar, o nome de Deus é venerável. O Apóstolo
afirma (Fp 2, 10): Que ao nome de Jesus se dobrem todo joelho no
céu, na terra e nos infernos; no céu, no mundo dos anjos e bem-
aventurados; na terra, tanto os homens, que querem a glória celeste,
como os que, por temerem o castigo, buscam evitá-lo; nos infernos,
no mundo dos danados, que estes se prostrem com temor diante de
Jesus Cristo.


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30. — Em quarto lugar, o nome de Deus é inexprimível, no sentido de
que nenhuma língua é capaz de exprimir toda a sua riqueza.

Tenta-se, no entanto, explicá-la pelas criaturas. Assim, dá-se a Deus
o nome de rochedo, por causa de sua firmeza. E notemos que se o
Senhor deu a Simão, futuro fundamento da Igreja, o nome de Pedra
(Mc 3, 16) foi precisamente porque sua fé, na divindade de Jesus, (cf.
Mt 16, 18) devia fazê-lo participar de sua firmeza divina.

Designa-se Deus também pelo nome de fogo, em razão de sua
virtude purificadora. Assim como o fogo purifica os metais, Deus
purifica o coração dos pecadores. Assim está no Deuteronômio (4,
24): Vosso Deus é um fogo que consome.

Deus é também chamado luz, por causa de sua capacidade de
iluminar. Como a luz ilumina as trevas, Deus ilumina as trevas do
espírito. O Salmista, em sua oração, diz ao Senhor (17, 29): Meu
Deus, iluminai as minhas trevas.

31. — Pedimos então que este nome seja manifestado, conhecido e
tido por santo.

A palavra santo tem três significações:

Primeiramente, santo que dizer firme, sólido, inabalável. Assim, todos
os Bem-aventurados que habitam os céus são chamados santos,
porque se tornaram, pela felicidade eterna, inabaláveis. Neste sentido
não há santos neste mundo, porque os homens estão, aqui, em
constante movimento. «Senhor, dizia Santo Agostinho, afastei-me de
vós e andei errante; afastei-me de vossa estabilidade.»

32. — Santo, em segundo lugar, significa: o que não é terrestre. Por
isto, os santos que vivem no céu não têm afeição alguma pelas coisas
terrestres. Tenho tudo em conta de imundices, para ganhar a Cristo,

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dizia São Paulo (Fp 3, 8). Pela palavra terra, designam-se os
pecadores.

Primeiro porque, se não é cultivada, germinam nela espinhos e
cardos, como está escrito no Gênesis (3, 8). Assim, também a alma
do pecador, se não é cultivada pela graça, só produzirá os espinhos e
os cardos do pecado.

Segundo, a terra é obscura e opaca, símbolo dos pecadores. Diz o
Gênesis (1, 2): As trevas cobriram a face do abismo.

Terceiro, a terra, se não é aglutinada pela água, divide-se,
desagrega-se, pulveriza-se, torna-se seca, pois o Senhor estabeleceu
a terra sobre as águas, como diz o Salmista (Sl 135, 6): Deus firmou
a terra sobre as águas. Assim a umidade da água remedeia a aridez
da terra. A alma do pecador, privada da água, não passa de uma
alma seca e árida, como constata o Salmo 142, 6: Minha alma é
como a terra sem água.

33. - Enfim, santo, em terceiro lugar, significa «tinto de sangue».
Também os santos que estão no céu são chamados santos, porque
estão tintos de sangue, segundo o Apocalipse (7, 14): Estes são os
que vieram da grande tribulação e lavaram suas vestes, no sangue do
Cordeiro. Também diz o Apocalipse (1, 5): Jesus Cristo que nos amou
e nos lavou dos nossos pecados, no seu sangue.


VENHA A NÓS O VOSSO REINO

34. — Como foi dito, o Espírito Santo nos faz amar, desejar e pedir
retamente o que nos convém amar, desejar e pedir (no . 3). Este
Espírito produz em nós, primeiro, o temor que nos leva a procurar a
santificação do nome de Deus, para, em seguida, nos dar o dom da

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piedade. A piedade é, propriamente, uma afeição terna e devotada
por um pai e também por um homem caído na miséria.

Como Deus é nosso Pai, devemos não somente venerá-lo e temê-lo,
mas também alimentarmos uma terna e delicada afeição por Ele. É
esta afeição que nos faz pedir a vinda do reino de Deus. São Paulo
declara em Tito, 2, 11-13: A graça de Deus apareceu a todos os
homens, ensinando-nos que vivamos neste mundo sóbria, justa e
piamente, aguardando a esperança bem-aventurada e a vinda
gloriosa de nosso grande Deus.

35. — Mas podemos perguntar: Se o reino de Deus sempre existiu,
porque pedimos a sua vinda?

Devemos responder a esta pergunta de três maneiras:

a) Primeiro: o reino de Deus, em sua forma acabada, supõe a perfeita
submissão de todas as coisas a Deus. Um rei não será rei,
efetivamente, antes de que todos os seus súditos lhe obedeçam.

Sem dúvida, Deus pelo que é e por sua natureza, é o Senhor do
universo; e o Cristo, sendo Deus e sendo homem, tem, como Deus, o
senhorio sobre todas as coisas. Diz Daniel (7, 14): No mais antigo
dos dias foi lhe dado o poder, a honra e a realeza. É preciso que tudo
lhe seja submetido. Mas isto ainda não é assim e se realizará no fim
do mundo. Está escrito (1 Cor 15, 25): É necessário que ele reine, até
que ponha todos os inimigos debaixo de seus pés. Eis porque
pedimos: venha a nós o vosso reino.

36. — Assim fazendo, pedimos três coisas, a saber:

— que os justos se convertam;
— que os pecadores sejam punidos;
— que a morte seja destruída.

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Os homens são submetidos ao Cristo de duas maneiras: ou
voluntariamente ou contra a vontade. A vontade de Deus, com efeito,
possui tal eficácia, que não pode deixar de se realizar totalmente. E já
que Deus quer que todas as coisas sejam submissas ao Cristo, é
preciso necessariamente ou que o homem cumpra a vontade de
Deus, submetendo-se a seus mandamentos — o que fazem os justos
— ou que Deus realize sua vontade naqueles que lhe desobedecem,
isto é, nos pecadores e nos seus inimigos, punindo-os. O que
acontecerá, no fim do mundo, quando Ele colocará seus inimigos
debaixo de seus pés (cf., Sl 109, 1). Por isso é dado aos santos
pedirem a Deus a vinda de seu reino, com a total submissão de todos
à sua realeza. Mas esse pedido faz tremer os pecadores, pois assim
terão de se submeter aos suplícios requeridos pela vontade divina.
Infelizes aqueles (pecadores) que desejam o dia do Senhor (Am 5,
18).

A vinda do reino de Deus, no fim dos tempos, será também a
destruição da morte. O Cristo é a vida; ora, a morte — que é
contrária à vida — não pode existir em seu reino, segundo a palavra
(1 Cor 15,26): O último inimigo a ser destruído será a morte, o que
quer dizer que na ressurreição, segundo São Paulo (Fp 3, 21), o
Salvador transformará nosso corpo de miséria, e o tornará
semelhante ao seu corpo glorioso.

37. b) Segundo: o reino dos céus designa a glória do paraíso. Não há
nisto nada de espantoso, pois o reino quer dizer, simplesmente,
governo. Um governo atinge seu mais alto grau de excelência,
quando nada se opõe à vontade de quem governa.

Ora, a vontade de Deus é a salvação dos homens, pois Deus quer que
todos os homens se salvem (cf. 1 Tm 2, 4). Esta vontade divina se
realizara principalmente no paraíso, onde nada é contrário à salvação
dos homens, pois o Senhor diz (Mt 13, 14): Os anjos lançarão fora de

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seu reino todos os escândalos. Neste mundo, ao contrário, abundam
os obstáculos, para a salvação dos homens.

Quando, pois, pedimos a Deus: «venha a nós o vosso reino»,
rezamos para que, triunfando sobre esses obstáculos, sejamos
participantes de seu reino e da glória do paraíso.

38. — Três motivos tornam este reino extremamente desejável.

Primeiro, pela soberana justiça deste reino. Falando de seus
habitantes, o Senhor diz a Isaías (60, 21) que todos são justos. Aqui,
os maus estão misturados com os bons, mas lá não haverá nem
maus nem pecadores.

39. — Segundo, pela perfeita liberdade dos eleitos.

Aqui na terra, todos desejam a liberdade, sem possuí-la plenamente.
Mas no céu se goza de uma plena e inteira liberdade, sem a menor
servidão. Diz-nos São Paulo (Rm 8, 21): A própria criação será
libertada do cativeiro da corrupção, para a gloriosa liberdade dos
filhos de Deus.

E não somente todos os eleitos possuirão a liberdade, mas serão reis,
segundo o Apocalipse: Fizeste-nos reis e sacerdotes e reinaremos
sobre a terra.

Serão todos reis, porque terão, como Deus, uma só vontade. Deus
quererá o que os santos querem e os santos quererão o que Deus
quer. Assim todos reinarão, porque farão a vontade de todos e Deus
será a coroa de todos, segundo Isaías (28, 5): Naquele dia, o Senhor
dos exércitos será a coroa da glória e a grinalda de exultação para o
resto de seu povo.


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40. — Terceiro, pela maravilhosa abundância de seus bens. Diz Isaías
ao Senhor (64, 4): O olho não viu, exceto tu, ó Deus, o que tens
preparado para aquele que te esperam. E o Salmista (Sl 102, 5).
Enches de bens, segundo o teu desejo.

E é preciso notar que «só em Deus» o homem achará a excelência e a
perfeição daquilo que procura, «neste mundo». Se procurais o
deleite, em Deus achareis o deleite supremo. Se procurais riquezas,
em Deus achareis a superabundância de tudo de que tendes
necessidade e tudo que é razão de ser das riquezas. O mesmo
acontece com os outros bens. Santo Agostinho reconhecia em suas
Confissões: «A alma que fornica, ao afastar-se de vós, procurando os
bens fora de vós, só os encontrará límpidos e puros se voltar para
vós».

41. — c) Terceiro: porque muitas vezes o pecado reina e triunfa neste
mundo, pedimos a Deus a vinda de seu reino. São Paulo se levantava
contra esta calamidade (Rm 6, 12): Que o pecado não reine em
vossos corações.

Esta infelicidade se realiza quando o homem se deixa levar sem
resistência, até o fim de sua inclinação para o pecado.

Deus deve reinar em nosso coração e o faz efetivamente quando
estamos prontos a observar os seus mandamentos.

Quando pedimos a vinda do reino de Deus, rezamos para que não
reine em nós o pecado, mas que só Deus ali reine e para sempre.

42. — Por este pedido da vinda do reino de Deus, chegaremos à bem-
aventurança, proclamada pelo Senhor (Mt 5, 4): Bem-aventurados os
mansos.


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Com efeito, segundo a primeira explicação do pedido venha a nós o
vosso reino (n° 35), o homem, pelo fato de desejar que Deus seja
reconhecido mestre soberano de tudo, não se vinga da injustiça
recebida, mas deixa esse cuidado a Deus. Pois se vingando ele está
procurando seu triunfo pessoal e não a vinda do reino de Deus.

De acordo com a segunda explicação (n° 37) se esperais o reino de
Deus, quer dizer, a glória do paraíso, não deveis ficar inquietos,
quando perdeis os bens deste mundo.

Do mesmo modo, pela terceira explicação, (no 41) pedis que reine em
vós Deus e seu Cristo. Assim como Jesus foi mansíssimo, pois ele
mesmo o diz (Mt 11, 29), deveis também ser mansos e imitar os
Hebreus dos quais diz São Paulo (Heb 10, 34): aceitaram com
contentamento a espoliação de seus bens.


SEJA FEITA A VOSSA VONTADE, ASSIM NA
TERRA, COMO NO CÉU

43. — O Espírito Santo produz em vós um terceiro dom, chamado
dom de Ciência.

O Espírito Santo não produz nos bons somente o dom do Temor e o
dom da Piedade que, como vimos atrás (n° 34), é um amor delicado
por Deus. O Espírito Santo torna o homem sábio.

Davi pedia o dom da ciência no Salmo 118, 66, dizendo: Ensinai-me a
bondade, a doutrina e a ciência. E é esta ciência do bem viver, que
nos ensina o Espírito Santo.

Entre as disposições que contribuem para a ciência e a sabedoria do
homem, a mais importante é aquela que faz com que o homem não
se apóie em si mesmo. Não te estribes em tua prudência, recomenda

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o livro dos Provérbios (3, 5). Com efeito, os que confiam em seu
próprio julgamento, a ponto de não se fiarem senão em si mesmos e
não nos outros, são considerados como insensatos, e
verdadeiramente o são. Declara o livro dos Provérbios (26, 12): Mais
se deve esperar de um ignorante do que de um homem que é sábio a
seus próprios olhos.

Um homem não confia em seu próprio julgamento se é humilde, pois,
ensinam os Provérbios (11, 2): onde há humildade, aí há igualmente
sabedoria. Os orgulhosos ao contrário, põem em si toda confiança.

44. — Assim sendo, o Espírito Santo nos ensina, pelo dom de Ciência,
a não fazer a nossa vontade, mas a vontade de Deus. E também
quando pedimos a Deus, que Sua vontade se faça no céu, como na
terra, manifesta-se O dom de Ciência.

Quando dizemos a Deus: Seja feita a vossa vontade, é como se
fôssemos doentes que aceitam o remédio amargo, prescrito pelo
médico. O doente não quer tal remédio, mas aceita a vontade do
médico, do contrário, seguindo só sua vontade, seria um insensato.
Da mesma maneira, não devemos pedir a Deus nada além do Seu
querer, isto é, a realização de Sua vontade em nós.

O coração do homem é reto, quando está de acordo com a vontade
divina, assim como fez o Cristo: (Jo 6, 38): Desci do céu, não para
fazer a minha vontade, mas a vontade d' Aquele que me enviou.

Cristo, enquanto Deus, tem uma só vontade com o Pai, mas enquanto
homem tem sua vontade distinta da vontade do Pai. Foi falando desta
vontade que declarou: não faço a minha vontade, mas a de meu Pai.
E por isso nos ensinou a rezar e a pedir: «seja feita a vossa
vontade».


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45. — Mas qual é a razão de ser desta oração: «Seja feita a vossa
vontade?»

Não se diz a Deus, no Salmo 113 (v. 3): Tudo quanto quis, fez? Se
Deus faz tudo que quer no céu e na terra, porque diz Jesus: Seja feita
a vossa vontade assim na terra como no céu?

46. — Para compreender a causa deste pedido é preciso saber que
Deus quer para nós três coisas que realizamos nesta oração.

a) Em primeiro lugar, Deus quer que tenhamos a vida eterna. Quando
alguém faz alguma coisa visando um determinado fim, quer que ela
atinja tal fim. Ora, Deus não fez o homem sem um fim determinado.
Diz o Salmo (88, 48): acaso criastes em vão todos os filhos dos
homens? Deus criou os homens, para um fim que não são as
volúpias, pois estas também as têm os animais. Deus quis que o
homem alcançasse a vida eterna. (cf. Jo. 3, 16; 10, 10).

47. — Quando alguma coisa atinge o fim para que foi feita, diz-se que
está salva; quando não atinge, diz-se que está perdida. Ora, o
homem é feito por Deus para a vida eterna. Quando ele chega lá,
está salvo; e esta é a vontade de Deus para ele. Esta é a vontade do
Pai que me enviou: que o que vir o Filho e crer nele, tenha a vida
eterna. (Jo 6, 40).

Esta vontade já se cumpriu nos anjos e santos, que vivem na pátria
celeste, pois vêem a Deus, o conhecem e gozam dele. Mas nós
desejamos que, assim como a vontade de Deus se cumpre nos Bem-
aventurados que estão no céu, se cumpra também em nós que
estamos na terra. Por isso pedimos na oração: «Seja feita a vossa
vontade» em nós, que estamos na terra, como nos Santos, que estão
no céu.


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48. — b) Quanto a nós, Sua vontade é que cumpramos Seus
mandamentos. Quando alguém deseja um bem, quer não só este
bem, como os meios para obtê-lo. Também o médico, para conseguir
a saúde do doente, quer a dieta, os remédios e outras coisas desse
gênero.

Ora, Deus quer que tenhamos a vida eterna.

Ao moço que lhe pergunta: Que devo fazer de bom para ter a vida
eterna? Jesus responde: Se queres entrar na vida eterna, guarda os
mandamentos (Mt 19, 17).

São Paulo escreve, a esse propósito, aos Romanos (12, 19): E não
vos conformeis com este mundo, mas reformai-vos com um espírito
novo, para que experimenteis qual é a vontade de Deus, boa,
agradável e perfeita.

A vontade de Deus é boa porque é útil. Sou o Senhor teu Deus, que
te ensina o que é útil. (ls 48, 17).

É agradável para aqueles que a amam. Se a vontade de Deus não é
grata aos que não a amam, para os que a amam é deliciosa. A luz
nasceu para os justos, a alegria para os retos de coração, diz o
Salmista (Sl 96, 11 ).

A vontade de Deus é também perfeita, porque é uma bondade
superior a tudo. Sede perfeitos, como vosso Pai celestial é perfeito,
prescrevia Jesus (Mt 5, 48).

Assim, quando dizemos, «Seja feita a vossa vontade», pedimos a
graça de observar os mandamentos de Deus.


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Ora, a vontade de Deus se cumpre nos justos, mas ainda não nos
pecadores. Os justos são designados pelo céu e os pecadores pela
terra.

Pedimos, pois que a vontade de Deus seja feita na terra, isto é nos
pecadores, como é feita no céu, nos justos.

49. — Notemos que Jesus, com o próprio modo de formular o terceiro
pedido do «Pai nosso» nos dá um ensinamento:

Jesus não nos faz dizer a nosso Pai: «fazei a vossa vontade», nem
tão pouco, «que nós façamos a vossa vontade», mas sim: «Seja feita
a vossa vontade».

Com efeito, duas coisas são necessárias para alcançarmos a vida
eterna: a graça de Deus e a vontade do homem.

Apesar de Deus ter criado o homem sem chamá-lo a cooperar na
criação, não o justifica, no entanto, sem a cooperação dele. «Aquele
que te criou sem ti, não te justificará sem ti» diz Santo Agostinho, em
seu comentário sobre São João. Realmente, Deus quer esta
cooperação do homem. Convertei-vos a mim, e eu me converterei a
vós, diz Ele em Zacarias (1,3); e São Paulo escreveu: (1 Cor 15, 10)
Pela graça de Deus sou o que sou e sua graça não tem sido vã em
mim.

Não sejais presumidos, mas confiai na graça de Deus; não
negligencieis o vosso esforço, mas trazei vossa cooperação.

É por isso que Jesus não nos manda dizer «que nós façamos a vossa
vontade», do contrário pareceria que a graça de Deus não tem nada
para fazer. Também não prescreve «Fazei a vossa vontade», senão
pareceria que nossa vontade e nosso esforço não servem para nada.


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Mas Jesus nos faz dizer: Seja feita a vossa vontade, pela graça de
Deus, à qual juntamos nosso trabalho e nosso esforço.

50. — c) em terceiro lugar, Deus quer que sejamos restabelecidos no
estado e na dignidade em que foi criado o primeiro homem.
Dignidade e estado tão elevados que seu espírito e sua alma não
sentiam qualquer oposição da parte da carne e da sensibilidade.

Enquanto a alma foi submissa a Deus, a carne foi submissa ao
espírito e tão perfeitamente que não experimentou nem a corrupção
da morte nem a alteração da doença e das outras paixões.

Mas a partir do momento em que o espírito e a alma, que estavam
entre Deus e a carne, se rebelaram contra Deus, pelo pecado,
também o corpo se rebelou contra a alma e começou a ter doenças e
a morrer, e sua sensibilidade continuamente se revoltou contra o
espírito. O que faz com que São Paulo diga: (Rm 7,23). Sinto nos
meus membros uma outra lei, que repugna à lei do meu espírito. E
(Gl 5, 17) A carne tem desejos contra o espírito e o espírito contra a
carne. Assim há uma guerra incessante entre o espírito e a carne; o
homem torna-se cada vez pior pelo pecado.

Deus quer que o homem seja restabelecido em seu primeiro estado,
isto é, que não haja nada na carne que se oponha a seu espírito; o
que São Paulo exprime assim (1 Ts 4, 3): Pois é essa a vontade de
Deus: a vossa santificação.

51. — Ora, esta vontade de Deus, quanto ao nosso corpo, não pode
realizar-se nesta vida. Ela se realizará na ressurreição dos santos,
quando seus corpos ressuscitarão gloriosos, incorruptíveis e
esplêndidos, segundo a palavra do Apóstolo (1 Cor 15,43): Semeia-se
na vileza, mas o corpo ressuscitará na glória.


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No entanto a vontade de Deus se realiza aqui em baixo, no espírito
dos justos, por sua justiça, ciência e vida. Assim, quando dizemos:
«Seja feita a vossa vontade», pedimos ao Senhor que realize sua
vontade também em nossa carne.

Segundo esta explicação, no pedido, «Seja feita a vossa vontade,
assim na terra, como no céu», a Palavra céu designa nosso espírito e
a palavra terra designa nossa carne. E o sentido deste pedido será:
que vossa vontade seja feita na terra, isto é, em nossa carne, como é
feita no céu, isto é, em nosso espírito, pela justiça.

52. — Este terceiro pedido nos faz chegar à bem-aventurança das
lágrimas, que o Senhor nos fez conhecer no Sermão da Montanha (Mt
5, 5): Bemaventurados os que choram, porque serão consolados. É
fácil demonstrá-la retomando os três pontos de nossa explicação.

Primeiramente, Deus quer para nós e nos faz desejar a vida eterna.
Por esse amor à vida eterna, somos levados a derramar lágrimas. Ai
de mim, canta o salmista, como é longo o meu exílio! (Sl 119,5). E
esse desejo de vida eterna, entre os santos, é tão forte que os faz
aspirar à morte, se bem que, em si mesma, ela seja objeto de
aversão. Nós preferimos deixar este corpo e estar presentes no
Senhor (2 Cor 5,8).

Em segundo lugar, os que guardam os mandamentos de Deus, para
obedecer à vontade de Deus, estão também na aflição, porque, se os
preceitos são doces para a alma, são amargos para a carne, pois a
mortificam. Falando da carne, e também de suas almas, o Salmista
diz dos justos (Sl 125, 5): Semearam em lágrimas, com alegria
ceifarão.

Em terceiro lugar, falamos da luta incessante entre nossa carne e
nosso espírito. Luta essa que é, igualmente, objeto de nossas
lágrimas. É impossível que neste combate a alma não receba alguns

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ferimentos da parte da carne, ao menos os dos pecados veniais. A
obrigação de expiar estas faltas é razão de lágrimas. Salmo 6,7:
Todas as noites, isto é, na obscuridade de meus pecados, regarei o
meu leito, isto é minha consciência. Os que choram assim, alcançarão
a pátria. Que Deus se digne de nos conduzir a ela.


O PÃO NOSSO
DE CADA DIA NOS DAI HOJE

53. — Muitas vezes, a grandeza da ciência e da sabedoria tornam o
homem tímido, e então é preciso ter força no coração, para que o
homem não desanime diante das necessidades.

O Senhor, diz Isaías (40, 29), dá força aos cansados e vigor aos que
são fracos. E Ezequiel (2, 2) também diz: Entrou em,mim o Espírito, e
me firmou sobre os meus pés.

O Espírito Santo, de um lado, dá força para impedir que o homem
desfaleça com o medo de não ter o necessário, e por outro lado, para
que o homem creia firmemente que Deus o proverá de tudo que
precisar.

Assim o Espírito Santo, dispensador desta força, nos ensina a dizer: O
pão nosso de cada dia nos dai hoje. E o chamamos Espírito de força.

54. — É preciso saber, que nos três pedidos precedentes do «Pai
Nosso», pedimos bens espirituais, cuja possessão começa neste
mundo, mas só será perfeita na vida eterna.

Com efeito, quando pedimos a santificação do nome de Deus,
pedimos que reconheçamos Sua santidade; pedindo a vinda de Seu
reino, pedimos alcançar a vida eterna; pedir para que a vontade de
Deus seja feita é pedir que Deus cumpra Sua vontade em nós. Todos

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esses bens, parcialmente realizados neste mundo, só o serão
perfeitamente, na vida eterna.

Também é necessário pedir a Deus alguns bens indispensáveis, cuja
possessão perfeita é possível na vida presente. Por isso, o Espírito
Santo nos ensina a pedir estes bens, necessários à vida presente e
perfeitamente possuídos aqui em baixo.

Ao mesmo tempo nos faz mostrar que é Deus que nos provê em
nossas necessidades temporais, quando dizemos: «O pão nosso de
cada dia nos dai hoje».

55. — Por estas palavras, Jesus nos ensina a evitar os cinco pecados
que se comete habitualmente por um desejo imoderado das coisas
temporais.

O primeiro destes pecados é que o homem, insaciável, quanto às
coisas que convêm a seu estado e a sua condição, e impelido por um
desejo desregrado, pede bens que estão acima de sua condição. Age
como um soldado que se queira vestir de oficial ou um clérigo, como
um bispo.

Este vício desvia o homem das coisas espirituais, porque o prende
excessivamente a coisas temporais.

O Senhor nos ensina a evitar tal pecado, mandando-nos pedir
somente o pão, quer dizer, os bens necessários a cada um nesta vida,
segundo a sua condição particular: sob o nome de «pão», estão
compreendidos todos esses bens. O Senhor não nos ensinou a pedir
coisas delicadas, variadas e exóticas, porém pão, sem o qual o
homem não pode viver e que é o alimento comum a todos. O
essencial da vida do homem, diz o Eclesiástico (29, 28), é a água e o
pão. E o Apóstolo escreveu a Timóteo (1,6, 8): Tendo pois com que
nos sustentar e com que nos cobrirmos, contentemo-nos com isso.

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56. — Um segundo vício consiste em cometer-se injustiças e fraudes
na aquisição dos bens temporais.

Este é um vício perigoso, porque é difícil restituir os bens roubados e,
segundo Santo Agostinho, «tal pecado não é perdoado, se não
restituímos o que foi roubado».

O Senhor nos ensina a evitar este vício, pedindo para nós, não o pão
de outrem, mas o nosso. Os ladrões comem o pão dos outros e não o
seu próprio.

57. — O terceiro pecado é a solicitude excessiva para com os bens
terrenos. Há pessoas que nunca estão satisfeitas com o que têm e
querem sempre mais.

Senhor, não me deis nem a Pobreza nem a riqueza: dai-me somente
o que for necessário para viver, dizem os Provérbios (30, 8).

Jesus nos ensina a evitar este pecado pelas palavras: «de cada dia
nos dai hoje», quer dizer, o pão de um só dia ou de uma só unidade
de tempo.

58. — O quarta vício, causado pela apetite desmesurado das coisas
daqui de baixa, consiste numa insaciável avidez das bens terrenas,
uma verdadeira voracidade.

Querem consumir em um só dia o que é suficiente para muitas dias.
Estes não pedem o pão de um dia, mas o de dez. Gastando sem
medida, chegam a dissipar todas os seus bens, segundo a palavra dos
Provérbios (23, 21): Passando o tempo a beber e a comer se
arruínam, e segunda esta outra palavra (Ecl. 19, 1): O operário dado
ao vinho não enriquecerá.


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59. — O deseja desregrada dos bens terrestres engendra um quinto
pecado, a ingratidão.

Este é o deplorável vício do homem que se orgulha de suas riquezas e
não reconhece que as deve a Deus, autor de todos os bens espirituais
e temporais, segunda a palavra de Davi (I Par. 29, 14): Teu é tudo e
o recebemos de tua mão.

Para afastar esse vício e fixarmos que todos esses bens vêm de Deus,
Jesus nos faz dizer: «Dai-nos nosso pão».

60. — Recolhamos a lição da experiência e das Sagradas Escrituras a
respeito do caráter perigosa e nociva das riquezas.

Quantas vezes se possui grandes riquezas e não se tira qualquer
utilidade delas, mas, ao contrário, males espirituais e temporais.

Há homens que morrem par causa de suas riquezas. Há ainda um mal
que tenho visto debaixo do sol, diz o Eclesiastes (6, 1-2), e ordinário
por certo entre os homens: um homem a quem Deus deu riquezas,
bens e honra; nada falta à sua alma de tudo o que pode desejar, e
Deus não lhe concedeu o poder de gozar destes bens, mas virá um
homem estranho a devorar suas riquezas. E diz ainda o Eclesiastes
(5, 12): Ainda há outra enfermidade bem má debaixo do sol: as
riquezas acumuladas em detrimento de seu dono.

Devemos, portanto, pedir a Deus que nossas riquezas nos sejam
úteis. Quando dizemos: «Dai-nos o nosso pão», é isso que pedimos,
que os nossos bens nos sejam úteis e que não se verifique conosco o
que está escrito do homem mau (Jo 20, 14,15): o pão, em suas
entranhas, se converterá em fel de áspides. Vomitará as riquezas que
devorou e Deus lhas fará sair das entranhas.


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61 — Voltando ao vício de uma solicitude excessiva em relação aos
bens terrenos, vemos homens que se inquietam hoje com o pão de
um ano inteiro, e se chegam a possuí-lo, nem por isso, deixam de se
atormentar. Mas o Senhor lhes diz (Mt 6, 31): Não vos inquieteis,
pois, dizendo: que comeremos ou o que beberemos ou com que nos
vestiremos? Também Deus nos ensina a pedir para hoje o pão nosso,
quer dizer, o necessário para o momento presente.

62. — Existem além do pão, alimento do corpo, duas outras
qualidades de pão. O pão sacramental e o da palavra de Deus.

Na Oração Dominical também pedimos nosso pão sacramental que é
todo dia preparado na Igreja e que recebemos como sacramento,
como penhor de nossa salvação.

Jesus declarou aos Judeus (Jo 6,5): Eu sou o Pão vivo que desceu do
céu. — Quem come deste pão, e bebe do cálice do Senhor
indignamente, come e bebe para si a condenação (1 Cor 11, 29).

Pedimos também na Oração Dominical este outro pão que é a palavra
e Deus. Deste pão disse Jesus (Mt 4, 4): Não só de pão vive o
homem, mas de toda a palavra que vem da boca de Deus.

Pedimos assim que nos dê pão, isto é, o Verbo de Deus, de onde
provém para o homem a bem-aventurança da fome e sede de justiça.
Quanto mais bens espirituais possuímos, mais desejamos e este
desejo aguça o apetite e a fome, que será saciada na vida eterna.




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PERDOAI AS NOSSAS DÍVIDAS ASSIM COMO
NÓS PERDOAMOS AOS NOSSOS DEVEDORES

64. — Encontramos homens de grande sabedoria e força, mas quem
confia em sua própria força não trabalha com sabedoria nem conduz
até o final aquilo que se propusera fazer. Parecem ignorar que os
conselhos dão força às reflexões. Como ensinam os Provérbios (20,
18).

Mas notemos que o Espírito Santo que dá a força, dá também o
conselho; pois qualquer bom conselho relativo à salvação do homem
só pode vir do Espírito Santo.

O conselho é necessário ao homem, quando este sofre tribulações,
assim como o conselho do médico, quando se está doente. Quando
um homem está espiritualmente doente pelo pecado, deve pedir
conselho. E Daniel mostra que o conselho é necessário ao pecador,
quando diz ao rei Nabucodonosor (Dn 4, 24): Segue, ó rei, o conselho
que te dou, redime os teus pecados com esmolas.

O conselho de dar esmolas e ser misericordioso é excelente para
apagar os pecados. Por isso o Espírito Santo ensina aos pecadores
esta oração pedindo: Perdoai as nossas dívidas, assim como nós
perdoamos os nossos devedores.

Além disso devemos verdadeiramente a Deus aquilo a que Ele tem
direito e que nós lhe recusamos. Ora, o direito de Deus exige que
façamos Sua vontade, preferindo-a à nossa vontade. Ofendemos,
portanto, seu direito, quando preferimos nossa vontade à sua, e isto
é o pecado. Assim os pecados são nossas dívidas para com Deus. E o
Espírito Santo nos aconselha que peçamos a Deus o perdão de nossos
pecados e por isso dizemos: Perdoai as nossas dívidas.

65. — Sobre estas palavras podemos fazer três considerações:

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a) Primeiro, por que fazemos este pedido?
b) Segundo, quando será realizado?
c) Terceiro, que devemos fazer para que Deus realize nosso pedido?

a) Da primeira, tiramos dois ensinamentos necessários ao homem,
nesta vida.

Um, que o homem deve sempre temer a Deus e ser humilde. Há
quem seja bastante presunçoso para dizer que podemos viver neste
mundo de modo a evitar o pecado. Mas isto a ninguém foi dado, a
não ser ao Cristo que possui o Espírito em toda a plenitude; e à Bem-
aventurada Virgem, cheia de graça e imaculada, da qual dizia Santo
Agostinho: «Desta (Virgem) não quero fazer a menor menção,
quando falo do pecado». Mas a nenhum outro santo foi concedido não
cair em pecado ou, ao menos, não incorrer em algum pecado venial.
Diz, em sua Epístola, São João: Se dissermos que estamos sem
pecado, nós mesmos nos enganamos, e não há verdade em nós. (I,
1,8).

E isto tudo é provado pelo próprio pedido. Firmamos, pois, que a
todos, santos ou não, convém dizer o Pai Nosso, com o pedido:
Perdoai as nossas dívidas. Portanto, cada homem se reconhece e se
confessa pecador e indubitavelmente devedor. Se, pois, sois pecador,
deveis temer e vos humilhar.

O outro ensinamento é que vivamos sempre na esperança. Ainda que
sejamos pecadores, não devemos desesperar. O desespero nos leva a
outros e mais graves pecados, como nos diz o Apóstolo (Ef 4, 19):
Desesperando, entregaram-se à dissolução e a toda sorte de
impurezas.


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É, pois, muito útil que sempre esperemos. O homem, por mais
pecador que seja, deve esperar sempre o perdão de Deus, se seu
arrependimento é verdadeiro, se se converteu perfeitamente.

Ora, esta esperança se fortifica em nós, quando pedimos: Pai nosso,
perdoai as nossas dívidas.

67. — Os hereges Navatini negavam essa esperança, dizendo que
aquele que peca, depois do batismo, não alcança a misericórdia. Ora,
isto não é verdade, se é verdade o que Cristo diz (Mt 18,32): Perdoei-
te a dívida toda, porque me pediste.

Assim, em qualquer dia em que pedirdes, podereis obter a
misericórdia, se rogardes arrependidos por terdes pecado.

Se, portanto, por esse pedido, nasce o temor e a esperança e todo
pecador contrito alcança a misericórdia, concluímos o quanto é
necessário fazê-lo.

68. — b) Quanto à segunda consideração, é preciso lembrar que, no
pecado, são dois os elementos presentes: a culpa, pela qual se
ofende a Deus, e o castigo devido pela ofensa.

Ora, a falta é remida pela contrição, se esta é acompanhada do
propósito de se confessar e de satisfazê-la. Declara o Salmista (Sl 31,
5): Eu disse: confessarei ao Senhor contra minha injustiça; e tu me
perdoaste a impiedade de meu pecado.

Como dissemos, se a contrição dos pecados, com o propósito de
confessá-los, basta para obter sua remissão, o pecador não deve
desesperar.

69. — Mas alguém pode objetar: se a contrição do pecado redime a
culpa, porque é necessário a confissão ao sacerdote?

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A esta pergunta responderemos: Deus, pela contrição, redime o
pecado, mudando o castigo eterno em castigo temporal; o pecador,
contrito, fica submetido à pena temporal,

Assim, se o pecador morre sem confissão, não por tê-la desprezado,
mas porque a morte o surpreendeu, irá para o purgatório onde,
segundo Santo Agostinho, sofrerá muitíssimo. No entanto, ao vos
confessar, o sacerdote vos absolve da pena temporal pelo poder das
chaves, ao qual vos submeteis na confissão; pois disse Cristo aos
Apóstolos (Jo, 20,22,23): Recebei o Espírito Santo; àqueles a quem
perdoardes os pecados, serão perdoados e aos que os retiverdes,
serão retidos. Assim, quando se confessa uma vez, alguma parte da
pena é perdoada e do mesmo modo, quando se repete a confissão ou
se confessa, tantas vezes, quanto necessário, será totalmente
perdoada.

70. — Os sucessores dos Apóstolos acharam um outro modo de remir
a pena temporal: pelo benefício das indulgências. Para quem vive na
caridade, as indulgências têm o valor que o Papa lhes pode conferir.

Quando os santos fazem boas obras, sem terem pecado, ao menos
mortalmente, essas obras são úteis para a Igreja. Do mesmo modo
os méritos de Cristo e da bem-aventurada Virgem são reunidos como
um tesouro. O Soberano Pontífice e aqueles a quem ele confiou tal
cuidado, podem aplicar estes méritos, onde mais houver necessidade.
Assim, pois, os pecados são remidos, quanto à falta, peia contrição, e
quanto à pena, pela confissão e pelas indulgências.

71. — c) Quanto à terceira consideração: que devemos fazer para que
Deus realize nosso pedido, Deus requer, de nossa parte, que
perdoemos ao próximo as ofensas que nos fez. É por isso que nos faz
dizer: assim como nós perdoamos os nossos devedores. Se agirmos
de outra maneira, Deus não nos perdoará.

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Diz-nos o Eclesiástico (28, 2-5): Perdoa a teu próximo o mal, que te
fez e a seu pedido teus pecados ser-te-ão perdoados. O homem
guarda sua ira para com outro homem e pede a Deus remédio? Não
tem compaixão de um homem seu semelhante, e pede perdão de
seus pecados? Sendo carne, conserva rancor e pede propiciação a
Deus? Quem lha alcançará por seus delitos? Perdoai, (Lc 6, 37), e
ser-vos-á perdoado.

É por isso que neste quinto pedido do Pai N'osso o Senhor nos põe
uma única condição: perdoai o outro. Se assim não fazemos, não
seremos perdoados.

72. — Mas poderíamos dizer: Direi as primeiras palavras do pedido a
saber: perdoai as nossas dívidas, mas não as últimas: como nós
perdoamos aos nossos devedores.

Quereis enganar a Cristo? Mas certamente não enganareis. Cristo
compôs esta oração e dela se lembra bem; como podeis enganá-lo?
Portanto, se dizeis com a boca, ratificai com o coração.

73. — Mas, perguntamos, aquele que não tem o propósito de perdoar
seu próximo deve dizer: Assim como nós perdoamos os nossos
devedores?

Parece que não, pois estaria mentindo.

Mas respondo que não estaria mentindo, porque não está rezando em
seu nome, mas em nome da Igreja, que não se engana. É por isso
que esse pedido foi posto no plural.

74. — Precisamos saber que há dois modos de perdoar o próximo. O
primeiro é o dos perfeitos, que leva os ofendidos a procurarem os
ofensores, como diz o Salmista: (Sl 33, 15): Procurai a paz.

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O segundo modo de perdoar é comum a todos, é a obrigação de
todos; nada mais é que perdoar os que pedem perdão, como diz o
Eclesiástico; (28, 2) Perdoa teu próximo pelo mal que te fez e a seu
pedido teus pecados ser-te-ão perdoados.

75. — Bem-aventurados os misericordiosos, é o fruto deste quinto
pedido. Porque nos leva a ter misericórdia para com o próximo.

E NÃO NOS DEXEIS CAIR EM TENTAÇÃO

76. — Há pecadores que desejam obter o perdão de seus pecados;
confessam-se e fazem penitência, mas não se aplicam como devem,
para não recaírem no pecado. São inconseqüentes consigo mesmos,
pois choram e se arrependem de seus pecados, para em seguida
caírem novamente nos mesmos pecados e assim acumularem motivo
para lágrimas futuras. A propósito disto, diz o Senhor em Isaias: (1,
16) Lavai-vos, purificai-vos, tirai de diante de meus olhos a
malignidade de vossos pensamentos: deixai de fazer o mal.

É por isso que Cristo, como dissemos, nos ensina, no pedido anterior,
a implorar o perdão de nossos pecados e neste, a graça de evitar o
pecado dizendo: e não nos deixeis cair em tentação, pois é
verdadeiramente a tentação que nos induz ao pecado.

77. — Neste pedido três questões atraem nossa atenção:

a) Que é a tentação?
b) Como e por quem o homem é tentado?
c) Como se livra da tentação?

78. — a) Que é a tentação?


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Tentar não quer dizer mais do que: por à prova. Assim, tentar o
homem, é por à prova sua virtude. A tentação pode ser de duas
maneiras, segundo as exigências da virtude humana. Uma, quanto à
perfeição da obra e outra, que o homem se guarde de todo o mal. É o
que diz o Salmista: (Sl 33, 15) Evita o mal e faze o bem.

A virtude do homem será pois provação, tanto do ponto de vista da
excelência de se agir, quanto do seu afastamento do mal.

79. — Se sois provados para saber, se estais prontos para praticar o
bem, como, por exemplo, jejuar, e estais efetivamente prontos para o
bem, grande é a vossa virtude.

Deste modo Deus prova o homem, não porque Ele não conhece sua
virtude, mas para que assim todos a fiquem conhecendo e o tenham
como exemplo. Deste modo Deus tentou Abraão (Gn 22) e Jó. Por
isso Deus envia tribulações aos justos; se suportam com paciência,
sua virtude é manifesta e progridem na virtude. O Senhor vosso Deus
vos tenta, para se fazer manifesto se o amais ou não, dizia Moisés
aos Hebreus (Dt 13, 3). Portanto Deus tenta o homem, provocando-o
a fazer o bem.

80. — O segundo modo de tentar a virtude do homem é incitá-lo ao
mal. E se o homem resiste fortemente e não consente, sua virtude é
grande, mas se ele não resiste, onde está sua virtude?

Deus nunca tenta o homem deste modo, pois nos diz São Tiago: (1,
13): Ninguém, quando é tentado, diga que Deus é que o tenta, pois
Ele é incapaz de tentar para o mal. Mas quem tenta o homem é a
própria carne, o diabo e o mundo.

81. — b) Como e por quem é o homem tentado?

A carne tenta o homem de dois modos.

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Primeiro, instigando o homem para o mal, pela procura dos gozos
carnais, que são sempre ocasião de pecado. Quem permanece nos
gozos carnais, negligencia as coisas espirituais. Diz-nos São Tiago:
Cada um é tentado por sua própria concupiscência que o arrasta e
seduz (Tg 1, 14).

Em segundo lugar, a carne nos tenta, desviando-nos do bem. Pois o
espírito, por si mesmo, se deleita sempre com os bens espirituais;
mas o peso da carne entrava o espírito. O corpo que se corrompe faz
pesada a alma, diz o Livro da Sabedoria (9, 15) e São Paulo escreve
aos romanos (7, 22): Pois me deleito na lei de Deus, segundo o
homem interior; sinto, porém, nos meus membros outra lei, que
repugna à lei de meu espírito e que me prende à lei do pecado, que
está em meus membros.

Esta tentação da carne é muito forte porque a carne, nossa inimiga,
está ligada a nós. E como disse Boécio: «Nenhuma peste é tão
nociva, quanto um inimigo familiar». Por isto é preciso estar vigilante
contra a carne. Vigiai e orai, para não cairdes em tentação. (Mt 26,
41).

82. — Ora, uma vez a carne dominada, outro inimigo aparece, o
diabo, contra quem é enorme nossa luta. Diz-nos São Paulo: (Ef 6,
12) — não temos que lutar contra a carne e o sangue apenas, mas
sim contra os principados e potestades, contra os dominadores do
mundo das trevas, contra os espíritos de malícia, espalhados pelos
ares. Donde é o diabo expressamente chamado o tentador, como nos
mostra São Paulo: (1 Ts 3,5): Não vos haja tentado aquele que tenta.

O diabo age astutamente nas tentações. Assim como um general de
exército, que sitia uma fortaleza, considera os pontos fracos que quer
atacar, o diabo considera onde o homem é mais fraco para aí tentá-
lo. E por isso tenta-o nos vícios a que o homem, subjugado pela

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carne, é mais inclinado, como o vício da ira, da soberba e outros
vícios espirituais. Vosso adversário, o demônio, como um leão a rugir
anda ao redor de vós, procurando a quem devorar, diz-nos São
Pedro. (1 Pd 5, 8).

83. — O demônio usa de suas táticas em suas tentações. No primeiro
momento da tentação não propõe ao homem nada de
declaradamente mau, mas alguma coisa que ainda tenha a aparência
de um bem. Assim, de início, desvia ligeiramente o homem de sua
orientação geral interior, o suficiente para, em seguida, levá-lo
facilmente a pecar. Sobre isto escreve o Apóstolo aos Coríntios: (2
Cor 11, 14): O próprio Satanás se transfigura em anjo da luz.

Depois de ter induzido o homem ao pecado, prende-o para não
permitir que ele se liberte de suas faltas.

Assim o demônio faz duas coisas: engana o homem e o conserva
enganado em seu pecado.

84. — O mundo por sua vez nos tenta de duas maneiras. Em primeiro
lugar, por um desejo desmesurado das coisas temporais. A cupidez é
raiz de todos os males, diz o Apóstolo (Tm 6, 10).

Em segundo lugar, o mundo nos incita ao mal por medo das
perseguições e dos tiranos. Estamos envolvidos pelas trevas (Jo 37,
19) Pois todos os que quiserem viver piamente em Cristo Jesus
sofrerão perseguição, escreve São Paulo (2 Tm 3, 12). E o Senhor
recomenda a seus discípulos: (Mt 10, 20) Não temais os que matam o
corpo.

85. — c) Até aqui mostramos o que é a tentação e como o homem é
tentado. Vejamos agora como o homem se livra da tentação.


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Sobre isso é preciso notar que Cristo nos ensinou não a pedirmos
para não sermos tentados, mas para não cairmos em tentação. Com
efeito, é vencendo a tentação que o homem merece a coroa da glória.
(cf. 1 Cor 9,25); (Pd 5, 4) É por isso que São Tiago (1, 2) declara:
Meus irmãos, tende em conta da maior alegria o passardes por
diversas tentações. E o Eclesiástico nos adverte: (2, 1): Filho, quando
entrares no serviço de Deus... prepara tua alma para a tentação. Diz
ainda São Tiago (1, 12) Bem-aventurado o homem que suporta a
tentação; porque depois de ser provado, receberá a coroa da vida.
Assim Jesus nos ensina a pedir ao Pai para não cairmos em tentação,
dando a esta nosso consentimento. Diz-nos São Paulo: (1 Cor 10, 13)
Não vos sobreveio nenhuma tentação, que não seja humana. Ser
tentado é humano, mas consentir é ter parte com o diabo.

86. — Poderão objetar: uma vez que o Cristo disse explicitamente:
Não nos induzi em tentação, isto é, não nos façais cair em tentação,
não se deve deduzir daí, que é o próprio Deus, mais do que o diabo,
que nos empurra ativamente para o mal?

Respondo assim:

É pelo fato de permitir o mal e não levantar contra ele obstáculo que
Deus, por assim dizer, leva o homem a praticar o mal. Assim Deus
será dito induzir o homem em tentação, quando retira dele sua graça,
por causa dos inúmeros pecados anteriores deste homem; o que terá
por efeito fazer o homem cair em novo e pior pecado. Para ser
preservado desse mal, o Salmista pede a Deus em sua prece: (Sl 70,
90): Quando minhas forças faltarem, não me desampares.

Por outro lado, graças ao fervor da caridade, dado por Deus, o
homem é ajudado de tal modo que não é induzido em tentação no
sentido acima (n° 82, 83). A caridade, por menor que seja, resiste a
qualquer pecado. As muitas águas não puderam extinguir a caridade,
diz o Cântico dos Cânticos (8, 7).

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Assim como Deus nos dirige pela luz da inteligência, também pela
inteligência nos mostra as obras que devemos realizar. Segundo
Aristóteles, todo pecador é um ignorante. Diz o Senhor (Sl 31, 8):
Inteligência te darei e te instruirei neste caminho. E Davi pede esta
luz, para bem agir (Sl 12, 4-5): Ilumina meus olhos, para que eu não
durma jamais na morte. Para que o meu inimigo não venha a dizer:
Eu prevaleci contra ele.

87. — Esta luz nos vem pelo Dom da Inteligência.

Se recusamos nosso consentimento à tentação, guardamos a pureza
de coração santificada por Jesus: (Mt 5, 8): Bem-aventurados os
puros de coração, pois verão a Deus; e nós chegaremos à visão de
Deus.

Que Deus a ela nos conduza efetivamente.



MAS LIVRAI-NOS DO MAL.
AMÉM

88. — Nos pedidos precedentes, o Senhor nos ensina a implorar o
perdão dos pecados e nos mostra como escapar das tentações. Aqui
nos ensina a pedir que sejamos preservados do mal.

Este é um pedido geral. Segundo Santo Agostinho, visa as diferentes
espécies de males: pecados, doenças, aflições. Já falamos do pecado
e da tentação; resta-nos tratar das outras categorias de males: todas
as adversidades e aflições deste mundo. Deus nos livra delas de
quatro maneiras.


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89. — Em primeiro lugar, Deus livra o homem das aflições,
afastando-as dele; o que faz raramente. Neste mundo, os santos são
afligidos. Todos os que quiserem viver piamente em Cristo
Jesus, padecerão perseguição, diz São Paulo. (2 Tm 3, 12).

No entanto, às vezes, Deus concede a alguns não serem afligidos.
Quando Deus sabe que uma pessoa não suporta a prova, age como
um médico que evita dar remédios violentos a um doente muito mal.
Eis, diz o Senhor, (Ap 3,8) que pus diante de ti uma porta aberta que
ninguém pode fechar.

Na pátria celeste é lei geral que ninguém seja afligido. Está no
Apocalipse: (7, 16-17) Já não terão fome nem sede, nem cairá sobre
eles o sol nem calor algum. Porque o Cordeiro, que está no meio do
trono, os guardará e os levará às fontes das águas da vida, e Deus
enxugará toda lágrima dos seus olhos.

90. — Em segundo lugar, Deus nos livra do mal, enviando-nos
consolações no tempo das aflições. Sem as consolações divinas, o
homem não pode subsistir no meio das provações. Diz-nos São Paulo:
(2 Cor 1, 8) Fomos mal tratados desmedidamente, além de nossas
forças, e acrescenta: (2 Cor 7, 6) Deus porém que consola os
humildes, consolou-nos. E canta o Salmista: (93, 19) Segundo as
muitas dores que provou meu coração, as tuas consolações
alegraram a minha alma.

91. — Em terceiro lugar, Deus cumula os aflitos de tantos benefícios,
que chegam a esquecer seus males. Depois da tempestade vem a
bonança, dizia Tobias (3, 32). Assim não devemos temer as aflições e
tribulações do mundo, que são facilmente suportadas por causa das
consolações que Deus mistura a elas e também por causa de sua
pouca duração. Diz São Paulo (2 Cor 4, 17) A ligeira tribulação do
momento presente prepara para nós um peso eterno de glória, além

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de toda medida. Pois é a tribulação que nos faz alcançar a vida
eterna.

92. — Em quarto lugar — e para estender a idéia do mal a todos os
males (n° 88) — Deus tira o bem de todos os males, tentações e
tribulações.

Jesus não nos faz dizer: livrai-nos da tribulação, mas: livrai-nos do
risco do mal que essas tribulações trazem.

Com efeito, as tribulações são dadas aos santos, para seu bem, para
que mereçam a coroa da glória. Por isso, ao invez de pedir para
serem liberados das tribulações, os santos fazem suas as palavras do
Apóstolo: (Rm 5, 3) Não só nos gloriamos na esperança e na glória de
Deus, mas também nos gloriamos nas tribulações, sabendo que as
tribulações produzem a paciência. E repetem a oração de Tobias: (3,
13) Bendito seja o teu nome, ó Deus de nossos pais, que no tempo
da aflição, perdoas os pecados aos que te invocam.

Assim Deus livra o homem do mal e da tribulação, transformando o
mal em bem, o que é o sinal da maior sabedoria, pois, com efeito,
pertence ao sábio ordenar o mal ao bem. Deus atinge este objetivo,
dando ao homem paciência nas tribulações. As outras virtudes se
servem dos bens, mas a paciência é a única que tira proveito dos
males. São eles que a fazem necessária e é por isso que sua
necessidade só aparece no meio dos males, isto é, nas adversidades.
Lemos nos Provérbios: (19, 11) A sabedoria do homem conhece-se
pela sua paciência, o que faz com que ordene o mal para o bem.

93. — É por isso que o Espírito Santo, pelo dom de Sabedoria, nos faz
dirigir este pedido ao Pai. Graças a este dom, alcançaremos a bem-
aventurança, para a qual nos ordena a paz. A paciência, com efeito,
nos assegura a paz, na adversidade. E por isso os pacíficos são
chamados filhos de Deus, pois, são semelhantes a Deus. A eles, como

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a Deus, nada pode perturbar, nem a prosperidade nem a
adversidade. Bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados
filhos de Deus. (Mt 5, 9).

94. — Amém é a reafirmação geral de todos os sete pedidos da
Oração Dominical.



RESUMO

95. — Para se ter uma visão geral sobre a Oração Dominical, basta
saber que contém tudo que devemos desejar e tudo de que é preciso
fugir e evitar.

Ora, entre os bens desejáveis, o mais desejado é também o mais
amado. Por isto, no nosso primeiro pedido: santificado seja o vosso
nome, pedimos a glória de Deus.

De Deus esperais para vós mesmos, três bens.

O primeiro é a vida eterna que pedis, quando dizeis: venha a nós o
Vosso reino.

O segundo é que façais a vontade de Deus e a sua justiça, e o pedis
dizendo: seja feita a vossa vontade, assim na terra, como no céu.

O terceiro bem consiste em possuir as coisas necessárias para vossa
vida, e as pedis assim: o pão nosso de cada dia nos dai hoje.

Destes três objetos de nossos desejos que são:

— o reino de Deus ou a vida eterna;
— a vontade de Deus e sua justiça;

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— os bens necessários à vida desta terra, nos fala o Senhor dizendo:
(Mt 6, 33):

buscai o reino de Deus
e sua justiça
e o resto vos será dado por acréscimo!

A isto correspondem exatamente os três objetos de nossos desejos,
enumerados acima e solicitados no segundo, terceiro e quarto
pedidos da Oração Dominical.

Dissemos também que o Pai nosso contém tudo de que devemos fugir
e evitar. Precisamos fugir e evitar tudo que é contrário ao bem. O
bem é aquilo que antes de mais nada desejamos. São quatro os bens
que desejamos:

O primeiro é a glória de Deus. Bem ao qual nenhum mal se opõe. Diz-
nos o livro de Jó: (35, 6) Se pecares em que prejudicarás a Deus? E
se as tuas ofensas se multiplicarem, que farás tu contra Ele?
Ademais, se agires como justo, que lhe darás? Com efeito, a glória de
Deus resulta da punição do mal e da recompensa do bem.

O segundo bem, objeto de nossos desejos, é a vida eterna. Opõe-se
ao pecado, porque, pelo pecado, perdemos a vida eterna. Também
para afastar o pecado dizemos: Perdoai as nossas dívidas, assim
como nós perdoamos aos nossos devedores.

O terceiro bem consiste na justiça e nas boas obras. A tentação se
opõe a uma e às outras, pois nos impede de realizar o bem. Para
afastá-la, dizemos: e não nos deixeis cair em tentação.

O quarto bem são as coisas necessárias à nossa vida terrestre. E a
estas são contrárias as adversidades e as tentações, por isso pedimos
para removê-las: Livrai-nos do mal. AMÉM.

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A SAUDAÇAO ANGÉLICA

PRÓLOGO

1. — A saudação angélica é dividida em três partes: A primeira,
composta pelo Anjo: Ave, cheia de graça, o Senhor é contigo, bendita
és tu entre as mulheres. (Lc 1, 28).

A segunda é obra de Isabel, mãe de João Batista, que disse: Bendito
é o fruto do teu ventre.

A terceira parte, a Igreja acrescentou: Maria

O Anjo não disse: Ave Maria e sim, Ave, Cheia de graça. Mas este
nome de Maria, efetivamente, se harmoniza com as palavras do Anjo,
como veremos mais adiante.

AVE

2. — Na antiguidade, a aparição dos Anjos aos homens era um
acontecimento de grande importância e os homens sentiam-se
extremamente honrados em poder testemunhar sua veneração aos
Anjos.

A Sagrada Escritura louva Abraão por ter dado hospitalidade aos
Anjos e por tê-los reverenciado.

Mas um Anjo se inclinar diante de uma criatura humana, nunca se
tinha ouvido dizer antes que o Anjo tivesse saudado à Santíssima
Virgem, reverenciando-a e dizendo: Ave.


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3. — Sé na antiguidade o homem reverenciava o Anjo e o Anjo não
reverenciava o homem, é porque o Anjo é maior que o homem e o é
por três diferentes razões:

Primeiramente, o Anjo é superior ao homem por sua natureza
espiritual.

Está escrito: Dos seres espirituais Deus fez seus Anjos. (Sl 103).

4. — O homem tem uma natureza corrutível e por isso Abraão dizia a
Deus: (Gn 18, 27) Falarei a meu Senhor, eu que sou cinza e pó.

Não convém que a criatura espiritual e incorruptível renda
homenagem à criatura corruptível.

Em segundo lugar, o Anjo ultrapassa o homem por sua familiaridade
com Deus.

Com efeito, o Anjo pertence à família de Deus, mantendo-se a seus
pés. Milhares de milhares de Anjos o serviam, e dez milhares de
centenas de milhares mantinham-se em sua presença, está escrito
em Daniel (7, 10).

Mas o homem é quase estranho a Deus, como um exilado longe de
sua face pelo pecado, como diz o Salmista: (54, 8) Fugindo, afastei-
me de Deus.

Convém, pois, ao homem honrar o Anjo por causa de sua
proximidade com a majestade divina e de sua intimidade com ela.

Em terceiro lugar, o Anjo foi elevado acima do homem, pela plenitude
do esplendor da graça divina que possui. Os Anjos participam da
própria luz divina em mais perfeita plenitude. Pode-se enumerar os
soldados de Deus, diz Jó (25, 3) e haverá algum sobre quem não se

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levante a sua luz? Por isso os Anjos aparecem sempre luminosos. Mas
os homens participam também desta luz, porém com parcimônia e
como num claro-escuro.

Por conseguinte, não convinha ao Anjo inclinar-se diante do homem,
até, o dia em que apareceu urna criatura humana que sobrepujava os
Anjos por sua plenitude de graças (cf n° 5 a 10), por sua
familiaridade com Deus (cf. n° 10) e por sua dignidade.

Esta criatura humana foi a bem-aventurada Virgem Maria. Para
reconhecer esta superioridade, o Anjo lhe testemunhou sua
veneração por esta palavra: Ave.



CHEIA DE GRAÇA

5. — Primeiramente, a bem-aventurada Virgem ultrapassou todos os
Anjos por sua plenitude de graça, e para manifestar esta
preeminência o Arcanjo Gabriel inclinou-se diante dela, dizendo: cheia
de graça; o que quer dizer: a vós venero, porque me ultrapassais por
vossa plenitude de graça.

6. — Diz-se também da Bem-aventurada Virgem que é cheia de
graça, em três perspectivas:

Primeiro, sua alma possui toda a plenitude de graça. Deus dá a graça
para fazer o bem e para evitar o mal. E sob esse duplo aspecto a
Bem-aventurada Virgem possuía a graça perfeitissimamente, porque
foi ela quem melhor evitou o pecado, depois de Cristo.

O pecado ou é original ou atual; mortal ou venial.

A Virgem foi preservada do pecado original, desde o primeiro instante

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de sua concepção e permaneceu sempre isenta de pecado mortal ou
venial.

Também está escrito, no Cântico dos Cânticos: (4, 7) Tu és formosa,
amiga minha, e em ti não há mácula.

«Com exceção da Santa Virgem, diz Santo Agostinho, em seu livro
sobre a natureza e a graça; todos os santos e santas, em sua vida
terrena, diante da pergunta: «estais sem pecados?» teriam gritado a
uma só voz: «Se disséssemos: estamos sem pecado (cf. 1, Jo 1, 6),
estaríamos enganando-nos a nós mesmos e a verdade não estaria
conosco».

«A Virgem santa é a única exceção. Para honrar o Senhor, quando se
trata a respeito do pecado, não se faça nunca referência à Virgem
Santa. Sabemos que a ela foi dada uma abundância de graças maior,
para triunfar completamente do pecado. Ela mereceu conceber
Aquele que não foi manchado por nenhuma falta».

Mas o Cristo ultrapassou a Bem-aventurada Virgem. Sem dúvida, um
e outro foram concebidos e nasceram sem pecado original. Mas
Maria, contrariamente a seu Filho, lhe é submissa de direito. E se ela
foi, de fato, totalmente preservada, foi por uma graça e um privilégio
singular de Deus Todo Poderoso que é devido aos méritos de seu
Filho, Jesus Cristo, Salvador do gênero humano. (N.T.).

7. — A Virgem realizou também as obras de todas as virtudes. Os
outros santos se destacam por algumas virtudes, dentre tantas. Este
foi humilde, aquele foi casto, aquele outro, misericordioso, por isto
são apresentados como modelo para esta ou aquela determinada
virtude; como, por exemplo, se apresenta São Nicolau, como modelo
de misericórdia.

Mas a Bem-aventurada Virgem é o modelo e o exemplo de todas as

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virtudes. Nela achareis o modelo da humildade. Escutai suas
palavras: (Lc 1, 38) Eis a escrava do Senhor. E mais (Lc 1, 48): O
Senhor olhou a humildade de sua serva. Ela é também o modelo da
castidade: ela mesma confessa que não conheceu homem (cf. Lc 1,
43). Como é fácil constatar, Maria é o modelo de todas as virtudes.

A Bem-aventurada Virgem é pois cheia de graça, tanto porque faz o
bem, como porque evita o mal.

8. — Em segundo lugar, a plenitude de graça da Virgem Santa se
manifesta no reflexo da graça de sua alma, sobre sua carne e todo o
seu corpo.

Já é uma grande felicidade que os santos gozem de graça suficiente,
para a santificação de suas almas. Mas a alma da Bem-aventurada
Virgem Maria possui uma tal plenitude de graça, que esta graça de
sua alma reflete sobre sua carne, que, por sua vez, concebe o Filho
de Deus.

Porque o amor do Espírito Santo, nos diz Hugo de São Vitor, arde no
coração da Virgem com um ardor singular, Ele opera em sua carne
maravilhas tão grandes, que dela nasceu um Homem Deus, como
avisa o Anjo à Virgem santa: (Lc 1, 35) Um Filho santo nascerá de ti
e será chamado Filho de Deus.

9. — Em terceiro lugar, a Bem-aventurada Virgem é cheia de graça, a
ponto de espalhar sua plenitude de graça sobre todos os homens.

Que cada santo possua graça suficiente para a salvação de muitos
homens é coisa considerável. Mas se um santo fosse dotado de uma
graça capaz de salvar toda a humanidade, ele gozaria de uma
abundância de graça insuperável. Ora, essa plenitude de graça existe
no Cristo e na Bem-aventurada Virgem.


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Em todos os perigos, podemos obter o auxílio desta gloriosa Virgem.
Canta o esposo, no Cântico dos Cânticos: (4, 4) Teu pescoço é como
a torre de Davi, edificada com seus baluartes. Dela estão pendentes
mil escudos, quer dizer, mil remédios contra os perigos.

Também em todas as ações virtuosas podemos beneficiar-nos de sua
ajuda. Em mim há toda a esperança da vida e da virtude (Ecl 24, 25).

MARIA

10. — A Virgem, cheia de graça, ultrapassou os Anjos, por sua
plenitude de graça. E por isto é chamada Maria, que quer dizer,
«iluminada interiormente», donde se aplica a Maria o que disse
Isaias: (58, 11) O Senhor encherá tua alma de esplendores. Também
quer dizer: «iluminadora dos outros», em todo o universo; por isso,
Maria é comparada, com razão, ao sol e à lua.



O SENHOR É CONVOSCO

11. — Em segundo lugar, a Virgem ultrapassa os Anjos em sua
intimidade com o Senhor. O arcanjo Gabriel reconhece esta
superioridade, quando lhe dirige estas palavras: O Senhor é
convosco, isto é, venero-vos e confesso que estais mais próxima de
Deus do que eu mesmo estou. O Senhor está, efetivamente,
convosco.

O Senhor Pai está com Maria, pois Ele não se separa de maneira
nenhuma de seu Filho e Maria possui este Filho, como nenhuma outra
criatura, até mesmo angélica. Deus mandou dizer a Maria, pelo
Arcanjo Gabriel (Lc 1, 35) Uma criança santa nascerá de ti e será
chamada Filho de Deus.


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O Senhor está com Maria, pois repousa em seu seio. Melhor do que a
qualquer outra criatura se aplicam a Maria estas palavras de Isaias:
(12, 6) Exulta e louva, casa de Sião, porque o Grande, o Santo de
Israel está no meio de ti.

O Senhor não habita da mesma maneira com a Bem-aventurada
Virgem e com os Anjos. Deus está com Maria, como seu Filho; com os
Anjos, Deus habita como Senhor.

O Espírito Santo está em Maria, como em seu templo, onde opera. O
arcanjo lhe anunciou: (Lc 1, 35) O Espírito Santo virá sobre ti. Assim,
pois, Maria concebeu por efeito do Espírito Santo e nós a chamamos
«Templo do Senhor», «Santuário do Espírito Santo». (cf. liturgia das
festas de Nossa Senhora).

Portanto, a Bem-aventurada Virgem goza de uma intimidade com
Deus maior do que a criatura angélica.

Com ela está o Senhor Pai, o Senhor Filho, o Senhor Espírito Santo, a
Santíssima Trindade inteira. Por isso canta a Igreja: «Sois digno trono
de toda a Trindade».

É esta então a palavra mais nobre, a mais expressiva, como louvor,
que podemos dirigir à Virgem.


MARIA

12. — Portanto o Anjo reverenciou a Bem-aventurada Virgem, como
mãe do Soberano Senhor e, assim, ela mesma como Soberana. O
nome de Maria, em siríaco significa soberana, o que lhe convém
perfeitamente.

13. — Em terceiro lugar, a Virgem ultrapassou aos Anjos em pureza.

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Não só possuía em si mesma a pureza, como procurava a pureza para
os outros.

Ela foi puríssima de toda culpa, pois foi preservada do pecado original
e não cometeu nenhum pecado mortal ou venial, como também foi
livre de toda pena.



BENDITA SOIS VÓS ENTRE AS MULHERES

14. — Três maldições foram proferidas por Deus contra os homens,
por causa do pecado original.

A primeira foi contra a mulher, que traria seu filho no sofrimento e
daria à luz com dores.

Mas a Bem-aventurada Virgem não está submetida a estas penas. Ela
concebeu o Salvador sem corrupção, trouxe-o alegremente em seu
seio e o teve na alegria. A Ela se aplica a palavra de Isaias: (35, 2) A
terra germinará, exultará, cantará louvores.

15. — A segunda maldição foi pronunciada contra o homem (Gn 3,
9): Comerás o teu pão com o suor de teu rosto.

A Bem-aventurada Virgem foi isenta desta pena. Como diz o Apóstolo
(1 Cor 7, 32-34): Fiquem livres de cuidados as virgens e se ocupem
só com o Senhor.

A terceira maldição foi comum ao homem e à mulher. Em razão dela
devem ambos tornar ao pó.

A Bem-aventurada Virgem disto também foi preservada, pois foi, com
o corpo, assunta aos céus. Cremos que, depois de morta, foi

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ressuscitada e elevada ao céu. Também se lhe aplicam muito
apropriadamente as palavras do Salmo 131, 8: Levanta-te, Senhor,
entra no teu repouso; tu e a arca da tua santificação.


MARIA

A Virgem foi pois isenta de toda maldição e bendita entre as
mulheres. Ela é a única que suprime a maldição, traz a bênção e abre
as portas do paraíso.

Também lhe convém, assim, o nome de Maria, que quer dizer,
«Estrela do mar», Assim como os navegadores são conduzidos pela
estrela do mar ao porto, assim, por Maria, são os cristãos conduzidos
à Glória.


BENDITO É O FRUTO DE VOSSO VENTRE

18. — O pecador procura nas criaturas aquilo que não pode achar,
mas o justo o obtém. A riqueza dos pecadores está reservada para os
justos, dizem os Provérbios (13, 22). Assim Eva procurou o fruto,
sem achar nele a satisfação de seus desejos. A Bem-aventurada
Virgem, ao contrário, achou em seu fruto tudo o que Eva desejou.

19. — Eva, com efeito, desejou de seu fruto três coisas:

Primeiro, a deificação de Adão e dela mesma e o conhecimento do
bem e do mal, como lhe prometera falsamente o diabo: Sereis como
deuses (Gn 3, 5), disse-lhes o mentiroso. O diabo mentiu, porque ele
é mentiroso e o pai da mentira (cf. Jo 8, 44). E por ter comido do
fruto, Eva, em vez de se tornar semelhante a Deus, tornou-se
dessemelhante. Por seu pecado, afastou-se de Deus, sua salvação, e
foi expulsa do paraíso.

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A Bem-aventurada Virgem, ao contrário, achou sua deificação no
fruto de suas entranhas. Por Cristo nos unimos a Deus e nos
tornamos semelhantes a Ele. Diz-nos São João: (1 Jo 3, 2) Quando
Deus se manifestar, seremos semelhantes a Ele, porque o veremos
como Ele é.

20. — Em segundo lugar, Eva desejava o deleite (cf. Gn 3, 6), mas
não o encontrou no fruto e imediatamente conheceu que estava nua e
a dor entrou em sua vida.

No fruto da Virgem, ao contrário, encontramos a suavidade e a
salvação. Quem come minha carne tem a vida eterna (Jo 6, 55).

21. — Enfim, o fruto de Eva era sedutor no aspecto, mas quão mais
belo é o fruto da Virgem que os próprios Anjos desejam contemplar
(cf. 1 Pe 1, 12). É o mais belo dos filhos dos homens (Sl 44, 3),
porque é o esplendor da glória de seu Pai (Heb 1, 3) como diz S.
Paulo.

Portanto, Eva não pôde achar em seu fruto o que também nenhum
pecador achará em seu pecado.

Acharemos, no entanto, tudo o que desejamos no fruto da Virgem.
Busquemo-lo.

22. — O fruto da Virgem Maria é bendito por Deus, que de tal forma
encheu-o de graças que sua simples vinda já nos faz render
homenagem a Deus. Bendito seja Deus e Pai de nosso Senhor Jesus
Cristo que nos abençoou com toda a bênção espiritual em Cristo,
declara São Paulo (Ef 1, 3).

O fruto da Virgem é bendito pelos Anjos. O Apocalipse (7, 11) nos
mostra os Anjos caindo com a face por terra e adorando o Cristo com

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seus cantos: O louvor, a glória, a sabedoria, a ação de graças, a
honra, o poder e a força ao nosso Deus pelos séculos dos séculos.
Amém.

O fruto de Maria é também bendito pelos homens: Toda a língua
confesse que o Senhor Jesus Cristo está na glória de Deus Pai, nos diz
o Apóstolo (Fp 2, 11). E o Salmista (Sl 117, 26) o saúda assim:
Bendito o que vem em nome do Senhor.

Assim, pois, a Virgem é bendita, porém, bem mais ainda, é o seu
fruto. 

O Segredo de Maria

Portanto, tudo se resume a encontrar um meio fácil para se alcançar de Deus a graça necessária para se tornar santo; e é precisamente isso que eu pretendo ensinar-te. E afirmo que, para se alcançar tal graça de Deus, é necessário alcançar Maria. Vejamos, de seguida, os motivos:

1º) MARIA ALCANÇOU GRAÇA

Só Maria alcançou graça diante de Deus (Lc. 1,30), para Si e para toda a criatura em particular. Nem os patriarcas ou profetas, nem todos os Santos do Antigo Testamento alcançaram graça.

2º) É MÃE DA GRAÇA

Só Maria, na verdade, deu o ser e a vida ao Autor de toda a graça; por isso é apelidada "Mãe da graça".

3º) É CHEIA DE GRAÇA

Deus Pai, de quem, como fonte essencial, deriva todo o dom perfeito, e toda a graça, ao dar-Lhe seu próprio filho, entregou a Maria todas as graças; de maneira que - como diz São Bernardo - n'Ele e com Ele Deus comunicou-Lhe a sua própria vontade.

4º) É ADMINISTRADORA DAS GRAÇAS

Deus escolheu-A para tesoureira, ecónoma e distribuidora de todas as suas graças; por isso, todas as graças e dons de Deus passam pelas suas mãos. E - segundo São Bernardino - em virtude do poder que Deus Lhe conferiu. Ela dá a quem quer, quanto quer e na medida que quer as graças do Pai, as virtudes do Filho e os dons do Espírito Santo.

5º) É A MÃE DO FILHO DE DEUS

Tal como, na ordem da natureza, é necessário que um filho tenha um pai e uma mãe, assim também, na ordem da graça, todo o verdadeiro filho da Igreja deverá ter Deus por pai e Maria por mãe. E quem se vangloriar de ter Deus por pai e não tiver a ternura de um filho por Maria, pois será um mentiroso que terá apenas o demónio por pai.

6º) É MÃE DOS MEMBROS DE CRISTO

Já que foi Maria quem formou a Cabeça dos predestinados, Jesus Cristo, a Ela pertence também formar os membros dessa mesma Cabeça, que são os verdadeiros cristãos. Com efeito, uma mãe não dá luz a cabeça sem os membros, nem os membros sem a cabeça.

Por isso, quem desejar ser membro de Jesus Cristo, cheio de graça e de verdade, deverá deixar-se formar em Maria através da graça de Jesus Cristo, que nela reside em plenitude, a fim de ser derramada, igualmente em plenitude, aos verdadeiros membros de Cristo que são os verdadeiros filhos de Maria.

7º) É COLABORADORA DO ESPÍRITO SANTO

Tendo o Espírito Santo desposado Maria e tendo gerado n'ela , com Ela e por Ela Jesus Cristo, a obra-prima, o Verbo encarnado, e não a tendo jamais repudiado, continua, cada dia, a gerar os predestinados n'Ela e por meio d'Ela, de forma misteriosa, mas verdadeira.

8º) FAZ CRESCER NO AMOR FILIAL

Maria recebeu de Deus um domínio especial sobre as almas para alimentá-las e fazê-las crescer em Deus.

Santo Agostinho diz mesmo que, neste mundo, os cristãos autênticos são inteiramente enclausurados no seio de Maria, e são dados à luz apenas quando esta boa mãe os gera para a vida eterna.

Por conseguinte, assim como a criança vai buscar todo o nutrimento à sua mãe, que lhe proporciona o alimento necessário à sua fragilidade, assim também os cristãos vão procurar a Maria todo o nutrimento e todo o vigor espiritual.

9º) ESTÁ PRESENTE NA VIDA DOS VERDADEIROS CRISTÃOS

Somente a Maria disse Deus Pai:

"Minha Filha, põe a tua morada em Jacob" (Ecle. 24,8), ou seja, habita nos cristãos autênticos, prefigurados em Jacob.

Somente a Maria disse Deus Filho: "Minha Mãe, toma Israel por tua herança" (Ecle. 24,8), ou seja, toma os verdadeiros cristãos por herança.

Finalmente, também só a Maria disse o Espírito Santo: "Minha fiel Esposa, lança as tuas raízes no meio dum povo glorioso" (Ecle. 24,12), ou seja, os verdadeiros cristãos.

Portanto, quem for do número dos verdadeiros e cristãos autênticos terá a Senhora a morar dentro de si, ou seja, na sua alma, nela deixando lançar raízes de uma humildade profunda, de uma caridade ardente e de toda a espécie de virtudes.

10º) É A IMAGEM VIVA DE DEUS

Maria é chamada por Santo Agostinho, e é-o efectivamente, "Forma Dei", imagem viva de Deus; isto quer significar que somente n'Ela foi formado Deus como homem perfeito, sem faltar-Lhe qualquer traço da divindade; e também que só n'Ela pode o homem ser transformado em Deus - tanto quanto a natureza humana o permita -, pela graça de Jesus Cristo.

Um escultor pode reproduzir ao natural uma estátua ou um retrato de duas maneiras: aplicando todo o seu talento na matéria dura e informe, usando de toda a força, de toda a ciência e perfeição das suas ferramentas para reproduzir a estátua; ou então, metendo-a simplesmente num molde.

O primeiro método é demorado, é difícil e está sujeito a diversos inconvenientes: por vezes bastará uma pancada de cinzel ou uma martelada mal dada para estragar toda a obra.

O segundo, ao contrário, é rápido, suave e delicado, quase sem despesa e sem fadiga, desde que o molde seja perfeito e que reproduza com exactidão, e desde que a matéria utilizada seja maleável e não oponha resistência ao seu manejo.

É Maria o maravilhoso molde de Deus, criado pelo Espírito Santo para formar em perfeição um Homem-Deus através da união hipostática, e para tornar o homem participante da natureza divina mediante a graça. Maria é esse molde a que não falta o mais leve traço da divindade: quem for metido nele e se deixar plasmar por ele, adquire todos os traços de Jesus Cristo, verdadeiro Deus, e isso de forma suave e em consonância com a fragilidade humana, sem tantos sacrifícios nem fadigas; e ainda de forma segura, sem medo de ilusões, já que o demónio não teve e nunca virá a ter qualquer acesso a Maria; finalmente e ainda de maneira santa e imaculada, sem a mais leve sombra de pecado.

Oh!, alma querida, quão grande é a diferença entre uma alma formada em Jesus Cristo pelos meios ordinários como os escultores - que confiam apenas no seu engenho, no seu talento -, e a outra em que se está diante duma alma muito maleável, desapegada, bem fundida e que, recusando fiar-se em si mesma, deixa-se plasmar apenas pela acção do Espírito Santo!

Quantas manchas, quantos defeitos, quantas sombras, quantas ilusões, quanto de natural e humano existem no primeiro método!... E quão puro, quão divino e quão semelhante a Jesus Cristo é o segundo!

11º) É O PARAÍSO DE DEUS

Nunca houve e jamais haverá criatura alguma, não fazendo sequer excepção dos Bem-aventurados, dos Querubins ou dos mais elevados Serafins, o, onde Deus - fora de Si mesmo e em Si mesmo - tenha manifestado a sua glória com tanta perfeição como em Maria.

É Maria o Paraíso de Deus e o seu mundo inefável, onde o Filho de Deus penetrou para lá operar maravilhas, para o guardar e aí gozar as suas complacências.

Criou Deus um mundo para o homem peregrino, que é o mundo em que todos habitamos; criou um mundo para o homem bem-aventurado, que é o Paraíso; mas, para Si, criou Deus outro mundo a que deu o nome de Maria; mundo este quase desconhecido a todos os mortais, e incompreensível a todos os Anjos e a todos os Bem-aventurados do Céu que, extasiados por verem um Deus tão glorioso, tão acima de todos eles, tão separado e tão escondido no seu mundo - a excelsa Maria -, que exclamam sem cessar: Santo, Santo, Santo.

Feliz, mil vezes feliz é na terra a alma a quem o Espírito Santo revelar o Segredo de Maria para que o conheça; a quem abrir esse "Jardim fechado" para que possa entrar; essa "Fonte Selada" para que dela possa extrair e beber, a longos tragos, as águas vivas da graça!

Nesta amável criatura uma tal alma encontrará Deus somente: um Deus infinitamente santo e transcendente, mas também infinitamente condescendente e compreensivo diante da nossa fraqueza.

Uma vez que Deus está em todo o lado, pode ser encontrado em todo o lado, até nos infernos; mas não existe lugar algum onde uma pessoa O possa encontrar mais próximo dela e mais adaptado á sua fraqueza do que em Maria, já que foi para isso que Ele veio ao mundo.

Em todo o lado é Ele o Pão dos fortes e dos Anjos; em Maria, porém, é o Pão dos filhos.

12º) FACILITA A UNIÃO COM DEUS

Que ninguém pense, como alguns iluminados, que Maria, por ser criatura, possa ser obstáculo à união com o Criador; é que já não é Maria que vive, é Jesus Cristo apenas, é Deus só que vive n'Ela. A sua transformação em Deus ultrapassa infinitamente a de S. Paulo e a dos outros Santos, mais do que o Céu ultrapassa a terra em altura.

Maria não existe senão para Deus; por isso, longe de segurar para si uma alma, Ela projecta-a em Deus e une-a a Ele com mais perfeição ainda do que a alma está unida a Ela.

Maria é o eco admirável de Deus, que só sabe repercutir "Deus" quando uma alma lhe grita: "Maria"; e que não sabe senão glorificar a Deus quando, tal como Santa Isabel, a proclamam bem-aventurada.

Se os falsos iluminados, miseravelmente enganados pelo demónio até na oração, tivessem sabido encontrar Maria, e Jesus por Maria, e Deus através de Jesus, não teriam certamente dado tão terríveis quedas.

Quando um cristão encontrou Maria e Jesus através de Maria e Deus Pai através de Jesus, pois terá encontrado todo o bem - referem alguns Santos. E dizendo todo o bem, nada se exceptua: toda a graça e toda a amizade junto de Deus; toda a segurança contra os inimigos de Deus; toda a verdade contra a mentira; toda a facilidade e toda a vitória contra as dificuldades da salvação; toda a doçura e toda a alegria nas amarguras da vida.

13º) É AUXÍLIO NO SOFRIMENTO

Não pretendemos afirmar que quem encontrou Maria através de uma devoção verdadeira venha a ficar isento de cruzes e sofrimentos. Bem ao contrário! Até será mais assaltado do que os outros já que Maria - qual Mãe dos viventes - dá a todos os seus filhos alguma porção da Árvore da Vida, a cruz de Jesus.

Reservando-lhes, porém, grandes cruzes, dá-lhes também a graça de carregá-las com paciência, e até com alegria, de maneira que as cruzes que Ela dá àqueles que lhe pertencem são - por assim dizer - saborosas, ou cruzes doces e não amargas. Ainda que, durante algum tempo e por serem amigos de Deus, devam beber o cálice da amargura, porém, a consolação e a alegria que recebem da sua bondosa Mãe - passada a provação - dá-lhes força e coragem para carregarem cruzes ainda bem mais pesadas e amarga.

É INDISPENSÁVEL UM RELACIONAMENTO PESSOAL COM MARIA

A dificuldade está, pois, em saber alcançar verdadeiramente a Santíssima Virgem, para assim se poderem obter todas as graças em abundância.

Deus, qual Senhor todo-poderoso, poderá, por virtude própria, comunicar directamente aquilo que, de modo ordinário, comunica só través de Maria. E não se poderá negar - fazê-lo seria temerário - que, por vezes, Deus até se comunica directamente. Porém - como refere São Tomás - tendo em consideração o plano estabelecido pela divina Sabedoria , não se comunica aos homens, de forma ordinária, senão por Maria, isto na ordem da graça.


São Luís de Monfort - "O Segredo de Maria" - Vila do Conde, Centro Mariano Monfortino, 4ª Edição, 1995.

25 de mar. de 2008

APRESENTAÇÃO DA PÁGINA DE INTRODUÇÃO AO CRISTIANISMO

01.

Nesta página oferecem-se diversos textos cujo conjunto tem como objetivo uma apresentação do Cristianismo. Sendo assim, convém explicar em que sentido deseja-se através deles apresentar o Cristianismo.


02.

Em meados do século XX Michael Schmaus, um teólogo suíço, escreveu um livro em cujo primeiro parágrafo colocava muito bem o problema que está na origem desta página. Na abertura de sua obra M. Schmaus dizia algo semelhante ao que se segue:



"O que vem a ser o Cristianismo?
O que ele quer?
Quais os serviços que ele presta
à humanidade?
A impressão que geralmente se tem
é que até hoje ele não forneceu
nenhuma auto explicação definitiva
e de valor irrevogável.
A razão de ser deste paradoxo
não consiste na obscuridade
do que chamamos de Cristianismo,
mas é antes uma consequência da plenitude
e da complexidade de sua essência e estrutura.
O espírito humano não é capaz
de compreender em uma só intuição
a totalidade de sua constituição".
Este autor foi muito feliz ao ter dito estas coisas sobre o Cristianismo, porque há muitas pessoas que se encontram diante do Cristianismo exatamente na posição que ele descreve. Tentaram compreender o que Jesus veio trazer à humanidade e, mesmo depois de terem lido o Evangelho muitas vezes, confessam estarem ainda diante da mesma pergunta inicial:




"O que vem a ser isto?"
"O que realmente ele pretende?"
Todas as tentativas de encaixarem o texto, que não é tão grande, do Evangelho dentro de seus quadros mentais se revelam insatisfatórios. O Evangelho, percebem estas pessoas, é algo mais. E não é só evidente que é algo mais, como também que é algo muito mais. Mas não é evidente o que seja este algo mais.
É então que surge a impressão de que até hoje ninguém tenha dado uma explicação definitiva e de valor irrevogável sobre o mesmo. É-se tentado a pensar que, além do próprio Cristo e dos seus primeiros apóstolos, nunca mais ninguém soube explicar de modo definitivo o que é o Cristianismo.
A razão de ser desta paradoxo, diz M. Schmaus, não consiste na obscuridade do que chamamos de Cristianismo, mas é conseqüência da plenitude e complexidade de sua essência e estrutura.


03.

E de fato é assim. Aqueles que se põem diante do Evangelho, no início não percebem toda a sua grandeza.
Mas, se têm a disposição de aceitá-lo por fé e colocá-lo sinceramente em prática com o desejo de vivê-lo profundamente, logo depois de algum tempo descobrirão estarem na presença de alguma coisa que está além de tudo quanto poderiam ter imaginado e que, mesmo assim, ainda agora seu próprio pensamento não consegue alcançar. Diante da plenitude de sua essência, percebemos que nossas categorias mentais são estreitas demais.


04.

No Evangelho há mais de uma passagem onde Jesus compara sua obra a um banquete em que todos são convidados, embora poucos atendam a este chamado. Ao Jesus dizer isto, estava cumprindo uma profecia escrita seiscentos anos antes pelo profeta Isaías, em que este profetizava a respeito do monte Sião, o monte sobre o qual estava construída Jerusalém, ou, literalmente, a cidade da paz:




"Sobre este monte,
o Senhor preparará
para todos os povos
um banquete de seletos manjares,
um festim de vinhos generosos.
Neste monte tirará o véu
que encobria os povos todos,
e a coberta que se estende
sobre todas as gentes.
Aniquilará para sempre a morte,
e o Senhor Deus enxugará
as lágrimas de todas as faces".





Is. 25,6-8
No Evangelho, na plenitude de sua essência, encontramos este banquete, preparado para todos os povos, de seletos manjares. O mais belo de todos os convites que Deus já dirigiu à humanidade consiste exatamente em convidá-los para este banquete, em que as faculdades espirituais do homem são elevadas até que ele possa compreender e participar desta plenitude.
Dizemos compreender, porque na última ceia o próprio Jesus o disse, dirigindo-se aos seus discípulos:




"Já não vos chamo de servos,
porque o servo não sabe
o que faz o seu senhor;
chamo-vos de amigos,
porque vos dei a conhecer
tudo aquilo que ouvi de meu Pai".





Jo 15, 15
Dissemos também participar, porque o Evangelho também assim o disse:




"A quantos o receberam,
deu-lhes o poder de se tornarem
filhos de Deus,
aos que crêem no seu nome,
e que não pelo sangue,
nem pela vontade humana,
mas de Deus nasceram.
De sua plenitude todos nós recebemos,
graça sobre graça".





Jo. 1, 12
Através dos textos encontrados nesta página desejamos responder a estas perguntas:




  • O que vem a ser o Cristianismo?
  • O que ele quer?
  • Quais são os serviços que ele
    presta à humanidade?

São as mesmas perguntas que se fêz Michael Schmaus. Porém o Evangelho é algo tão imenso e tão profundo que será impossível responder a estas perguntas, assim formuladas, nos textos desta página que agora empreendemos iniciar. Por causa disso o que iremos fazer será acender uma fagulha, um pequeno luzeiro, mas de maneira que, embora seja uma parte bem pequena da resposta, o seja de tal maneira que permita ter um vislumbre bem mais distante, que permita ter uma idéia mais sólida da ordem de coisas a que se refere o Evangelho e que possa servir como ponto de referência para cada um de nós no futuro.


05.

Dito isto, devemos também dizer que os textos aqui apresentados não foram concebidos para se tornarem agradáveis nem desagradáveis. Não são palestras de propaganda religiosa. O que pretendemos fazer com eles é o trabalho de uma construção sistemática. Cada um deles ocupa o seu lugar dentro de uma construção maior e foi pensado em função do lugar que deve ocupar no todo.
Seria como se fossemos construir um pequeno castelo com tijolos, assentando um de cada vez de acordo com a lógica da construção final, ainda que às vezes fosse mais agradável empilhar os tijolos de maneira diferente. No fim, só no fim ou perto do fim, quando o pequeno castelo estiver pronto, iremos subir nele para podermos enxergar mais longe.
Há dois motivos que nos levaram a fazer estas observações.
Caso alguém julgar algum destes textos fastidiosos ou difíceis, pense que o resultado final a ser obtido é o conjunto e não a beleza de cada um tomado individualmente.
Em segundo lugar, que não se julgue o conjunto destes textos por cada um deles tomado individualmente. Seria como julgar a aparência futura de uma casa supondo que um tijolo fosse uma amostra em miniatura do que iria ser a casa.


06.

Mas mesmo esta comparação do tijolo e da casa não é boa. Porque nós vamos usar a casa não para morar nela, mas para poder olhar mais longe, além dela. Com isto, temos uma outra observação inicial a fazer sobre o conjunto destas palestras. Na maior parte delas, do início até bem perto do fim, nós iremos acumular uma grande quantidade de dados. Próximo ao fim é que estes dados irão se juntar uns aos outros conduzindo a algo que é de uma ordem diferente deles próprios. Por que, porém, proceder assim?
Devemos dizer que este é o processo normal de trabalho da mente humana, tanto para as pequenas conquistas da inteligência, como para as grandes. A inteligência humana trabalha abstraindo as idéias que contempla dos dados dos sentidos reunidos pela faculdade da imaginação. Ela apenas alcança a essência das coisas após muita observação e alcançar as idéias mais profundas e abstratas requer freqüentemente, da maioria dos homens, que se debrucem sobre uma quantidade maior de dados do que as mais simples.
Podemos exemplificar este fato nas grandes conquistas da inteligência humana ao longo da história.
Vejamos o caso da Mecânica Newtoniana. Trata-se de uma das grandes façanhas do espírito humano. Ela é praticamente metade da Física Clássica e com ela se explica todo o movimento dos astros no céu e a maioria das obras da Engenharia Moderna. No entanto, toda ela pode ser resumida em três princípios, os famosos princípios de Newton da Mecânica e mais a fórmula matemática da lei da gravitação universal, F = G (M.m) / r2.
Para que, porém, Newton pudesse ter vislumbrado uma coisa aparentemente tão simples, e nela, todas as suas conseqüências, antes dele duas gerações de cientistas tiveram quw colecionar uma quantidade imensa de dados. Tycho Brahe, astrônomo, passou a vida inteira observando os astros e fazendo tabelas com estas observações. Ao morrer, não tinha ainda conseguido chegar ao que ele queria, e em seu leito de morte suplicou ao seu discípulo Kepler que jurasse que tanto trabalho não havia sido em vão. Seu trabalho não foi em vão; Kepler continuou as observações do mestre durante mais outra vida, chegando a sintetizá-las em três leis famosas. Todos estes dados passaram para Newton, aos quais ele acrescentou outras observações pessoais. Finalmente, certo dia, repentinamente, com a queda de uma maçã, Newton percebeu quais eram as leis que regiam tudo aquilo e mais um sem número de coisas. Esta intuição foi uma conquista puramente da inteligência, mas se ele próprio e mais duas gerações de sábios não tivessem coligido todos aqueles dados, ainda que uma caixa inteira de maçãs caísse sobre a sua cabeça, isso não faria com que Newton compreendesse as leis da Mecânica.
Podemos tomar um outro exemplo, vindo do campo da Filosofia. Implícita na síntese filosófico teológica de Santo Tomás de Aquino há uma série de princípios de grande alcance que foram descritos nas 24 teses tomistas redigidas por uma comissão de estudiosos na virada do século 19 para o século 20. Trata-se de um texto que pode caber em duas ou três páginas, mas quantos séculos não foram necessários para se chegar à evidência destes princípios, e da síntese que implicitamente se baseia sobre os mesmos! Veio, inicialmente, uma primeira síntese preparatória com Aristóteles, a qual teve que se utilizar de três séculos e meio de trabalho de filósofos gregos que o precederam, observando, dialogando, meditando e contemplando. Para se chegar a Santo Tomás de Aquino, teve que se somar a isto mais um milênio de sabedoria cristã, para que ele pudesse ter enxergado e descrito o que nos deixou. Hugo de S. Vitor, do qual, juntamente com Santo Tomás, muito se fala nestas páginas, foi um dos elos importantes que conduziram à obra de Santo Tomás de Aquino.
Mas estes são apenas exemplos; não se deseja aqui comparar as obras de Newton com as de Hugo de S. Vitor e S. Tomás de Aquino, que possuem outras características básicas muito diversas entre si. O que se quer é apenas trazer à atenção o fato de que o trabalho da inteligência, algo em que ambos estes exemplos certamente estavam implicados, tem os seus requisitos, e isto vale não só para as grandes conquistas da inteligência mas também para as outras menores que todos os homens precisam fazer e fazem ao longo de suas vidas. Quantas vezes as pessoas que se dedicam seriamente ao verdadeiro trabalho da inteligência em um dado momento não percebem, ao encontrar a evidência de uma verdade, como que seu espírito se enche de luz! Esta luz, diz Santo Agostinho, é imagem de Deus, pois, diz Agostinho,





"Está escrito: `Deus é luz'.
Não se creia, porém,
que é esta luz
que contemplam os olhos,
mas sim uma luz
como a que vê o coração
quando ouve dizer que

`Deus é verdade'".





De Trinitate VIII, 2
Mas esta mesma luz, se olharmos para trás em nossa atividade da inteligência, teve que se basear em um trabalho prévio de outra ordem.
É por este motivo que ao longo destes textos iremos desenvolver muitas coisas das quais não se conseguirá apreender de imediato qual a relação entre elas e o objeto das perguntas que são nosso ponto de partida e nossa meta. Trata-se de material que teremos que ir acumulando e de que faremos uso posteriormente.


07.

Esperamos, ademais, em tudo o que dissermos ser simultaneamente fiéis ao Magistério da Igreja e intransigentes na busca da verdade. Esperamos também deixar uma sadia impressão de como se pode nesta caso satisfazer plenamente às exigências de ambos estes critérios sem ao mesmo tempo transigir com nenhum dos dois. Ao tratarmos do Cristianismo, tema de nossas palestras, temos a intenção, ademais, de nos utilizarmos de fontes que pertençam reconhecidamente ao patrimônio filosófico e teológico da Igreja Católica ou que nela foram recebidos e desenvolvidos, como muitos trabalhos dos filósofos gregos. Utilizar-nos-emos também, de um modo especial, dos valiosos recursos que nos foram deixados para tanto na obra de Santo Tomás de Aquino e de Hugo de São Vitor.


08.

Como deve ter ficado claro, esta página não é uma catequese, nem pretende ensinar os rudimentos da doutrina ou da prática cristã. Seria muito desejável que os leitores conhecessem os rudimentos da doutrina, mais ainda se fossem cristãos praticantes, pois isto lhes permitiria compreender melhor o desenrolar das exposições. Os únicos requisitos para se poder acompanhar o diálogo com esta página, porém, são um certo nível de cultura geral e o desejo sincero de compreender o Cristianismo mais profundamente.
Os que não conhecem os rudimentos da doutrina poderão ler os capítulos de 1 a 20 do livro do Êxodo, que contém a narração da instituição da Antiga Aliança, e o Evangelho de São Lucas e os Atos dos Apóstolos, em que se narram a vida e os ensinamentos de Cristo e os primeiros anos da vida cristã. Poderão também consultar com proveito o Catecismo Romano, elaborado a pedido do Concílio de Trento e promulgado pelo Papa Pio V em 1566, ou o Catecismo da Igreja Católica, elaborado a pedido do Papa João Paulo II e promulgado por ele mesmo em 1992. Embora estes dois Catecismos estejam separados no tempo por mais de quatrocentos anos, ambos são textos de indiscutível valor perene. O primeiro exige, em relação ao segundo, algumas atualizações que são em sua maior parte apenas circunstanciais e cabem em notas de rodapé.


09.

Esta página também não se destina à conversão pessoal nem diretamente à prática do Cristianismo, mas não é impossível e talvez seja mesmo provável e algo que muito nos alegraria que, compreendendo alguém a beleza de uma determinada coisa, venha a desejá-la para si, especialmente quando esta coisa por sua natureza é acessível e se destina a todos os que a quiserem.


10.

Caso o leitor ainda não conheça bem os assuntos abordados por esta página, poderá aceitar nossa sugestão de começar a examinar o material apresentado estudando primeiro as



Notas sobre a Pedagogia de Hugo de São Vitor
e, em seguida, os capítulos I, III e X da Educação segundo a Filosofia Perene, capítulos estes respectivamente intitulados de





Introdução Geral , Pressupostos Históricos e
Perspectiva Teológica.
Estes quatro textos encontram-se, desde fevereiro de 1999, também disponíveis para download no Índice Geral deste site.


11.

Aos textos oferecidos nesta página desejaríamos que se acrescentasse a leitura de algumas biografias de pessoas que viveram profundamente o Cristianismo, até à sua essência. Se alguém jamais tivesse visto uma planta, nada melhor do que isto poderia ilustrar o que se pretende explicar com uma aula de Botânica. Gostaríamos que ninguém deixasse de ler pelo menos as seguintes duas obras, escolhidas não só pelo assunto, como também pelo modo com os seus autores abordaram a narrativa:





  • Os Santos que Abalaram o Mundo.


    Obra de René Fulop Muller, publicada no Brasil pela Editora José Olympio do Rio de Janeiro. Contém, em ordem cronológica e em linguagem muito agradável, as biografias de Santo Antão, Santo Agostinho, São Francisco de Assis, Santo Inácio de Loyola e Santa Teresa de Ávila.








  • Autobiografia de Santa Teresa de Ávila.


    Escrita por ela mesma no final dos anos 1500, conta hoje com várias traduções não só para a língua portuguesa, como também para a maioria das línguas modernas.


Para os que principiam a interessar-se pelo assunto, é recomendável que a leitura de Os Santos que Abalaram o Mundo venha antes, e até mesmo como uma introdução da Autobiografia de Santa Teresa de Ávila.

Fonte:  http://www.cristianismo.org.br/

18 de mar. de 2008

Santo Afonso de Ligório: Um padre tíbio mais desonra do que honra a Deus












 “O empenho com que os demônios trabalham na nossa ruína, deve excitar o nosso zelo, em assegurarmos a salvação. Ó, como esses inimigos terríveis porfiam em perder um padre! Ambicionam com mais ardor a perda dum padre, que a de cem seculares, não só porque a vitória alcançada sobre um padre é para eles um triunfo mais brilhante, mas porque um padre na sua queda arrasta muitos outros desgraçados para o abismo.”
- Santo Afonso de Ligório, A Selva
O mal da tibieza no Padre, III
* * *

O sacerdote não pode contentar-se com evitar os pecados graves

Santo Afonso de Ligório
Dirá talvez o padre tíbio: basta-me que não cometa pecados mortais e que me salve. — Basta que vos salveis? Não, responde Sto. Agostinho: visto que sois padre, estais obrigado a trilhar o caminho estreito da perfeição; se seguirdes pela via larga da tibieza, não vos salvareis. “Se dizeis: Basta, estais perdido”. Segundo S. Gregório, quem é chamado a salvar-se como santo, e quer salvar-se como imperfeito, não se salvará. Foi precisamente o que o Senhor fez ouvir um dia à bem-aventurada Angela de Foligno, falando-lhe assim: “Aqueles a quem dou luzes para caminharem na via da perfeição, e degradam a sua alma, querendo seguir pela via comum, serão abandonados em mim”.
Como vimos acima, é certo que o sacerdote é obrigado a tornar-se santo, quer pela sua qualidade de amigo e ministro de Deus, quer em razão das funções augustas que exerce, não só quando oferece o sacrifício da missa, mas quando se apresenta como mediador dos homens, diante da sua divina majestade, e quando santifica as almas mediante os sacramentos; porque é para o fazer caminhar na perfeição que o Senhor o cumula de graças e socorros especiais. Em presença disto, quando ele quer exercer com negligência o seu ministério, no meio de defeitos e faltas sem número, que não pensa em detestar, provoca a maldição de Deus: “Maldito o que faz a obra de Deus com negligência”. Esta maldição significa o abandono de Deus, diz Sto. Ambrósio. Costuma o Senhor abandonar essas almas que, depois de terem sido mais favorecidas com as suas graças, não cuidam de atingir a perfeição a que são chamadas. Quer Deus que os seus ministros o sirvam com o fervor dos serafins, escreve um autor; de contrário, há de retirar-lhes as suas graças e permitir que adormeçam na tibieza, para dali caírem primeiro no abismo do pecado, e depois no do inferno.
O padre tíbio, acabrunhado sob o peso de tantas faltas veniais e de tantas afeições desordenadas, permanece como que mergulhado num estado de insensibilidade. As graças recebidas e as obrigações do sacerdócio já o não tocam; por isso o Senhor na sua justiça o privará dos socorros abundantes, que lhe seriam moralmente necessários, para se desempenhar os deveres do seu estado. Assim irá de mal a pior; cada dia aumentarão os seus defeitos e também a sua cegueira. Havia Deus de prodigalizar as suas graças a quem se mostra avaro com ele? Não, diz o Apóstolo: “quem pouco semeia, pouco colhe”.
Declarou o Senhor que aumentará os seus favores aos que lhe testemunham reconhecimento e conservam as suas graças, mas tirará aos ingratos o que primeiro lhes tinha dado.
Noutra parte diz que, o senhor da vinha, quando não tira fruto dela, trata de a confiar a outros vinhateiros, e castiga os primeiros. Depois ajunta: “Por isso vos declaro que o reino de Deus vos será tirado, para ser dado a uma nação que colha fruto dele”. Significa que Deus tirará do mundo o padre tíbio, ao qual havia confiado o cuidado do seu reino, isto é, que tinha encarregado de trabalhar na sua glória, e que dará esse encargo a outros, que lhe sejam reconhecidos e fiéis.
Deve procurar-se na tibieza a razão por que muitos padres colhem pouco fruto, de tantos sacrifícios que oferecem a Deus, de tantas comunhões que fazem, e de tantas orações que recitam no Ofício e na Missa. “Semeastes muito e colhestes pouco… e o que tinha recebido o salário do seu trabalho, lançou-o num saco roto”. Tal é o padre tíbio: os seus exercícios espirituais lança-os ele todos num saco furado, quer dizer que não lhe resta nenhum merecimento; antes, ao fazê-los dum modo tão defeituoso se torna digno de castigo. Não, o padre que vive na tibieza não está longe da sua perda. Segundo Pedro de Blois, deve o coração do padre ser um altar em que não cesse de arder o fogo do amor divino. Mas que sinal de amor ardente dá a Deus esse padre, que se contenta com evitar os pecados mortais e não teme desagradar a Deus com as faltas veniais? Como observa o Pe. Alvarez de Paz, o sinal que dá é antes o de um amor bem tíbio.
Para fazer um bom padre não bastam apenas graças comuns e pouco numerosas; requerem-se graças muito especiais e abundantes. Ora, como quereria Deus prodigalizar os seus favores a quem se pôs a seu serviço, e depois o serve mal? Santo Inácio de Loyola chamou um dia um irmão leigo da sua Companhia, que passava uma vida muito tíbia, e falou-lhe assim: “Dize-me, irmão meu, que vieste fazer à religião?” Ele respondeu-lhe: “Vim para servir a Deus”. “Ah, meu irmão, replicou o Santo, que disseste? Se me tivesses respondido que foi para servir um cardeal, um príncipe da terra, terias mais desculpa; mas, visto que vistes para servir a Deus, — é assim que o serves?
Todo o sacerdote entra na corte, não dum príncipe da terra, mas noutra muito mais alta, — a dos amigos de Deus, onde se tratam continuamente e em confidência os negócios mais importantes para a glória da soberana Majestade. Donde procede que um padre tíbio mais desonra do que honra a Deus; porque dá a entender, pela sua conduta negligente e cheia de defeitos, que o Senhor não merece ser servido e amado com mais diligência; que, procurando agradar-lhe, não encontra prêmio que o faça bastante feliz; e que a sua divina Majestade não é digna dum amor tal, que nos obrigue a preferir a sua glória a todas as nossas satisfações.
Santo Afonso de Ligório, A Selva
O mal da tibieza no Padre, II

4 de jul. de 2007

ATO DE OFERECIMENTO AO AMOR MISERICORDIOSO, Santa Teresinha do Menino Jesus, Rel, Carm e Doutora da Igreja

ATO DE OFERECIMENTO AO AMOR MISERICORDIOSO

J. M. J. T.

Oferecimento de mim mesma como Vítima de
Holocausto ao Amor Misericordioso de Deus.

Ó MEU Deus! Trindade Bem-Aventurada, desejo Amar-vos e vos fazer Amar, trabalhar para a glorificação da Santa Igreja, salvando as almas que estão sobre a terra e libertando as que sofrem no purgatório. Desejo cumprir, perfeitamente, vossa vontade e chegar ao grau de glória que me preparastes em vosso reino, numa palavra, desejo ser Santa, mas sinto minha impotência e vos peço, ó meu Deus! sejais vós mesmo minha Santidade.

Pois que me amastes, a ponto de dar-me vosso Filho único para ser meu Salvador e meu Esposo os tesouros infinitos de seus méritos são meus, eu vô-los ofereço, com alegria, suplicando-vos que me olheis através da Face de Jesus e em seu Coração ardente de Amor.

Oferece-vos, ainda, todos os méritos dos Santos (que estão no Céu e sobre a terra), seus atos de Amor e os dos Santos Anjos; enfim, ofereço-vos ó Bem-Aventurada Trindade! O Amor e os méritos da Santíssima Virgem, minha Mãe querida, é a ela que abandono minha oferta, suplicando-lhe vô-la apresentar. Seu Divino Filho, meu Esposo Bem-Amado, disse nos dias de sua vida mortal "Tudo o que pedirdes a meu Pai em meu nome, Ele vô-lo dará!" Portanto, estou certa de que atendereis a meus desejos; eu o sei, ó meu Deus! quanto mais quereis dar, tanto mais fazeis desejar. Sinto em meu coração desejos imensos e é, com confiança, que vos peço vir tomar posse de minh'alma. Ah! não posso receber a santa Comunhão tantas vezes quanto desejo, mas, Senhor, não sois Onipotente?... Ficai em mim, como no tabernáculo, não vos afasteis jamais de vossa hostiazinha...

Quisera consolar-vos da ingratidão dos maus e suplico-vos tirar-me a liberdade de vos desagradar; se por fraqueza, cair alguma vez, que, logo, vosso Divino Olhar purifique minh'alma, consumindo todas as minhas imperfeições, como o fogo que transforma em si todas as coisas...

Agradeço-vos, ó meu Deus! todas as graças que me concedestes, em particular, de me ter feito passar pelo cadinho do sofrimento. É com júbilo que vos contemplarei, no último dia, empunhando o cetro da Cruz; pois que vos dignastes fazer-me partilhar desta Cruz tão preciosa, espero, no Céu, assemelhar-me a Vós e ver brilhar em meu corpo glorificado os sagrados estigmas de vossa Paixão...

Após o exílio da terra, espero ir gozar de Vós na Pátria, mas não quero acumular méritos para o Céu, quero trabalhar só por vosso Amor, com o único fim de vos agradar, consolar vosso Coração Sagrado e salvar almas que vos amem eternamente.

Na tarde desta vida, comparecerei perante Vós com as mãos vazias, pois não vos peço, Senhor, contar minhas obras. Toda nossa justiça é manchada a vossos olhos. Quero, pois, revestir-me de vossa própria Justiça, e receber de vosso Amor a posse eterna de Vós mesmo. Não quero outro Trono e outra Coroa senão Vós, ó meu Bem-Amado!

O tempo é nada a vossos olhos, um só dia é como mil anos; podeis, pois, preparar-me, num instante, para comparecer perante Vós...

A fim de viver num ato de perfeito Amor, OFEREÇO-ME COMO VÍTIMA DE HOLOCAUSTO A VOSSO AMOR MISERICORDIOSO suplicando-vos me consumais, sem cessar, deixando transbordar em minh'alma as ondas de Ternura Infinita que estão encerradas em Vós, e que assim eu me torne Mártir de vosso Amor, ó meu Deus!

Que este Martírio, após ter-me preparado para comparecer perante Vós, faça-me, enfim, morrer e que minh'alma precipite-se, sem tardar, no eterno abraço de Vosso Amor Misericordioso...

Quero, ó meu Bem-Amado, em cada palpitar de meu coração, renovar-vos este oferecimento um número infinito de vezes, até que, dissipadas as sombras, possa repetir-vos meu Amor, num Face a Face eterno! ...

Maria, Francisca, Teresa do Menino Jesus e da Santa Face, rel, carm, ind.