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12 de fev. de 2013

A quaresma que não pedimos, mas que precisamos


Na última segunda-feira, todo o mundo foi surpreendido com o comunicado de renúncia do Papa Bento XVI. Cristãos, ateus, personalidades e inimigos ficaram atônitos por um tempo. Apesar de ser Carnaval, o mundo parou para ouvir e conhecer um pouco mais o pastor dos católicos. Ninguém esperava por isso.

A atitude do Papa não foi tomada por pura euforia, por medo do que ocorre atualmente ou por não suportar a pressão. Não há nisso nenhum sinal de fracasso. Sua atitude é legalmente justa e completamente honesta, humilde e corajosa. É algo que apenas alguém com tamanha sabedoria poderia fazer. Porque o sábio sabe até onde pode ir. Papa Bento XVI sacudiu o povo católico. Mostrou que não podemos nos "escorar" nele, porque a salvação é uma luta - também - individual, afinal, cada um responderá por seus atos diante do Deus Altíssimo. 

Muitos pensaram - e eu também - porque ele não esperou passar a Páscoa para tal. Mas, após algumas reflexões, vê-se nisso uma mística necessária: teremos a quaresma mais árdua e mais santa de nosso tempo.

Quaresma, como sabemos, é um tempo de conversão. Neste tempo somos convidados a refletir sobre o nosso modo de vida, sobre nossa doação a Cristo, sobre como nos apresentaríamos diante de Deus caso nos chamasse hoje à Sua Pátria Celeste. É o tempo das cinzas, do silêncio, do jejum. É o tempo das lágrimas e da oração. Quer tempo mais propício para rezarmos pela Santa Igreja?

O Santo Padre sair no início da quaresma dá a nós o sentimento que temos durante a Sexta-feira Santa, por exemplo. Com o sacrário aberto, sentimos que o mundo está só, sem Deus, completamente abandonados. A única coisa que nos alenta é a certeza na ressurreição no Domingo. A cátedra vazia durante a quaresma, a mim, tem o mesmo sentido. Estamos todos sós, contando apenas com a graça de Deus até que Ele envie aquele que tocará a barca de Pedro.

Para este ano, Bento XVI mostrou-nos o caminho: a fé! Instruiu-nos a estudar e a compreender o Catecismo da Igreja Católica, a amar a Jesus e a Ele defender. Pediu-nos para não termos medo do mundo e encará-lo de frente crendo que aquilo que defendemos é maior que tudo isso. Com seus ensinamentos, não ficaremos só. Como um pai, deu-nos o alimento necessário até que aquele que deverá vir nos encontre. Como um pai, permite-nos viver a quaresma que não pedimos, mas que precisamos para compreendermos que crer naquilo que não se vê é o que faz do cristão o que ele é: de Cristo.


Não sejamos incrédulos, pois. Nada de dar ouvidos às especulações. Que sempre tenhamos em nossa mente e coração que tudo concorre para o bem dos que amam a Deus (cf. Rom 8,28). Se Cristo permitiu isso, é porque Ele está no comando. Façamos, pois, o que nos cabe: ofereçamos ainda mais nossas orações e jejuns pela Santa Igreja e façamos desta quaresma a mais importante de nossas vidas. Na Páscoa, com o novo Papa, saudaremos o Cristo que ressurge dos mortos vivo e ressurrecto, vencendo a morte e dando-nos a vida eterna.

Sepultamos nesta quarta-feira o Aleluia que, com duplo sentido (alegres pela ressurreição de Cristo e pelo novo Papa) com alegria, na Páscoa, daremos.

Em Cristo,

Evelyn Mayer de Almeida



6 de abr. de 2012

6ª feira Santa


Hoje é 6ª feira Santa. Quando eu era pequeno lembro bem como era esse dia, rezava de manhã, não escutava nenhum tipo de música, no almoço comia algum tipo de peixe, de tarde assistia um filme na sessão da tarde, lógico que era sempre um filme cristão, de noite ia a uma procissão. Isso não era exclusividade apenas de minha familia, quase todos eram assim, ninguem trabalhava, os bares ficavam fechados não havia jogos de futebol, era um dia de respeito, penitencia, jejum e oração. E hoje? As pessoa comem uma bela bacalhoada, se fartam de guloseimas, enchem a cara até ficarem bebadas, jogos de futebol, cheiro de churrasco, brigas crimes, Tudo isso praticado principalmente por quem se diz "católico" , são catolicos mesmo? Amados, que vontade de chorar, de ver cada vez mais as pessoas tão mundanas, funks pagodes no ultimo volume, cadê o respeito? Neste dia celebramos a morte de Cristo na Cruz, um minimo de respeito poderia haver, fui a uma procissão, totalmente contaminada pela campanha da fraternidade, essa campanha promovida por Bispos e padres hereges marxistas que possuem a clara intenção de deturpar totalmente o sentido da quaresma, que façam a campanha, tudo bem, mas não na quaresma. Hoje amados, eu creio, Cristo sente mais dor do que quando foi crucificado, Ele sente a dor da indiferença, pouco caso, desrespeito, a dor do pecado da promiscuidade, da luxuria e do aborto. Hoje o homem moderno se torna um voraz algoz de Cristo, Vão a Igrejas catolicas e protestantes, carregam uma cruz no peito, camisetas escritas Y love Jesus, Biblia debaixo do braço, terço nas mãos, e aí? Cadê a fidelidade? Estão querendo sempre algo em troca, escrevem nos carros "DEUS É FIÉL " porém eles não são nada fiéis, quase ninguém tem a coragem de carregar a Cruz com Cristo, abandonam a Cristo sozinho, comemoram a 6ªfeira Santa com uma boa bacalhoada e muita cerveja. Depois meus queridos não reclamem, o céu é para os valentes, os fortes os corajosos, os perseverantes. A quem ler esta mensagem, quando fores dormir, reflitam, vejam no que podem mudar, não custa nada tentar, façamos no próximo ano uma boa quaresma, com penitencia, jejum oração e caridade, tentemos ao menos ser solidários com Cristo na Cruz. Deus nos abençoe.
Marco Antonio

21 de fev. de 2012

Vídeo Comentário do I Domingo da Quaresma 26/02/2012


Caros amigos, neste I Domingo da Quaresma, contemplamos o Evangelho de Marcos 1,12-15, um Evangelho muito forte que nos faz refletir também sobre o nosso deserto, sobre as nossas tentações, e o porque de cada uma delas..... Meditaremos também neste vídeo como iniciar bem a nossa quaresma... para meditar mais, assista o vídeo. Caso não abrir, clique no link: http://pt.gloria.tv/?media=258685

20 de abr. de 2011

O Tríduo Sagrado da Páscoa. Por Don Emanuele Bargelline, Prior do mosteiro da transfiguração



SÃO PAULO, terça-feira, 19 de abril de 2011 (ZENIT.org ) - Antecipamos nesta semana a apresentação do comentário à Liturgia da Palavra redigido por Dom Emanuele Bargellini, Prior do Mosteiro da Transfiguração (Mogi das Cruzes - São Paulo), para favorecer a compreensão do Tríduo Sagrado da Páscoa. Doutor em liturgia pelo 'Pontificio Ateneo Santo Anselmo' (Roma), Dom Emanuele é monge beneditino camaldolense. * * *

O TRÍDUO SAGRADO DA PÁSCOA: JESUS MORTO, SEPULTADO, RESSUSCITADO


Um olhar de conjunto

"Ó abismo da riqueza, da sabedoria e da ciência de Deus! Como são insondáveis seus juízos e impenetráveis seus caminhos!... Porque tudo é dele, por ele e para ele. A ele a glória pelos séculos! Amém" (Rm 11, 33.36).

A expressão de maravilha e de louvor por parte do apóstolo diante do mistério da aliança irrevogável de Deus com Israel - aliança que vai além da sua infidelidade - e do chamado dos pagãos a participarem da sua plena realização na morte e ressurreição de Cristo, bem interpreta os sentidos mais profundos da Igreja ao celebrar o solene Tríduo Pascal. Este evento Pascal é a fonte divina e perene da sua vida, assim como do caminho espiritual desenvolvido ao longo do ano litúrgico. A Igreja nos convida a entrar em atitude de maravilha e adoração.

O Tríduo Sagrado inicia-se na tarde da quinta-feira santa, com a celebração da Ceia do Senhor, e acaba com as segundas Vésperas do dia da Páscoa. A Igreja contempla com fé e amor e celebra o mistério único e indivisível do seu Senhor Morto (Sexta-feira santa), Sepultado (Sábado santo) e Ressuscitado (Vigília e dia de Páscoa).

Com o Tríduo Pascal chegamos ao coração da história inteira e ao escopo da própria criação. A luz Pascal deste Santo Tríduo ilumina a vida de Jesus, sua missão desde seu nascimento e o projeto salvífico de Deus no seu desenvolvimento histórico: desde a criação e através das relações especiais da aliança com os patriarcas e os profetas, testemunhadas pelo Antigo Testamento. Na morte e ressurreição de Jesus e na efusão do Espírito, aquele projeto se revela em todo seu sentido profundo, e inicia a etapa radicalmente nova desta história que caminha rumo a seu cumprimento no fim dos tempos (cf. Ef 1,1-14; Cl 1, 15-20).

As pessoas que foram regeneradas na fé e no amor pelo batismo receberam as potencialidades e a vocação a viver como homens e mulheres "partícipes da vida do Ressuscitado", partilhando a mesma energia divina de Cristo no Espírito (cf. Ef 2, 4-8; Cl 3, 1-4: 5-11).

As celebrações do Tríduo são particularmente ricas de gestos, movimentos, Palavra proclamada e comentada, cantos, silêncios. Tudo converge para nos aproximarmos com coração aberto e íntima devoção ao mistério da morte e da ressurreição de Cristo e da nossa participação a ele, por graça. O que mais nos surpreende é descobrir, mais uma vez, o amor gratuito com que Deus nos amou, e fica nos amando, até doar seu próprio Filho por nós e nele doar-nos sua própria vida: "para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna" (Jo 3, 16), como nos lembra o evangelista. Surpreendidos ainda mais pelo feito que "não fomos nós que amamos a Deus, mas foi ele quem nos amou e enviou-nos seu Filho como vítima de expiação pelos nossos pecados" (1 Jo 4, 10).

O extremo esvaziamento do Verbo encarnado, na morte de cruz e no silêncio do sepulcro, abre o caminho para uma nova história, em prol de cada um e do mundo inteiro. "Batizados em Cristo Jesus, é na sua morte que fomos batizados. Portanto pelo batismo nós fomos sepultados com ele na morte, para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, assim também nós vivamos vida nova" (Rm 6, 3-4).

Celebramos em maneira indivisível a Páscoa pessoal de Jesus e a Páscoa de seu corpo vivo que é a Igreja e cada um de nós, a caminho na esperança da renovação plena e definitiva.

Os três dias do Tríduo sagrado constituem a trama articulada e unitária do único e mesmo mistério pascal de Jesus e da Igreja. Cada dia, com a especificidade da sua linguagem ritual, põe a tônica sobre uma etapa ou aspecto do caminho pascal de Jesus. A forma narrativa dos acontecimentos destaca que a ação de Deus em Jesus se insere na realidade humana com suas aberturas e resistências, até a dramática recusa do seu amor. Mas o amor de Deus não se deixa vencer pelo mal e o pecado: "Antes da festa da páscoa, sabendo Jesus que chegara a sua hora de passar deste mundo para o Pai, tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim" (Jo 13, 1).

Cada um dos três dias nos proporciona a oportunidade de nos mergulharmos em diferentes aspectos do mistério pascal. Por enquanto, achei mais conveniente oferecer ao início algumas sugestões de caráter geral. Talvez elas possam ajudar a colocar e viver cada celebração na visão unitária do mistério pascal, assim como a Igreja o contempla e no-lo transmite através das celebrações. De cada dia irei destacar um ou outro elemento, útil para evidenciar a continuidade interior do Tríduo.

A Quinta-feira santa: "Jesus... tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim"

A missa do Crisma, presidida na manhã pelo bispo em sua catedral, com a participação do clero e do povo, encerra a quaresma e prepara os Óleos santos finalizados à celebração da iniciação cristã - especialmente durante a grande vigília pascal - e a da unção dos enfermos. Os textos bíblicos (Is 61, 1-9; Ap 1,5-8; Lc 4, 16-21), assim como as orações e o magnífico prefácio, destacam o sacerdócio de Jesus e a participação do povo cristão ao sacerdócio dele no Espírito Santo, em força do batismo. É o coração do dom da páscoa e da vida nova de todo o povo de Deus.

A Ceia do Senhor, na tarde (Ex 12, 1-14; 1 Cor 11, 23-26; Jo 13, 1-15), abre o Tríduo, celebrando antecipadamente na forma sacramental da eucaristia o dom do corpo e do sangue do Senhor, que a Igreja guarda como memória viva e fonte inesgotável da sua vida no tempo. A Igreja está certa de que "todas as vezes que celebramos este sacrifício em memória do vosso Filho, torna-se presente a nossa redenção" (Oração sobre as oferendas). O gesto de amor e de humildade com que Jesus, o Mestre e o Senhor, lava os pés aos discípulos, determina o horizonte divino das relações recíprocas entre os discípulos, e deles com qualquer pessoa, em toda situação e em todo tempo. Cada sofrimento partilhado e cada gesto de solidariedade faz Jesus lavar os pés e cumprir seu mandamento.

A Sexta-feira santa: celebração da Paixão do Senhor

No centro da celebração está o evento e o mistério da cruz, proclamado nas Escrituras (Is 52,13-53,12; Jo 18,1-19,42), honrado com a adoração e o beijo da cruz por parte da a assembléia, reconhecido como intercessão permanente junto do Pai (Oração universal), interiorizado na comunhão. A cruz é tragédia em nível humano, porém a fé a proclama como revelação suprema do amor de Jesus e início da vida nova que dele brota.

Neste dia a Igreja fica concentrada diretamente sobre a contemplação silenciosa e adorante do evento da crucifixão. Não celebra a memória sacramental da morte de Cristo com a Missa. A cruz é o "eixo do mundo", diziam os Padres da Igreja, pois nela se manifesta o extremo compromisso de Deus em favor do mundo. Este amor divino é o que sustenta o mundo.

O estilo de Deus é loucura para os homens (cf. 1 Cor 3,18 -25), como o silêncio da morte ignominiosa na cruz. Porém este silêncio se torna o grito mais alto que testemunha seu amor sem limite.

O grito sofrido e confiante de Jesus, "Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?" (Mc 15,34; Sal 21, 2), assume em si mesmo o grito dos crucificados de todos os tempos, e abre para eles a esperança, pois "por isso Deus o exaltou e lhe concedeu um título (Kyrios- Senhor) que é superior a todo título", e o fez raiz e modelo de vida nova entre os irmãos (Fil 2, 6-9).

O perdão invocado sobre os algozes: "Pai, perdoa-lhes: não sabem o que fazem" (Lc 23,34) e a entrega confiante ao Pai: "Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito" (cf. Sal 31,6 - Lc 23,46), abrem caminho definitivo para a comunhão renovada com Deus, abolindo todo impedimento ou outra mediação: "Jesus, porém, tornado a dar um grande grito, entregou o espírito. Nisso, o véu do templo se rasgou em duas partes, de cima a baixo, a terra tremeu e as rochas se fenderam" (Mt 27,50 -51).

A Igreja hoje se reveste do silêncio mais do que de palavras. A celebração da Paixão se abre e acaba com a assembléia em silêncio! Ela fica olhando intensamente o esposo e cruza seu olhar com o olhar compassivo dele, que lhe transmite toda a força do seu amor. É do encontro deste recíproco olhar no amor que nascem os namorados e as namoradas de Cristo, os que chegam a doar a própria vida por ele e como ele.

Nas salas cinematográficas do Brasil está estreando nestes dias o filme "Homens e Deuses" (Des Hommes et des Dieux), do diretor francês Xavier Beauvois. Narra a história simples e extraordinária dos sete monges trapistas mortos em 1997, em maneira ainda misteriosa por mão violenta, no mosteiro de Nossa Senhora do Atlas, na Argélia. Testemunhas de amor gratuito e sem limites entre si e com os habitantes muçulmanos da região, impelidos pela profunda relação pessoal de cada um com Cristo, única razão para ficarem solidários entre si e com os irmãos muçulmanos, se necessário até o martírio, como de fato aconteceu. É esta relação pessoal no amor que faz Cristo crucificado e sua páscoa tornar-se contemporâneos para com cada um de nós.

Na sua fé a Igreja contempla o mistério da cruz na sua integridade, deixando-se guiar pela visão teológica da Paixão escrita por João. Ela faz da cruz o "evento de salvação", da elevação violenta de Jesus na cruz a sua glorificação, e do "crucificado" o "Senhor" que dá a vida, derramando o Espírito criador (cf. Jo 19,30). A arte da Igreja, até o séc. 13, teve a ousadia de representar Jesus crucificado, como o Vivente, o Rei vitorioso e o Sacerdote do Pai. Do seu lado transpassado nasce o admirável sacramento da Igreja (cf. Sacrosanctum Concilium, n. 5).

A religiosidade popular do Brasil, herdeira da religiosidade popular de Portugal colonial, tem ainda dificuldade de integrar a cruz na ressurreição. Deixando-se guiar pela liturgia, existe bastante espaço para valorizar a sensibilidade do povo brasileiro para o Cristo sofredor, tão próximo à sua história e, ao mesmo tempo, reconstruir a integridade da boa nova libertadora de Jesus e do seu mistério pascal.

Sábado Santo: dia do silêncio de Deus e dos homens

O Sábado santo é o dia do grande silêncio. Só a Liturgia das Horas acompanha as etapas do dia.

Um dia vazio ou, ao invés, um dia de silêncio contemplativo e fecundo, de espera e de esperança, suscitada pela gestação silenciosa da nova criatura no seio da terra e do coração de Deus?

"Que está acontecendo hoje?", se pergunta o autor de uma antiga homilia sobre o sábado santo (séc. IV). "Um grande silêncio reina sobre a terra. Um grande silêncio e uma grande solidão. Um grande silêncio, porque o rei está dormindo; a terra estremeceu e ficou silenciosa, porque o Deus feito homem adormeceu e acordou os que dormiam há séculos." (LH, IV, Sábado santo).

O Sábado santo testemunha que Deus continua descendo até as entranhas mais obscuras e ambíguas da alma humana, e nas experiências mais marginalizadas, para recuperá-las e trazê-las à vida. Nada e ninguém é abandonado a si mesmo. Aprender a conviver com a "fraqueza" de Deus, com os silêncios de Deus, com os tempos e os diferentes ritmos de Deus, dos seus projetos, com a pedagogia com a qual ele nos dirige e acompanha com amor fiel embora às vezes incompreensível. Eis a lição do Sábado santo. O Sábado santo não é somente o segundo dia do tríduo: é uma dimensão constitutiva da identidade cristã e de todo caminho espiritual cristão.

Para perceber e acolher a voz silenciosa que sobe da escuridão, é preciso o silêncio interior que abre à escuta e à uma visão mais aguda.

A grande Vigília da noite e o domingo de Páscoa

A grande vigília da noite, junto com o dia de Páscoa, constitui o cume do Tríduo sagrado e do caminho quaresmal.

São a noite e o dia destinados por sua natureza a iniciar/introduzir os catecúmenos à fundamental relação pessoal com Cristo através dos sacramentos da iniciação cristã. Com as palavras dos profetas Oséias e Isaías (4a Leitura: Is 54,5-14), a liturgia chama esta vigília de "noite das núpcias" de Cristo com a Igreja. Ele a torna mãe fecunda, capaz de gerar novos filhos ao Senhor nas águas maternais do batismo. Santo Ambrósio, nas suas catequeses mistagógicas sobre a iniciação cristã, descreve o encontro pessoal do neo-batizado com Cristo na eucaristia como o encontro apaixonado do amado com a amada do Cântico dos Cânticos! [1]

É a noite-dia em que também os "fieis" são chamados a renovar seu compromisso batismal (renovação das promessas batismais), pois o batismo é a fonte que alimenta toda experiência espiritual cristã.

A vigília se articula em quatro etapas que bem representam o caminho da iniciação e o do progresso espiritual ao longo da vida: liturgia da luz - liturgia da palavra - liturgia batismal - liturgia eucarística.

Quatro linguagens rituais para celebrar o único mistério de Cristo morto e ressuscitado, Elas destacam a passagem do batizado de uma existência nas trevas e na morte do pecado para uma vida nova em Cristo, para viver como ressuscitados.

- Liturgia da luz: Uma luz nasce de repente no coração da noite. Do círio pascal, símbolo de Cristo, recebem luz as velas de toda a assembléia que se põe a caminho. A reação frente a tamanho dom de Deus é o grito de alegria do "Exultet", quase contraponto ao grito sofrido da Sexta-feira santa e ao silêncio adorante do sábado.

- Liturgia da Palavra: As sete leituras do AT e as duas do NT constituem a profunda contemplação das etapas de toda a história da salvação, desde a criação do mundo, através da história de Israel no AT, até à ressurreição de Jesus, e à proclamação que os batizados participam por graça à ela, iniciando o caminho do novo povo de Deus (Rm 6,3-11). A vida espiritual do cristão é continuidade e realização da mesma e única história da salvação, na espera do seu cumprimento com a vinda gloriosa de Cristo.

- Liturgia batismal: Constitui a passagem forte da vigília pascal. É a meta da longa preparação quaresmal para os catecúmenos, assim como para os já batizados.

O processo de preparação - como vimos, ao seguir a estrutura dos domingos da quaresma - destacou os variados horizontes e exigências para entrar na experiência sacramental e de relação pessoal com Cristo, e fazer desta relação a fonte e o critério de uma nova existência.

A renovação das promessas do batismo por parte de toda a assembléia abre estes horizontes, destaca estas exigências, confirma esta graça.

- Liturgia eucarística. Partilhar o corpo e o sangue do Senhor à mesa do altar é o dom supremo que os neo-batizados e os renovados na graça do batismo vão receber do próprio Cristo ressuscitado. Eles são introduzidos no mesmo dinamismo do Senhor. "Quando vai receber o corpo de Cristo nas mãos - sublinha Santo Agostinho aos recém-batizados - e ouvis o sacerdote dizer "É o corpo de Cristo", tu respondes "Amém". Tu recebes o corpo de Cristo, que sois vós".

A nova existência alimentada pelo Espírito do Ressuscitado é vivificada por um novo dinamismo que produz os frutos do Espírito: alegria, paz, confiança filial, solidariedade fraterna.

O canto do Aleluia constitui o emblema da Páscoa e da vida nova em Cristo. Brota da alegria da fé, se irradia através da vida renovada, antecipa a plenitude da esperança: "A Paixão do Senhor mostra-nos as dificuldades da vida presente, em que é preciso trabalhar, sofrer e por fim morrer. A ressurreição e glorificação do Senhor nos revelam a vida que um dia nos será dada... É isto o que todos nós exprimimos mutuamente quando cantamos: Aleluia! Louvai o Senhor!... Mas louvai com todas as vossas forças, isto é, louvai a Deus não só com a língua e a voz, mas também com a vossa consciência, a vossa vida, as vossas ações. (S. Agostinho, Com. Salmos, 148 1-2; 5a Semana do Tempo Pascal, Sábado LH II, pg 779).

"Ó Deus, por vosso Filho unigênito, vencedor da morte, abristes hoje para nós as portas da eternidade. Concedei que, celebrando a ressurreição do Senhor, renovados pelo vosso Espírito, ressuscitemos na luz da vida nova" (Domingo de Páscoa, Oração do dia).

Notas:

1. Santo Ambrósio, Os sacramentos e os mistérios; Introdução e tradução por Dom Paulo Evaristo Arns - Comentários por Dom Geraldo Majella Agnelo ; Editora Vozes 1981

Fonte: Cléofas

24 de mar. de 2011

Esta música deve ser o nosso hino diário durante a Quaresma



Jesus Misericordioso
Irmã Kelly Patrícia


Senhor, pela Tua Paixão
No abandono da Cruz
Tem piedade de nós

Jesus,
Pelo Sangue Jorrado do Teu Coração
Pelo Teu Sacrifício
Misericórdia

Deus Santo
Deus Forte
Deus Imortal e de Poder

Nós Te adoramos
Te bendizemos
Te glorificamos, ó Senhor

Deus Pai, nós ofertamos
O Corpo e o Sangue de Cristo
Sua alma e Sua divindade
Em expiação dos nossos pecados

O testemunho convence. Ou: Seja um 'Evangelho-Ambulante'

"Tome muito cuidado com sua vida, pois ela pode ser o único Evangelho que seu irmão lê."
(Madre Tereza de Calcutá)



Quando meditamos as Escrituras, vemos que Jesus sempre usava de exemplos para falar sobre o Seu Reino; e Ele os usava porque era mais fácil falar do Reino por meio deles. Claro que as analogias que Ele usava são ínfimas perto do que é propriamente o Reino, mas como nossa inteligência é curtíssima, Ele "rebaixou", "simplificou" o Reino em Sua explicação para que compreendêssemos.

No entanto, uma das coisas que mais me chama a atenção é quando o próprio Jesus se faz exemplo para conquistarmos este Reino, conforme citou o Evangelista Lucas, no capítulo 9, versículo 23: Quem quiser ser meu discípulo, renuncie a si mesmo; tome a sua cruz e siga-me.

Confesso que este pequeno versículo causa-me arrepios! Jesus nos dá três condições para sermos Seu discípulo: renunciarmos a nós mesmos, tomarmos a nossa cruz e seguí-lO. Parece fácil? Não, não é. Porém, não é impossível, pois nada que o Senhor nos pediu está fora do nosso alcance com o auxílio de Sua graça.

O ato de renunciar, a mim, parece o mais difícil de todas as três condições - e por isso o Senhor o colocou em primeiro lugar -, pois renunciar implica em desaparecer. A renúncia exige deixar de lado tudo o que se deseja, espera, quer, premedita, por amor ao Senhor.O problema é que somos mesquinhos, egoístas, avarentos, cheios de desejos. Não queremos renunciar a uma roupa que não estejamos usando, por exemplo, e dá-la a alguém que realmente precisa. A renúncia exige coragem, desprendimento, e acima de tudo, conhecimento pelo o quê se despreza. Um testemunho que elucida isso é o de Cura D'ars. O nobre santo, quando foi enviado a Ars, na França, vendo que a cidade toda era alicerçada na prostituição, luxúria e orgias, renunciou todos os objetos de valor que tinha, ficando apenas com duas túnicas. Fazia penitências diárias, e com o fruto de sua oração e perseverança, toda a cidade de Ars converteu-se ao Senhor, abandonando toda a sua vida de pecado. Seu testemunho nos deixa claro que, ao renunciar todos os seus gostos pelas causas evangélicas, Cura d'Ars pôde fazer a vontade de Deus, que é salvar o Seu povo das trevas do pecado.

Tomar a cruz é pesado, mas fácil se conseguirmos entender o primeiro passo (renúncia) e colocá-lo em prática, pois tomar a cruz exige não apenas uma renúncia de si, e sim, mostrar a Deus o amor que você tem por Ele e por seus filhos. E porque você os ama, só deseja cumprir os desígnos do Senhor para o bem de ambos. Assumir a cruz, então, é apossar-se da graça do Pai e de Seu amor, bem como sinal de responsabilidade, maturidade espiritual. Logo, tomar a cruz não é sinônimo de dor, mas amor. Tomá-la quer dizer que você entendeu o amor que Ele tem por você e por isso quer retribuir da mesma forma. Tomar cruz é, literalmente, morrer para si mesmo. É cumprir Gálatas 2,20: Vivo, mas não sou. É Cristo que vive em mim.

Ao renunciar suas vontades e assumir sua cruz, o terceiro passo é praticamente voluntário: seguir o Senhor. Ah! Seguir o Senhor é um deleite às nossas almas. Seguí-lo não é perseguí-lo, tal qual fizeram os Doutores da Lei. Seguí-lo e andar sobre os Seus passos. Jesus andou, eu venho logo atrás e piso sobre as pegadas deixadas no chão, a fim de não sair nenhum milímetro fora de Sua Vontade. Seguir o Senhor é fazer tudo, tudo, tudo em acordo com a Sua Vontade. Quem assim consegue viver, já não deseja mais ser o centro da atenção, pois sua vida está toda centrada em Cristo. O desejo que este alguém tem não é de aparecer, mas deixar que o Senhor Jesus apareça. Torna-se, então, um Evangelho vivo.

Muitas pessoas conseguiram fazer isso. A primeira delas foi a Virgem Santíssima. São José, o próximo. São João Batista, o Evangelista; Os Apóstolos; os Mártires e os Santos e Justos de todos os tempos. Conseguiram tanto que honraram o nome "cristão": fizeram a vontade do Pai, seguiram Jesus e, assim como Ele, formaram discípulos.

Quando toco neste assunto, sempre me lembro de São Francisco de Assis. Um dia ele convidou um de seus discípulos para evangelizar numa cidade próxima. Animado com o convite, o discípulo jejuou, orou e esperou, ansioso, para a missão. No dia seguinte, ao chegar na cidade onde a missão ocorreria, São Francisco apenas o instruiu a caminhar próximo ao povo, por toda a cidade. Ao término, indagou: Mestre, não vimos aqui evangelizar? Por que não falamos nada? E ao que São Francisco respondeu: Porque não precisamos falar o Evangelho, mas devemos SER um! Se as pessoas não viram em nós o Cristo, de nada nos adianta falar.

Para finalizar, retomo aqui a frase de Madre Tereza de Calcutá, citada no início deste texto: Tome muito cuidado com sua vida, pois ela pode ser o único Evangelho que seu irmão lê. O que é que seu irmão tem lido em você? Ele enxerga nos seus olhos o Cristo Vivo e Ressuscitado? Será que você faz a diferença na vida das pessoas de sua casa, de sua família? Em miúdos: você já assumiu e pôs em prática as três condições que Cristo nos deu em Lucas 9,23 para ser um testemunho que convença o mundo que só Jesus Cristo é o Senhor, e que serví-lO é a maior graça que alguém pode ter?

Se todas as respostas foram não, não se desespera. Aproveite este tempo de Quaresma para meditar, para voltar ao Senhor e assim viver uma Páscoa excelsa. Certamente Ele o espera. Volte para Ele e permita-O ajudá-lo a ser um "Evangelho-Ambulante" por aí.

23 de mar. de 2011

Leituras Quaresmais - A prática da mortificação cristã (Introdução)

Justificativa: Após ler o maravilhoso texto retirado do blog do Angueth, resolvi trazê-lo para a nossa meditação diária quaresmal.
Como o texto é comprido, trarei fragmentos do mesmo diariamente. Até porque, penso que o ideal não é lê-lo, mas sim, praticar o que nele está escrito.
Quem quiser lê-lo por completo, o texto original está aqui.

Em Cristo,
Evelyn.
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Nota: Todas as práticas de mortificação que reunimos aqui são recolhidas dos exemplos dos santos, especialmente Santo Agostinho, Santo Tomás de Aquino, Santa Teresa, São Francisco de Sales, São João Berchmans, ou são recomendadas por reconhecidos mestres da vida espiritual, como o Venerável Louis de Blois, Rodriguez, Scaramelli, Abade Allemand, Abade Hamon, Abade Dubois, etc.

Artigo 1 – Objeto da mortificação cristã
A mortificação cristã tem por fim neutralizar as influências malignas que o pecado original ainda exerce nas nossas almas, inclusive depois que o batismo as regenerou. Nossa regeneração em Cristo, ainda que tenha anulado completamente o pecado em nós, nos deixa sem embargo muito longe da retidão e da paz originais. O Concílio de Trento reconhece que a concupiscência, ou seja, o triplo apetite da carne, dos olhos e do orgulho, se deixa sentir em nós, inclusive depois do batismo, a fim de excitar-nos às gloriosas lutas da vida cristã (Conc. Trid., Sess. 5, Decretum de pecc. orig.).
A Escritura logo chama esta tripla concupiscência de “homem velho“, oposto ao “homem novo” que é Jesus que vive em nós e nós mesmos que vivemos em Jesus, como “carne” ou natureza caída, oposta ao “espírito” ou natureza regenerada pela graça sobrenatural. Este velho homem ou esta carne, ou seja, o homem inteiro com sua dupla vida moral e física, deve ser, não digo aniquilado, porque é coisa impossível enquanto dure a vida presente, mas sim mortificado, ou seja, reduzido praticamente à impotência, à inércia e à esterilidade de um morto; há que impedir-lhe que dê seu fruto, que é o pecado, e anular sua ação em toda a nossa vida moral.
A mortificação cristã deve, portanto, abraçar o homem inteiro, estender-se a todas as esferas de atividade nas quais a natureza é capaz de mover-se. Tal é o objeto da virtude de mortificação. Vamos indicar sua prática, recorrendo sucessivamente às manifestações múltiplas de atividade em que se traduz em nós:
I) A atividade orgânica ou a vida corporal;
II) A atividade sensível, que se exerce seja sob a forma do conhecimento sensível pelos sentidos exteriores ou pela imaginação, seja sob a forma de apetite sensível ou de paixão;
III) A atividade racional e livre, princípio de nossos pensamentos e de nossos juízos, e das determinações de nossa vontade;
IV) Consideraremos a manifestação exterior da vida de nossa alma, ou nossas ações exteriores;
V) E, finalmente, o intercâmbio de nossas relações com o próximo.

21 de mar. de 2011

Quando se faz necessário quebrar o jejum

Às vezes acontece de, durante tempos em que estamos jejuando longamente - como na Quaresma - quebrarmos o jejum, não por desejo ou esquecimento, mas por uma ocasião. Como devemos agir?

Fonte Foto: blog da canção nova

Já houve épocas em que eu enlouquecia com estas questões. Um caso era quando eu jejuava carne às sextas-feiras, mas meu marido, não. Como eu saberia se a carne estaria boa, com o tempero em ponto? Acabava que, ao provar, eu comia a carne e meu jejum ia por água abaixo.

Porém, como Deus é misericordioso, um dia, um padre, após a confissão, explicou-me sobre isso e repasso agora a vocês.

Quando estamos jejuando, o Senhor Jesus pediu que não fizéssemos cara feia a fim de que as pessoas notem que estamos jejuando, mas sim que estampássemos a alegria no rosto para que ninguém perceba. Logo, se os seus familiares sabem que você costuma praticar o jejum, eles não se sentirão constrangidos quando você não comer carne ou qualquer outra coisa que você esteja abstendo por uma causa. No entanto, se é você quem cozinha e precisa provar justamente aquele alimento que decidiu jejuar, prove. Provar não é comê-lo todo. E isto é uma prova de amor, de caridade para com os seus pares. Não é gentil servir-lhes algo insonso ou salgado. Prove um pedacinho que lhe permita sentir o gosto e pronto. Provar não nos dá o direito de quebrar o jejum, mas de agirmos com caridade com o próximo.

Outro exemplo é quando somos convidados para ir a casa de alguém. Se é possível dizer a esta pessoa que você está jejuando e por isso irá se abster de tal prato, ok. Agora, se esta pessoa não lhe conhece e deixar de comer algo que ela está servindo for motivo de constrangimento a ela,come um pouquinho.Situação: você deixou de comer massa na Quaresma. De repente sua amiga lhe convida para jantar em casa dela a fim de comemorarem a notícia da gravidez dela.O prato principal: lazanha (=massa). Será impossível que sua amiga não note que você não comeu. Logo, pegue um pedacinho pequeno e ofereça ao Senhor este ato a fim de alegrar o coração desta amiga e serví-la. O mesmo quando, por algum motivo, você convidar alguém à sua casa para um jantar. Se você sabe que aquela pessoa não tem a prática de jejuar e você está jejuando carne, por exemplo, seria extremamente faltoso com a caridade se só lhe servisse peixe. E se ela não come peixe? Portanto, ofereça-a o que deseja comer. Faça o peixe, mas também faça a carne. Você não será obrigado a comê-la, mas ao menos ofereceu à sua visita algo que ela gostaria de comer.

Conto-lhes isso porque eu tenho passado por situações semelhantes. Minha sogra não tem a prática de jejuar. Ela adora cozinhar pratos maravilhosos e nota quando não comemos. Sexta-feira mesmo ela fez linguiça e ovo. Comi só o ovo. Ela notou, mas não comentou nada, porque sabe que eu jejuo. Quando ela insiste, eu pego um pedacinho, mas não abandono a prática.

Por fim, "quebrar" o jejum neste sentido não tem mau, mas também não nos dá o direito de despedir o jejum. Ao contrário. Que estas ocasiões sirvam par alimentar em nós o domínio próprio, a temperança e a fortaleza. E tudo isso só será possível com oração, pois jejum sem oração é regime.

20 de mar. de 2011

A Transfiguração nos ajuda a vencer as adversidades

"O fim principal da transfiguração foi desterrar das almas dos discípulos o escândalo da Cruz” (São Leão Magno. Sermão 51 sobre a Quaresma, 3)





“Numa piedosa autorização, [Cristo] permitiu que Pedro, Tiago e João fruíssem durante um tempo muito curto da contemplação da felicidade que dura para sempre, a fim de fortalecê-los perante a adversidade” (São Beda. Comentário sobre São Marcos, 8,30;1,3)
 
 
É interessante que em meio ao tempo da Quaresma que procuramos meditar com maior profundidade nos sofrimentos do Senhor, a Igreja nos proponha o Evangelho da transfiguração, para que não percamos o foco sobrenatural de nossas vidas. Assim, recordemo-nos sempre que nossa meta é o Cristo glorioso que reina nos Céus e que padeceu para nossa Salvação. Não desanimemos portanto ao passarmos pela cruz, pois depois da cruz veremos a Glória de Deus. O Senhor revelou antecipadamente Sua Glória aos três apóstolos para que compreendessem que Ele era Deus Onipotente e Glorios e que, por mais que aparentemente parecesse vencido, triunfaria no final. Portanto, aprendamos a recordar do fim sobrenatural de nossas vidas e assim não desanimarmos com as derrotas transitórias.
 

13 de mar. de 2011

Sermão de Santo Antônio de Pádua para o I Domingo da Quaresma



"O tentador aproximou-se de Jesus e disse-lhe: “Se és Filho de Deus, manda que estas pedras se transformem em pães” (Mt 4,3). O diabo em circunstâncias semelhantes procede de maneira semelhante. Com a mesma tática com que tentou Adão no paraíso terrestre, tentou também a Cristo no deserto e continua tentando qualquer cristão neste mundo. Tentou o primeiro Adão pela gula, pela vanglória e pela avareza e, tentando-o, venceu-o. Ao segundo Adão, isto é, Cristo, ele tentou de maneira semelhante, mas no foi vencido no seu intento porque quem ele tentava então não era somente um homem, mas era também Deus! Nós, que somos participantes de ambos, do homem segundo a carne e de Deus segundo o espírito, despojemo-nos do homem velho com suas obras que são a gula, a vanglória e a avareza e vistamo-nos do homem novo, renovados pela confissão, para frearmos, com o jejum, o desenfreado ardor da gula, para abatermos, com a humildade da confissão, a altura da vanglória, para pisarmos, com a contrição do coração, o denso lodo da avareza. “Bem aventurados, diz o Senhor, os pobres em espírito”, isto é, os que têm o espírito dolorido e o coração contrito, “porque deles é o reino dos céus” (Mt 5,3).

Procure ainda observar que, assim como o diabo tentou de gula o Senhor no deserto, de vanglória no templo, de avareza no cimo do monte, assim também faz conosco todos os dias: tenta-nos de gula no deserto do jejum, de vanglória no templo da oração e do ofício, de tantas formas de avareza no monte dos nossos cargos. Enquanto fazemos jejum, ele nos sugere a gula, com a qual pecamos em cinco maneiras, como diz o verso: “antes do tempo, abundantemente, demais, com voracidade e com delicadeza exagerada” (São Gregório). ANTES DO TEMPO, isto é, quando se come antes da hora; ABUNDANTEMENTE, quando se excita a gulosice da língua e se quer aumentar um apetite fraco com temperos, especiarias e toda espécie de comida; DEMAIS, quando se come mais comida do que o corpo necessita; pois dizem alguns gulosos: temos que fazer jejum, então vamos comer para suprir de uma só vez tanto o o almoço quanto a janta. Estes são como o bicho-da-seda que não sai da árvore em que está até não devorá-la completamente. O “bruco” (bicho-da-seda) é chamado assim porque é feito quase só de boca e simboliza muito bem os gulosos que são tudo, gula e barriga, e assaltam o prato como se fosse uma fortaleza e não o deixam se antes não o devoraram todo: ou se estoura a barriga ou se esvazia o prato! COM VORACIDADE quando o homem se joga sobre qualquer comida como se fosse assaltar uma fortaleza, abre os braços, estica as mãos, come com todo seu corpo; à mesa é como um cão que, na comida, não quer ter rivais. COM DELICADEZA EXAGERADA quando se procura só comidas deliciosas e preparadas com grande esmero.

Como se lê no primeiro livro dos Reis, sobre os filhos de Heli, que não queriam aceitar a carne cozida, mas só a crua, para poderem prepará-la com mais temperos e outras iguarias. Semelhantemente, o diabo nos tenta de vanglória no templo. Com efeito, enquanto estamos em oração, enquanto recitamos o ofício e estamos ocupados na pregação, somos assaltados pelo diabo com os dardos da vanglória e, infelizmente, muitas vezes feridos. Existem efetivamente alguns que, enquanto oram e dobram os joelhos e soltam suspiros, querem ser vistos. E há outros que, quando cantam em coro, modulam a voz, fazem falsetes e desejam ser ouvidos. Enfim, há também os que, quando pregam, elevam a voz como trovão, multiplicam as citações, interpretam-nas a seu modo, giram-se pra cá e pra lá e desejam ser louvados. Todos esses mercenários - acreditem-me - “já receberam sua recompensa” (Mt 6,2) e colocaram sua filha no prostíbulo. Diz Moisés no Levítico: “Não profanes a tua filha, fazendo-a prostituir-se” (19,29). Filha minha é a minha obra e eu a prostituo, quer dizer, a coloco no prostíbulo quando a vendo pelo dinheiro da vanglória. Por isso é que o Senhor nos aconselha: “Tu, porém, quando orares, entra no teu quarto e, fechando tua porta, ora ao teu Pai que está lá no segredo” (Mt 6,6). Tu, quando quiseres rezar ou fazer alguma coisa de bom - e é nisto que consiste o “orar sem cessar” - entra em teu quarto, isto é, no segredo do teu coração, e fecha a porta dos cinco sentidos para não desejar nem ser visto nem ser escutado nem ser louvado. Com efeito, diz Lucas (1,9) que Zacarias entrou no templo do Senhor na hora do incenso. No tempo da oração "que se eleva à presença do Senhor como o incenso" (Salmo 140,2). Tu deves entrar no templo do teu coração e orar ao teu Pai e “o teu Pai, que vê no segredo, te recompensará” (Mt 6,6). Além disso, do alto dos nossos encargos, da nossa passageira dignidade, somos tentados a cometer muitos pecados de avareza. Não existe só a avareza do dinheiro, mas também aquela do querer ser mais do que os outros. Os avarentos, mais têm mais desejam possuir.

Aqueles que ocupam altos postos, quanto mais sobem mais querem subir e assim acontece que caem com numa queda muito mais ruidosa, já que “os ventos sopram mais nos lugares altos” (Ovídio) e “aos ídolos é que são oferecidos sacrifícios nas alturas” (4 Reis 12,3). Diz Salomão a propósito: “O fogo não diz nunca: basta!” (Prov 30,16). O fogo, quer dizer, a avareza do dinheiro e das honrarias não diz nunca: basta! Mas o que é que diz então? “Mais, mais!” Senhor Jesus, tirai, tirai estes dois “mais, mais” dos prelados de vossa Igreja, que se pavoneiam no alto de suas dignidades eclesiásticas e gastam o vosso patrimônio, por Vós conquistado com os tapas, com as flagelações, com as cusparadas, com a cruz, com os cravos, com o vinagre, com o fel e a lança. Nós, portanto, que somos chamados cristãos por causa do nome de Cristo, imploramos todos juntos, com a devoção da alma e ao mesmo Jesus Cristo, e pedimos insistentemente que ele, do espírito de contrição, nos faça chegar ao deserto da confissão, a fim de que, nesta Quaresma, mereçamos receber o perdão de todas as nossas maldades e, renovados e purificados, nos tornemos dignos de gozar da alegria da sua santa Ressurreição e ser colocados na glória da felicidade eterna. No-lo conceda Aquele a quem se deve toda honra e toda glória por todos os séculos dos séculos. Amém."
 
(Tradução: Frei Geraldo Monteiro, OFM Conv Sermões Dominicais e Festivos, 1º Domingo de Quaresma, pp. 81-84)
 

9 de mar. de 2011

Quaresma: tempo com o Espírito Santo

Nas preces rezadas hoje na Liturgia das Horas diz: "Demos graças a Deus Pai, que nos concede o dom de iniciar hoje o tempo quaresmal. Supliquemos que durante estes dias de salvação Ele purifique e confirme os nossos corações na caridade, pela vinda e ação do Espírito Santo." (grifos meus).

Às vezes imaginamos a Quaresma como um tempo de angústia. Nos entristecemos, pois sabemos que teremos de fazer jejuns, penitências, orações... Ah! Como somos indisciplinados para isso! Ficamos a nos perguntar qual a necessidade de todas estas coisas, o por quê que nós temos que agir assim ou assado... A prece acima nos dá a resposta: Quaresma é o tempo em que cada dia é um dia de salvação. Quaresma é tempo de graça, não de temor; é tempo de alegria, não de tristeza; é tempo de salvação, não de perdição. E quem nos auxilia a viver este momento precioso da Igreja é o Espírito Santo! Ele é que vem ao nosso encontro para nos ajudar neste processo de purificação, de salvação. Ele é quem nos impulsiona a seguir em frente, sem medo, com coragem e determinação. É Ele quem nos dá a discplina, a constância, a temperança e a continência.

Peçamos, então, neste início de Quaresma, que o Espírito Santo nos ajude a viver com preciosidade cada dia, cada minuto deste tempo primoroso. Que todas as manhãs você possa se levantar e dizer: "Oh, Santo Espírito, o que faremos juntos hoje? Auxilie-me na caminhada de salvação que traçaremos juntos neste dia, pois só a Tua Graça poderá guiar-me. Sozinho eu nada poderei fazer".


Algumas coisinhas:

1 - Jejum sem oração é regime!
Portanto, não faça penitências ou jejuns dos quais você não consegue cumprir apenas para se aparecer ou ainda com a "subintenção" de emagrecer. A força do jejum está na oração e o contrário também procede. Jejuamos para termos constância, temperânça. Além do que, o jejum nos mantém alerto para a oração. Logo, se jejuar, ore. Se orar, jejue! E nada de vaidade quando jejuar!

2 - Quaresma não é tempo de pagar promessa!
Às vezes as pessoas querem cumprir as promessas mais absurdas e escolhem a Quaresma para tanto. Hei: Quaresma não é tempo de pagar promessa, mas de con-ver-são! Procure neste tempo não "barganhar" com Deus, coisas do tipo: "Senhor, se o Senhor me ajudar em tal coisa, eu fico a Quaresma sem beber". Não é assim que devemos nos relacionar com Deus. A Ele devemos dar o nosso melhor. Se for fazer penitências, faça-as por amor, não por troca. Lembrando também que os jejuns e penitências na Quaresma são obrigações nossas de batizados. Então é melhor que você cumpra com amor e sem cara feia suas obrigações a achar-se no direito de usá-las para fazer trocas com o Senhor.

3 - Quaresma é tempo de fazer algo, e não apenas tirar!
Vejo pessoas dizendo que vão parar de fumar, de beber, comer carne, ir ao parque, tomar sorvetes... Tudo isso é muito bom, mas não é o bastante. Se fizer estas penitências, a oração tem que vir de brinde. Porém, a Quaresma pede mais, pois Quaresma é sair da zona de conforto. Logo, mais do que tirar um monte de coisas, acrescente. Para quem não gosta, comer tomates durante a Quaresma pode ser uma árdua penitência. Pode oferecê-la em reparação, por exemplo. Ou ainda fazer as obras de misericórdia: visitar os presos, assistir os doentes e as viúvas, dar de comer a quem fome e de beber a quem tem sede, dar esmolas... Acrescentar coisas que habitualmente não fazemos e que são importantes e necessárias para a nossa salvação também são essenciais para vivermos uma boa e santa Quaresma.

Lembretes:

1 - Hoje é Quarta-feira de Cinzas, dia que pede jejum e abstinência de carne. Portanto, nada de carne nas refeições.

2 - Se ainda não se confessou, faça hoje, a fim de receber dignamente as cinzas que será traçada em sua testa, lembrando-lhe o quanto és pó e só Deus pode auxiliá-lo em sua salvação.

3 - Leia, hoje, o Salmo 50. Medite-o sempre, inclusive antes de confessar. Se quiser, pode usá-lo durante a Quaresma toda como oração pessoal. Também pode rezar - e é muito precioso neste tempo - a Via-Sacra. Meditar a Paixão de Cristo diariamente é muito salutar para prosseguirmos no nosso caminho de salvação.

A Páscoa que tivermos será igualmente à Quaresma que vivermos. Como será a sua?



Rezemos a oração final da Liturgia das Horas:

"Concedei-nos, ó Deus todo-poderoso, iniciar com este dia de jejum o tempo da Quaresma, para que a penitência nos fortaleça no combate contra o espírito do mal. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo. Amém!"

23 de fev. de 2011

Preparação para a Quaresma



Caríssimos Irmãos e Irmãs,

Estamos a poucos dias da Quaresma, tempo precioso da nossa Liturgia. Quaresma não é só tempo de fazer uma penitência; Quaresma é tempo de conversão, de cambiar o caminho, de repensar a vida. Quaresma é tempo de fazer história na Igreja militante.

Quero viver esta Quaresma como se fosse a última de minha vida. Quero vivê-la como se ela fosse a última oportunidade que Deus me desse de ser nova criatura.

Diante disso, venho pedir aos irmãos que me ajudem. Peço que me deem dicas de livros, DVDs, CDs, sites, ou qualquer outro material sobre este tempo maravilhoso. Eu desejo, durante os 40 dias da Quaresma, trazer meditações diárias aqui no blog a fim de que as nossas almas sejam alimentadas, bem como para que nos sintamos fortes, pois um sempre ajuda o outro, e Deus socorre a todos, não é mesmo?

Espero, então, a dica de todos vocês.

Rezemos!

Em Cristo,

Evelyn.