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6 de fev. de 2012

A Igreja e o mundo atual: Perguntas “óbvias e esperadas” com respostas sábias e contundentes. IMPERDÍVEL!


Entrevista concedida ao jornalista Romero Vieira Belo, de “O Jornal” pelo Cônego Henrique, hoje Bispo Dom Henrique, da diocese de Aracaju, Sergipe.

***

Baseada em quê a Igreja condena o homossexualismo?

Primeiro, é necessário distinguir homossexualidade e homossexuais.

A Igreja, fundada na Escritura, sempre ensinou que o plano de Deus para a sexualidade humana é a complementaridade homem-mulher: “Homem e mulher ele os criou!” A relação homoerótica não é de acordo com o plano de Deus. No entanto, a Igreja também ensina que nenhum de nós é mais aquele ser humano que Deus pensara desde o início: somos todos meio desfigurados pelo pecado do mundo; todos temos tendências que nos desfiguram. Ora, na visão cristã, o homoerotismo é uma deturpação do projeto de Deus para a sexualidade. No entanto, as pessoas homossexuais não têm culpa de terem essa tendência e devem ser tratadas com respeito e caridade. No entanto, jamais a Igreja poderá dizer que a relação homossexual é um ideal ou que tanto faz uma relação homo ou heterossexual. Realmente, a Escritura fecha essa possibilidade! Dizer o contrário seria ser fiel à onda atual, mas infiel ao Cristo e ao seu Evangelho.

Ao pregar que o sexo é só para procriação, a Igreja não se distancia da realidade, já que a sociedade hoje vê a relação sexual até como diversão?

A Igreja não prega isso!

O ato sexual é, primeiramente, uma celebração do amor entre um homem e uma mulher que se amam e se deram na construção de uma vida, “na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, amando-se e respeitando-se todos os dias” dessa vida comum… A procriação é somente a segunda finalidade do ato sexual, mas não é essencial.

Um casal que já não possa ter filhos, pode e deve continuar tendo uma vida sexual ativa, e uma vida prazerosa, onde o amor é vivido como mistério de carinho, intimidade e sedução. Ao contrário do que muitos pensam, a Igreja não tem horror à sexualidade! Quem duvidar, compre um manual de moral católica e leia! O que a Igreja não pode é concordar com a banalização da sexualidade instaurada no mundo de hoje. Aliás, ninguém sério e que tenha um pouco de profundidade existencial pode concordar com isso que está aí…

Faz sentido, a essa altura, desestimular o uso da camisinha, expondo os jovens ao contágio da aids e outras DSTs?

A pergunta é simplista demais; é falaciosa.

Primeiro: o que a Igreja recrimina é um programa de educação sexual que se fundamenta simplesmente no “use camisinha”. Isso não é sério! No fundo, a mensagem termina sendo: “Chegou o Carnaval, chegou o Natal, chegou o São João, faça sexo! Tudo é permitido, desde que você use camisinha!” É o programa de banalização sexual do governo.

Ora, isso não é admissível! É preciso falar de sexo e dizer a essa juventude que sexo tem a ver com amor, com responsabilidade, com doação, com valores, com um projeto de vida! Nesse contexto é admissível falar de preservativo, pois nem todos são cristãos e nem todos são castos.

Em segundo lugar: para um cristão, o ideal continua sendo a castidade, isto é, a vida sexual somente no casamento. O sexo fora do casamento foi, é e continuará sendo pecado – esse é o ensinamento do Evangelho e nem a Igreja nem ninguém pode mudar isso! Um discípulo de Cristo que lhe queira ser fiel deve evitar relações fora do matrimônio, com ou sem camisinha.

Fora do casamento, usar camisinha ou não, não faz diferença nenhuma do ponto de vista da fé: é pecado do mesmo jeito. E aí, é melhor usar o famoso preservativo. Fora do casamento, ter relação com camisinha é pecado; ter sem camisinha é pecado e burrice…

A crise sacerdotal não poderia ser superada ou atenuada com o fim do celibato?

Primeiro, graças a Deus, o Brasil nunca teve tantos seminaristas como agora. Só no ano passado tivemos sete ordenações diaconais de uma só vez. Isso só ocorreu aqui em Maceió em 1941. Temos poucos padres porque no Brasil sempre foi assim. Agora é que estamos melhorando. Em segundo lugar, no Oriente, onde os padres católicos podem casar-se, há também crise de vocações. A questão não é de facilidades, mas fidelidade e amor a Jesus, que nos tornam capaz de dar a vida a ele e por ele!

Por que a Igreja defende tanto o celibato, se a Bíblia não contém nenhuma objeção ao casamento de padres?

Realmente, o celibato é apenas um conselho. No entanto, desde o princípio, a Igreja viu nele um valor, um sinal de que não temos aqui na terra morada permanente e também um sinal de entrega indivisa e total a Cristo e à sua missão. É bom recordar que o Cristo foi celibatário, São Paulo também o foi e o recomenda.

Já no Novo Testamento, os ministros ordenados podiam casar-se, mas, ficando viúvos, não poderiam se casar uma segunda vez: deviam ser esposos de uma só mulher. No entanto, a Igreja no Ocidente pode, um dia, mudar a obrigatoriedade do celibato. Como já disse, no Oriente, ele só é obrigatório para os Bispos…

A clonagem viola as leis da natureza, mesmo se o emprego da técnica ficar restrito a animais?

De modo algum. A clonagem de animais ou plantas, com fins científicos justificáveis, é perfeitamente aceitável. O que é imoral é a clonagem humana.

Em casos extremos, como os de crianças nascidas sem cérebro, deve-se recorrer à eutanásia?

Não. Não compete a nós decidir quem deve viver e morrer. Não somos Deus! Uma coisa é a morte como decorrência natural de uma condição deficiente de saúde e outra, bem diferente, é a morte provocada por antecipação em decorrência de convicções ideológicas. Para Hitler, os judeus deveriam morrer porque eram uma raça maligna, os deficientes mentais também. Agora, na Holanda, já se começa a assassinar recém-nascidos com doenças graves. É uma barbárie assassina! Ou a vida humana é sempre humana e deve ser preservada ou estamos abrindo as portas do inferno!

Imaginem quando se decidir matar crianças pobres porque não darão lucro ao sistema ou matar velhinhos porque dão prejuízo à previdência! É este o pecado original do homem: querer ser o seu Deus, querer decidir de modo contrário a Deus o que é bem e o que é mal… Sempre terminamos quebrando a cara!

Para a Igreja, quando começa a vida?

No momento da concepção.

A Igreja teria como definir a vida, do ponto de vista material?

Essa é uma discussão que envolve também cientistas e filósofos. Um erro grave da sociedade atual é achar que a ciência sabe tudo e pode tudo. Definir o que é a vida nunca será tarefa somente da ciência enquanto técnica, mas também da religião e da filosofia. No caso da vida humana, ela é aquela situação que nos constitui como um ser que possui um dinamismo vital autônomo e um patrimônio genético próprio. É uma definição bem precária, essa que estou dando, mas que serve bem para ilustrar por que não se pode brincar com a vida humana, mesmo no ventre materno: o embrião é já uma vida autônoma, não é um órgão da mãe; e já tem suas características genéticas próprias.

O uso de células-tronco pode salvar vidas, curar enfermos. Por que a Igreja é contra?

A pergunta não reflete a realidade. A Igreja é a favor da pesquisa com células-tronco e aplaude tais pesquisas. Ela é contra a pesquisa com células-tronco de embriões humanos, porque os mata. Os embriões já são seres humanos! Assassinar seres humanos é imoral, é crime sempre e em qualquer fase da existência.

Salvar vidas de uns matando outros é imoral! Eu posso dar minha vida por outra pessoa, mas ninguém pode me matar, tirar minha vida contra minha vontade, para salvar outro alguém! A experiência com células-tronco embrionárias é a vitória da razão assassina, da razão atéia, da razão imoral!

Como reagiria a comunidade católica se o papa fosse curado com o uso de células-tronco?

Com o uso de células-tronco adultas, ficaríamos muito contentes e agradecidos a Deus pelo bom uso que o homem faz de sua inteligência. Com o uso de células-tronco embrionárias, seria inaceitável. Não se pode querer ser feliz a qualquer preço! O fim não justifica os meios! O Papa é um homem de princípios, uma verdadeira testemunha do Evangelho da vida!

A Igreja mantém sua posição contrária ao aborto, mesmo em casos de estupro?

Sim. É muito fácil resolver o problema matando o mais fraco.

Sabemos que a experiência de estupro é traumática. Mas, isso não justifica moralmente matar a criança. A atitude correta seria ajudar a mãe a ter seu filhinho e, se ela não quer criá-lo, providenciar imediatamente uma adoção.

A Igreja parece se opor aos avanços da ciência. Deus impôs limites ao homem? Isso está escrito em algum trecho da Bíblia?

De modo algum a Igreja se opõe à ciência. Esta é uma percepção totalmente equivocada! O que a Igreja defende é que a pesquisa científica seja regida por critérios éticos. Aliás, vários cientistas atuais gritam por isso! Sugiro a leitura do site www.nep.org.br: é de cientistas preocupados com a ética na pesquisa científica.

Nem tudo que é tecnicamente possível é moralmente aceitável. Seria aceitável eticamente a bomba atômica? É aceitável escolher uma criança programando até os mínimos detalhes de seus caracteres físicos? É eticamente aceitável uma bomba que mate, mas não destrua nada de material? Quem impõe limites à tecnologia? Com quais critérios? A ciência e a tecnologia são neutras ou, ao invés, servem também a interesses econômicos e ideológicos? São questões seríssimas! A Escritura toda – não é só um trecho não! – insiste que o homem deve ser feliz, deve usar sua inteligência, mas sem cair na ilusão de ser senhor do bem e do mal, de ser Deus! O homem deve usar plenamente sua razão, mas uma razão que seja aberta ao Mistério de Deus

João Paulo II reconheceu que a Igreja errou ao perseguir cientistas como Galileu Galilei. Ao se contrapor à evolução científica atual, no futuro a Igreja não poderá ter que pedir perdão de novo?

A Igreja não se contrapõe à evolução científica; vê-la como algo essencialmente positivo. Ela simplesmente grita por critérios éticos para a ciência. É o que chamamos de filosofia das ciências ou epistemologia. A ONU, recentemente, fez a mesma coisa quando limitou a possibilidade de clonagem humana. Isso não é ser contra a ciência. A Igreja também não pretende impor a visão cristã de ciência; deseja somente uma discussão séria, que dê origem a uma ética civil sobre esses temas. No caso de Galileu a Igreja errou porque quis negar o resultado de uma pesquisa científica. Desde então, não fez mais isso. Repito: a questão agora não é técnico-científica; é moral! É uma falácia monumental misturar as duas coisas. É como perguntar qual é a cor de uma janela e alguém responder que a janela é grande!

Por que o comando da Igreja católica se mantém indiferente ao avanço das seitas evangélicas?

A Igreja não se mantém indiferente não. Apenas não ficamos paranóicos com isso. O problema é complexo. Estamos atravessando uma fase de transição cultural fortíssima: nada mais é certo, nada mais é duradouro, joga-se fora com a maior facilidade os valores dos antepassados, não se está preocupado com a verdade, mas em como conseguir se dar bem e se sentir bem imediatamente. É nesse contexto que se explica o crescimento das várias denominações vindas do protestantismo.

É interessante observar que os católicos realmente praticantes não deixam a sua fé. O problema é que o Brasil tem católicos “de nome” demais e católicos verdadeiros de menos… Isso também se deve a erros no processo de evangelização. Nunca foi uma boa coisa batizar massivamente, sem uma preparação acurada. Particularmente, eu prefiro poucos que se digam católicos, mas que o sejam de fato. Aí sim, seremos sal e luz, como Cristo espera de nós, membros da sua Igreja!

A família tradicional está se decompondo? Há como salvá-la?

Sim, está. A família hoje é um pequeno núcleo de um homem, uma mulher e duas ou três crianças, meio perdidos num mundo que o pressiona por todos os lados. É triste, porque não há esperança para a família – nem para nenhuma sociedade sadia – sem espírito de renúncia, sem ideais, sem a capacidade de ser feliz na felicidade dos outros. Os valores da sociedade moderna – que absolutiza o sucesso o bem-estar e o lucro -, privam os filhos da presença dos pais, sobretudo da mãe e deixam a educação por conta dos meios de comunicação e da escola, que já não educa, mas simplesmente transmite conhecimentos. Ou se muda o paradigma de sociedade e de valores, ou as conseqüências serão muito ruins.

Quem achar que estou sendo negativo, olhe um pouquinho em volta e veja o que está acontecendo com nossos jovens e crianças, que educação estão tendo, que valores estão assimilando… É assustador… A salvação da família está na redescoberta de alguns valores fundamentais, como a convivência, o diálogo, a sobriedade de vida, a solidariedade e, não por último, a prática religiosa, o lugar de Deus na nossa vida…

E o casamento? É instituição ultrapassada?

Para o mundo atual, sim. Para os cristãos, jamais! O problema é que a liberdade descompromissada e o “faça-você-mesmo” que tem substituído os valores cristãos, não realizam as pessoas. É uma falsa liberdade, porque motivada por um egocentrismo de dar pena. Não se encontrará a realização, a plena humanização por um caminho como esse… Os cristãos são convidados a testemunhar os valores do Evangelho também na vida familiar, matrimonial e sexual. Mas, isso só é possível quando a gente descobre o Cristo de verdade. Caso contrário, as exigências do Evangelho não passarão de moralismo castrador.

A liberação da mulher é um avanço ou um retrocesso social?

Um avanço. No entanto, se sob o manto dessa liberdade coloca-se a libertinagem sexual, o falta de tempo para estar com os filhos e a masculinização das mulheres, aí não há avanço, mas distorção. A Igreja defende que a mulher possa ganhar o mesmo que os homens tendo, no entanto, o direito de ter mais tempo com seus filhos. Sua presença junto a eles é indispensável. Muitas feministas dirão que isso é ideologia machista. Não é verdade! É apenas respeito pelas diferenças.

A igual dignidade do homem e da mulher exige tratamento diferenciado, exatamente porque os dois são diferentes – e tal diferença não é só produto cultural, mas é também biológica e psicológica, inclusive na educação dos filhos. O resto é pura ideologia, essa coisa insossa, chata e hipócrita chamada “politicamente correto”.

O catolicismo precisa mudar, se abrir, para acompanhar as transformações que marcam os tempos hodiernos?

O catolicismo não deve se preocupar em “acompanhar as transformações”, mas em ser fiel ao Evangelho.

Claro que a Igreja tem sempre o dever de ser atenta ao melhor modo de se comunicar com a humanidade em cada época e cultura. O Concílio Vaticano II, na década de 60, fez isso, preparando a Igreja para o mundo atual. Mas, isso não quer dizer que a Igreja deva ou possa trair a Verdade do Evangelho ou esconder as exigências morais que Cristo coloca para os seus discípulos. Como dizia a Bem-aventurada Teresa de Calcutá, “nós não somos chamados a fazer sucesso, mas a ser fiéis!” A Igreja, como um organismo vivificado pelo Espírito Santo, estará sempre mudando para ser fiel à sua missão. Mas, sua referência não são as modas do momento, mas unicamente o Cristo, e Cristo crucificado e ressuscitado!

Com tudo que a ciência ensina e pratica atualmente, faz sentido ensinar na missa que Deus fez o homem do barro?

Quem pensa que a Igreja ensina que os primeiros onze capítulos do Gênesis são para ser tomados ao pé da letra, está totalmente enganado. A Igreja não ensina isso e nenhum padre diz isso no sermão! Afirmar que Deus criou o homem do barro é dizer que, por nós mesmos, somos pó e ao pó voltaremos – todos nós.É uma pena que muitos vejam a Igreja como uma coisa totalmente boba, tão distante daquilo que ela realmente é! É interessante: desde os anos cinqüenta, com o Papa Pio XII, que a Igreja insiste que as narrativas do Gênesis não são uma reportagem histórica ou científica, mas uma narrativa simbólica, como as parábolas de Jesus. Já tive oportunidade de fazer palestra sobre isso para o Curso de Letras da UFAL.

Foi uma experiência interessante: abordar a questão dos gêneros literários na Escritura… A Igreja tem intelectuais profundos, filósofos muito sérios e teólogos brilhantes. Não somos um exército de tolos…Há muitos cientistas que são cristãos e há muitos padres e religiosos que se dedicam às ciências… Muitas vezes, as pessoas têm uma visão totalmente infantil do que a Igreja crê, ensina, vive e celebra… Aí não é a Igreja, mas uma triste e ridícula caricatura dela!

Será possível que o cristianismo, daqui a alguns milênios, venha a perder sua essência histórica e transformar-se em algo como uma lenda?

Isso aconteceria se, para agradar o mundo, a Igreja entrasse na onda. Mas, não ocorrerá. Cristo prometeu que, na força do seu Espírito Santo, estará sempre com sua Igreja. Ela já enfrentou as perseguições do Império Romano, a tragédia das invasões bárbaras, as lutas contra os tiranos do Sacro Império e dos monarcas absolutos, déspotas esclarecidos ou não. A Igreja já enfrentou o cativeiro dos papas em Avinhão durante quase setenta anos; sobreviveu à terrível experiência da dilaceração com a Reforma protestante, suportou dez péssimos papas consecutivos na época do Renascimento; já enfrentou a crítica do racionalismo, do iluminismo e do humanismo ateu do século XIX; sobreviveu à perseguição terrível dos regimes pagãos do século XX: o fascismo, o marxismo e o nazismo. Agora luta contra novos gigantes: a secularização, o consumismo, o ateísmo prático, a onda anti-cristã dos meios de comunicação de massa… E vencerá, mais uma vez. Ela perderá sempre mais poder político, poder de barganha, prestígio e até número de fiéis. Mas, isso, ela nunca deveria ter tido; a sua força não consiste nisso. Sua glória, sua força, seu arrimo é unicamente Cristo, loucura, escândalo e fraqueza para o mundo, sabedoria e poder de Deus para os que crêem… “As portas do inferno não prevalecerão” – a promessa do Senhor a Pedro continua de pé!


Fonte: http://www.comshalom.org/blog/carmadelio/

9 de dez. de 2011

O céu que o Salvador nos trará


Por Dom Henrique Soares.

Os primeiros grandes escritores cristãos insistiam em falar do Céu como visão de Deus. Para eles, a Vida eterna consiste, em ver a Deus; e esta visão dá ao homem a vida do próprio Deus, aquela Vida plena, total e feliz. É esta visão de Deus, comunhão com ele, que dará ao homem a imortalidade. Vejamos bem: o homem não é primeiramente imortal e depois vê a Deus; é o contrário: seremos imortais precisamente porque veremos a Deus! É esta visão de Deus que é fonte de imortalidade, de vida plena! Assim dizia Santo Irineu, no século II: “Todos aqueles que vêem a Luz estão na Luz. Quem vê a Deus percebe a sua Glória: o que dá a Vida é a Glória de Deus. Deus dá a Vida a quem o contempla e o vê”.

Outra idéia que aparece entre os primeiros escritores cristãos é a do louvor e do gáudio, da alegria. Santo Agostinho dizia, no século V: “A exultação da nossa Vida eterna será o louvor de Deus, para o qual ninguém estará preparado se não se exercitar desde agora”; “Lá veremos a Deus e louvaremos! Nem toda a alegria entrará em nós, mas nós entraremos totalmente na alegria!” O céu, portanto, será louvor e alegria, plenitude completa: estaremos completamente imersos na alegria! Por isso, Santo Hilário, no século V, afirmava: “Não haverá nada o que desejar porque não faltará nada!”

São Tomás de Aquino, o grande teólogo medieval, explicava que o homem, com suas forças, não poderia chegar a Deus, jamais poderia contemplá-lo. O homem não pode nem merece ver a Deus; somente pela graça de Cristo é que chega ao Pai. E ver a Deus é a realização plena do homem, é ser ele mesmo, é ser feliz! Lembre-se, meu Leitor, que “ver a Deus” significa estar na comunhão com ele, como quem vê a luz está dentro da luz, cercado, envolvido pela luz!

Mas, como poderemos ver a Deus, o Pai? Veremos a Deus porque estamos enxertados em Cristo ressuscitado, estamos unidos, inseridos no seu Corpo ressuscitado por obra do Espírito Santo. Não dá nem para imaginar como será isso, mas que será, será! Então, pelo Cristo, plenos do Espírito, veremos a Deus Pai! Vejamos o que dizem alguns dos antigos escritores cristãos: “Deus será visto no reino dos céus... E o Filho conduzirá ao Pai” (Santo Irineu); “Na pátria celeste estão todos os justos e santos, que desfrutam do Verbo de Deus” (Santo Agostinho). Que beleza a afirmação de Agostinho! Nossa felicidade é desfrutar do Verbo, do Filho de Deus: estar com ele é o paraíso, como ele disse ao ladrão. Também S. João Damasceno explicava que o resplendor da glória é estar com Cristo: “Os que fizeram o bem, resplandecerão como o sol... com Nosso Senhor Jesus Cristo”.

Finalmente, São Cipriano, o santo Bispo de Cartago, no século III, afirmava: “Quem não deseja ser transformado e transfigurado o quanto antes à imagem de Cristo? Cristo, o Senhor... roga por nós para que estejamos com ele e com ele possamos nos alegrar na morada eterna e no reino celeste. Quem quiser chegar ao trono de Cristo... tem que manifestar alegria somente na promessa do Senhor”.

Vale a pena, ainda, refletir sobre um importante documento da Igreja a respeito da Vida Eterna. Trata-se da ConstituiçãoBenedictus Deus, do Papa Bento XII, do século XIV. Aí a Igreja ensina, pela boca do Sucessor de Pedro, que veremos a Deus e isto é o céu. Mais ainda: esta visão, esta comunhão com Deus vai nos dar um gozo sem limites, um gozo que é descanso eterno para o nosso coração, para sempre. O Papa insiste ainda, baseado nas Escrituras e na fé constante da Igreja, que esta Vida eterna começa logo após a morte, uma vez purificados os nossos pecados: estaremos para sempre com Cristo. No Último Dia, quando Cristo se manifestar, nossos corpos também ressuscitarão!

Uma última questão: se o céu é estar com Cristo, então ele não é um lugar?! Recorde: não podemos simplesmente descrever o Além. No entanto, uma coisa é certa. Como já vimos, tudo quanto existe foi criado por Deus, um Deus que não destruirá a sua criação, mas vai levá-la à plenitude. Já falamos, quando tratamos da Vinda de Cristo, sobre o novo céu e nova terra! Ora, toda a criação - e também nossos corpos - será o “lugar” feliz, bem-aventurado, jubiloso no qual viveremos a comunhão com Deus. Assim, se o Céu é uma relação com Deus em Cristo, esta relação, no entanto, não é algo individualista: envolve os outros e toda a criação, renovada e plenificada. Em outras palavras o nosso céu, a nossa comunhão com Deu, terá “algo” de lugar também. Só não é “lugar” no sentido que conhecemos aqui. E como será, então? Não sabemos!

Fonte: http://costa_hs.blog.uol.com.br/

1 de dez. de 2011

Haverá um Dia do Senhor: passará a figura deste mundo.


No Credo nós professamos, conforme a Escritura, que o Senhor Jesus ressuscitado “está sentado à Direita de Deus Pai, donde há de vir em sua Glória para julgar os vivos e os mortos. E o seu Reino não terá fim”.

Esta Vinda gloriosa de Cristo no final dos tempos é chamada de Parusia do Senhor. A palavra grega “parusia” (= presença, vinda, chegada) era usada para significar a chegada solene do rei em uma determinada cidade. Quando ele chegava, provocava um ambiente de alegria e distribuía ao povo benefícios e alimentos em fartura. Os cristãos, ao pensarem na vinda do Cristo como Rei eterno, que virá trazendo a alegria da salvação final, deram a este último acontecimento da história humana o nome de Parusia do Senhor.

A idéia de que haveria um Dia do Senhor já existia desde o Antigo Testamento. O povo de Israel sempre teve consciência de que o seu Deus era o Senhor dos tempos, Deus que age na história humana, levando o seu povo para um futuro sempre melhor e cheio de esperança. Se observarmos bem os textos do Antigo Testamento aparece claro que Deus sempre está prometendo Israel um futuro de bênção e felicidade: ele é o Deus da Promessa, o Deus que nunca fica parado no presente, o Deus que sempre faz o povo caminhar ao encontro do futuro que ele preparou, futuro sempre melhor, futuro de vida. Neste sentido, as Escrituras Sagradas motivam sempre a esperança, sustentam a confiança do povo de Deus, mesmo nos momentos mais sofridos e tenebrosos de sua acidentada história. Israel viva desta certeza: o Senhor Deus não nos abandonará, ele nos prepara um futuro de salvação, ainda que no presente nos puna e corrija para nossa salvação. É por isso mesmo que aparece tanto nos profetas aquelas expressões: “eis que virá um tempo”, “eis que virão dias”, “naqueles dias”, “acontecerá no fim dos dias”...

Assim, enquanto para os pagãos o tempo nunca mudava e tudo que já tinha acontecido ia continuar sempre acontecendo e o mundo não tinha jeito mesmo, para o povo de Deus a história do mundo e a história de Israel tiveram um começo (“No princípio...” – Gn 1,1) e caminham para um destino, uma finalidade, uma plenitude, que o próprio Deus prometeu e preparou! Bastava que o povo não se fechasse para Deus, que aceitasse caminhar com o Senhor. Isto é muito importante, pois fica claro que não existe destino cego, fechado, à revelia da nossa liberdade: o homem é chamado a construir seu destino dizendo sim a Deus e caminhando para o futuro que ele lhe preparou. Cada pessoa é livre: pode dizer sim ou não ao convite de Deus!

Assim Israel foi tendo cada vez mais certeza de que Deus age na história, conduzindo todos os acontecimentos, não só os do povo santo, mas os de todos os povos da terra. Basta ver nos vários profetas os oráculos sobre as nações: Deus tem tudo nas suas mãos: o destino das pessoas e dos povos! O povo da Bíblia sabia que poderia se confiar nas mãos do Senhor e esperar num futuro no qual Deus iria agir de modo pleno, com uma intervenção fulgurante, mudando toda tristeza do seu povo em alegria, toda opressão em liberdade, todo pranto em sorriso, toda morte em vida.

Todo sofrimento do povo de Israel, todas as suas humilhações teriam fim e Deus iria consolar para sempre o seu povo, numa nova situação, em que não haveria mais dor, opressão, pecado nem morte. Este futuro é conhecido, no Antigo Testamento, com o nome de Dia do Senhor.

Será um Dia de Julgamento e de derrota para todo o pecado do mundo, para todo o mal praticado na história humana e um Dia de salvação e vitória para todos os amigos de Deus, particularmente para o povo de Israel. Por exemplo: “Os olhos orgulhosos do homem serão humilhados, e será abatida a arrogância humana; naquele Dia só o Senhor será exaltado. Porque é o Dia do Senhor Todo-poderoso contra tudo que é orgulhoso e arrogante, contra tudo que se exalta e que será humilhado (...); só o Senhor será exaltado naquele dia. Os ídolos desaparecerão completamente...” (Is 2,11s.18s). É importante observar que quando o Antigo Testamento fala desse Dia do Senhor usa comparações, imagens, figuras, metáforas, para ensinar que será um Dia solene e decisivo, Dia da verdade, Dia de julgamento, Dia que envolverá não somente a humanidade, mas toda a criação: “Tocai a trombeta em Sião, dai alarme em minha montanha santa! Tremam todos os habitantes do país, porque está chegando o Dia do Senhor! Sim, está próximo! É um Dia de trevas e escuridão, um Dia de nuvens e obscuridade”! (Jl 2,1s); “Colocarei sinais no céu e na terra, sangue, fogo e colunas de fumaça! O sol se transformará em trevas, a lua em sangue, antes que chegue o Dia do Senhor, grande e terrível”! (Jl 3,3s); “Eis que vem o Dia, que queima como um forno. Todos os arrogantes e os que praticam o mal serão como palha; o Dia que vem os queimará de modo que não lhes restará raiz nem ramo. Mas para vós que temeis o meu nome, brilhará o sol de justiça, que traz a cura em seus raios” (Ml 3,19s). Nestes textos, a imagem da trombeta significa solenidade, julgamento (pois os julgamentos e as entradas dos personagens solenes eram sempre anunciadas com o toque da trombeta), os sinais no céu e na terra são imagens para mostrar que esse Dia do Senhor terá importância para toda criação e o fogo recorda que o Senhor purificará sua criação de todo pecado e maldade. Trata-se de um tipo de linguagem chamado de linguagem apocalíptica, que descreve as coisas de modo bem estonteante, vivo, exagerado, em que o importante não são os detalhes, mas a idéia que as imagens querem transmitir!

Mais uma coisa: aos poucos, os profetas foram anunciando que este Dia do Senhor estaria ligado à chegada de um Personagem misterioso, chamado de Messias (= o Ungido de Deus) e, às vezes, de Filho do Homem: “Continuei a prestar atenção às visões noturnas, eis senão quando, com as nuvens do céu, vinha vindo um como filho de homem; ele avançou até junto do Ancião e foi conduzido à sua presença. Foram-lhe dados domínio, glória e realeza, e todos os povos, nações e línguas o serviam. Seu domínio é eterno e não acabará, seu reino jamais será destruído” (Dn 7,13-14). Esse Filho do Homem viria de junto de Deus (representado aqui pela imagem do Ancião, recordando a sua eternidade). Quando a profecia diz que ele vem sobre as nuvens, quer dizer que ele vem do mundo divino, que é alguém mais que um simples ser humano. Ele vem para estabelecer um reino eterno, reino de Deus, o Dia do Senhor! Assim, na esperança do povo de Deus, o Senhor mandaria Alguém, chamado de Messias ou Filho do Homem, um personagem misterioso, que traria consigo o Dia do Senhor.

Então, resumindo: (1) o povo de Deus sempre soube que sua história e a história de toda a humanidade estavam nas mãos de seu Deus; (2) este Deus preparava para o seu povo um futuro de salvação, alegria, plenitude e paz, chamado Dia do Senhor, (3) este Dia será de julgamento para os maus e os opressores do povo eleito, um Dia eterno, de uma situação completamente nova, (4) este Dia será trazido pelo Filho do Homem, pelo Messias.


Fonte: http://costa_hs.blog.uol.com.br/

14 de nov. de 2011

Dom Henrique Soares: Pensamentos do caminho


O final do ano se aproxima: do ano litúrgico e do ano civil.

Mais uma vez, a Liturgia nos desafia: recorda-nos que a vida passa, que nossa existência é breve e preciosa demais para ser vivida de modo leviano, em vão.

É preciso viver com seriedade, é necessário fazer de nossa corrida neste mundo uma semente de eternidade!

Pense bem, meu, Leitor, porque eu mesmo não consigo deixar de pensar nisso: onde ancorar a vida, onde sustentá-la, para que não se esfarele, não cais no nada, na insignificância?

O que realmente importa na minha existência? O que a faz ter um sentido, ter um valor, não ser uma ilusão tola e fugaz?

Seria o que eu construo? Mas, isto se acaba...

E o que eu amo, as pessoas com as quais vou construindo a existência? Ah, elas são, certamente, um dom, uma graça! Mas, também elas se vão, passam; e, além do mais, elas são elas e eu sou eu: eu não posso entrar no coração delas, como elas tampouco podem penetrar no meu íntimo. E continuo só, continuo procurando, continuo a procura de onde ancorar o barco da minha vida nesse mar de fugacidade e ilusão que é a existência...

Em Cristo! Sim, naquele que é o Princípio e o Fim; naquele através de quem e para quem eu existo; naquele que é o pão da minha vida, o poço que faz jorrar a água bendita que sacia todas as minhas sedes; aquele que me garante ser minha ressurreição e minha vida; que me provou amar-me tanto a ponto de dar a vida por mim.

Nele a existência ganha sentido, o caminho aponta para um destino, os dias da vida têm gosto de eternidade. Assim, que para mim, viver tem sentido somente se é viver em Jesus e para Jesus, Deus que nos veio visitar.

Não sei de outro Sentido, de outra Causa, de outra Razão para existir e viver com toda seriedade, serenidade e responsabilidade que o ser gente nos impõe! Sinto isso, como um instinto irrefreável: a vida é solene demais, importante demais, sagrada demais para ser gasta com banalidades. Vivo e sei que vivo; vivo, gosto de viver e sei que caminho para a morte! Não posso brincar com isso: não perderei tempo, não desperdiçarei talentos, não pararei em tolices... Como dizia o grande São João da Cruz:

Buscando meus amores

Irei por esses montes e ribeiras;

Não colherei as flores,

Não temerei as feras

E passarei os fortes e as fronteiras...

Isso! Não me interessa colher flores: quero o jardim todo de uma existência plena! Não devo temer feras ou deter-me ante fronteiras: é o Infinito o meu destino, é o Eterno a minha pátria, é Aquele a quem Jesus chamava de Pai o meu Descanso e a minha Festa perene!

Menos que isso não quero; menos que isso não me satisfaz! Amor muito a vida para contentar-me com pouco! Porque quero o céu tenho que ser responsável na terra; porque não me contento com menos que a glória, tenho que levar muito a sério este tempo chamado história!

Que Deus me ajude – e a você, Leitor amigo – para que chegue ao Destino, para que não esqueça o Fim, para que não perca de vista o Porquê e o Para quê de tudo e da vida!


Fonte: http://costa_hs.blog.uol.com.br/

8 de nov. de 2011

Dom Henrique comenta fechamento da embaixada da Irlanda junto a Santa Sé.


Com a desculpa de contenção de despesas, a Irlanda, antes tão católica, fechou sua embaixada junto à Santa Sé. Há outros países pensando no mesmo.

Devemos nos acostumar: cada vez mais o mundo reconhecerá menos a importância da religião e o papel da Igreja. Do papel da Igreja na história, o mundo faz questão de recordar aquilo que foi negativo e faz questão de esquecer o tanto, tão muito de positivo e meritório!

Não nos assustemos: é o Senhor, pouco a pouco, conduzindo a Igreja pelos seus caminhos, que não são os nossos.

O que nos espera? Incompreensões, marginalizações, perseguições veladas, redução à insignificância. Pessimismo meu? Nada disso! Sereno e firme realismo!

É o Senhor nos conduzindo ao essencial: crer nele, viver nele, esperar nele, testemunhá-lo, com simplicidade e serena firmeza! É nossa herança, nossa vocação, nossa alegria, nossa salvação!


Fonte: http://costa_hs.blog.uol.com.br/

20 de out. de 2011

A Igreja de Cristo subsiste só na Igreja católica


Caro Internauta, recordo-lhe este texto, já aparecido anteriormente neste Blog. Recordar é viver... A Congregação para a Doutrina da Fé, por ordem de Bento XVI, tornou público um pequeno e precioso documento contendo respostas a algumas questões sobre a Igreja. Não há aí nada de novo. Pelo contrário: deseja-se somente reafirmar a doutrina do Concílio Vaticano II que muitos, em nome do Concílio, insistem em deturpar e até mesmo negar. Vou comentar cada parágrafo porque é muito importante que nós, católicos compreendamos bem a reta doutrina da Igreja!

Primeira questão: Terá o Concílio Ecumênico Vaticano II modificado a precedente doutrina sobre a Igreja?

Resposta: O Concílio Ecumênico Vaticano II não quis modificar essa doutrina nem se deve afirmar que a tenha mudado; apenas quis desenvolvê-la, aprofundá-la e expô-la com maior fecundidade. Foi quanto João XXIII claramente afirmou no início do Concílio. Paulo VI repetiu-o e assim se exprimiu no ato de promulgação da Constituição Lumen Gentium: "Não pode haver melhor comentário para esta promulgação do que afirmar que, com ela, a doutrina transmitida não se modifica minimamente. O que Cristo quer, também nós o queremos. O que era, manteve-se. O que a Igreja ensinou durante séculos, também nós o ensinamos. Só que o que antes era perceptível apenas em nível de vida, agora também se exprime claramente em nível de doutrina; o que até agora era objeto de reflexão, de debate e, em parte, até de controvérsia, agora tem uma formulação doutrinal segura". Também os Bispos repetidamente manifestaram e seguiram essa mesma intenção.

Observação minha: Aqui, se procura explicar que a doutrina católica não foi modificada pelo Vaticano II. Uma coisa é o progresso, o desenvolvimento orgânico da doutrina – que sempre houve e haverá na história da Igreja; outra, bem diferente é a adulteração, a modificação! A Congregação para a Doutrina da Fé procura, portanto, deixa claro que a eclesiologia do Vaticano II deve ser interpretada à luz da perene Tradição da Igreja. Como Bento XVI tanto insiste, o Vaticano II não foi uma ruptura nem uma revolução, mas um progresso na vida e na fé da Igreja de Cristo.

Segunda questão: Como deve entender-se a afirmação de que a Igreja de Cristo subsiste na Igreja católica?

Resposta: Cristo "constituiu sobre a terra" uma única Igreja e instituiu-a como "grupo visível e comunidade espiritual", que desde a sua origem e no curso da história sempre existe e existirá, e na qual só permaneceram e permanecerão todos os elementos por Ele instituídos. "Esta é a única Igreja de Cristo, que no Símbolo professamos como sendo una, santa, católica e apostólica […]. Esta Igreja, como sociedade constituída e organizada neste mundo, subsiste na Igreja Católica, governada pelo Sucessor de Pedro e pelos Bispos em comunhão com ele".

Na Constituição dogmática Lumen Gentium 8, subsistência é esta perene continuidade histórica e a permanência de todos os elementos instituídos por Cristo na Igreja católica, na qual concretamente se encontra a Igreja de Cristo sobre esta terra.

Enquanto, segundo a doutrina católica, é correto afirmar que, nas Igrejas e nas comunidades eclesiais ainda não em plena comunhão com a Igreja católica, a Igreja de Cristo é presente e operante através dos elementos de santificação e de verdade nelas existentes, já a palavra "subsiste" só pode ser atribuída exclusivamente à única Igreja católica, uma vez que precisamente se refere à nota da unidade professada nos símbolos da fé (Creio… na Igreja "una"), subsistindo esta Igreja "una" na Igreja católica.

Observação minha: Muito bem articulada, muito equilibrada esta resposta! Vejamos: (1) Explica que a Igreja de Cristo subsiste única e exclusivamente na Igreja católica (aquela que está em comunhão com o Sucessor de Pedro e os Bispos em comunhão com ele); (2) Esclarece o que significa “subsistir”: é a perene continuidade histórica e a permanência de todos os elementos instituídos por Cristo para a sua Igreja. O Decreto Unitatis Redintegratio, do Vaticano II, diz quais são esses elementos. Eis alguns: a profissão de fé em Jesus como Senhor e Salvador, a fé na Trindade, a Palavra de Deus ouvida e proclamada segundo a Tradição apostólica, os sacramentos, de modo particular o Batismos e a Eucaristia, a sucessão apostólica dos Bispos, o ministério petrino, a veneração da Virgem Maria e dos Santos de Cristo, a vida da graça, a caridade fraterna, os dons e carismas do Espírito Santo, o martírio, o zelo missionário, a esperança na vida eterna... Todos estes elementos fazem parte da Igreja de Cristo e nela não podem faltar. Ora, somente na Igreja católica eles se encontram na sua totalidade. (3) Esta resposta faz eco também à Declaração Dominus Iesus, que ensina não ser possível falar em vários graus de subsistência: a subsistência é uma só e plena. Em outras palavras: A Igreja de Cristo subsiste, permanece, continua de modo completo somente na Igreja católica!

Terceira questão: Por que se usa a expressão "subsiste na", e não simplesmente a forma verbal "é"?

Resposta: O uso desta expressão, que indica a plena identidade da Igreja de Cristo com a Igreja católica, não altera a doutrina sobre Igreja; encontra, todavia, a sua razão de verdade no fato de exprimir mais claramente como, fora do seu corpo, se encontram "diversos elementos de santificação e de verdade", "que, sendo dons próprios da Igreja de Cristo, impelem para a unidade católica".

"Por isso, as próprias Igrejas e Comunidades separadas, embora pensemos que têm faltas, não se pode dizer que não tenham peso ou sejam vazias de significado no mistério da salvação, já que o Espírito se não recusa a servir-se delas como de instrumentos de salvação, cujo valor deriva da mesma plenitude da graça e da verdade que foi confiada à Igreja católica".

Observação minha: Note-se o compromisso com a verdade e, ao mesmo tempo, a delicadeza ecumênica desta resposta. Primeiro, o texto explica que tanto faria dizer: “A Igreja de Cristo subsiste na Igreja católica” quanto “A Igreja de Cristo é a Igreja católica”. Ora, é tal doutrina – colocada na sombra ou até negada hoje por alguns dentro da própria Igreja – que deve estar claríssima na mente e no coração dos fiéis. Cristo fundou uma só Igreja e tal Igreja é a Igreja católica. A questão é que afirmar simplesmente “é” torna mais difícil compreender como fora da unidade visível da Igreja católica possam existir elementos eclesiais. O “subsiste na” é mais compatível com a doutrina, igualmente antiga e tradicional, segundo a qual fora da unidade da Igreja católica há elementos de salvação. Em segundo lugar, o texto deixa claro que o Espírito Santo utiliza também as comunidades não católicas na obra da salvação. Tudo quanto essas comunidades possuam de realmente eclesial deriva da plenitude católica e a ela conduzem! Sendo assim, evita-se o tudo ou nada: nossos irmãos separados, ainda que não estejam na plena comunhão com a Igreja de Cristo, graças a Deus conservam tantos elementos dessa Igreja católica!

Quarta questão: Por que é que o Concílio Ecumênico Vaticano II dá o nome de "Igrejas" às Igrejas orientais separadas da plena comunhão com a Igreja católica?

Resposta: O Concílio quis aceitar o uso tradicional do nome. "Como estas Igrejas, embora separadas, têm verdadeiros sacramentos e sobretudo, em virtude da sucessão apostólica, o Sacerdócio e a Eucaristia, por meio dos quais continuam ainda unidas a nós por estreitíssimos vínculos", merecem o título de "Igrejas particulares ou locais", e são chamadas Igrejas irmãs das Igrejas particulares católicas.

"Por isso, pela celebração da Eucaristia do Senhor em cada uma destas Igrejas, a Igreja de Deus é edificada e cresce". Como, porém, a comunhão com a Igreja católica, cuja Cabeça visível é o Bispo de Roma e Sucessor de Pedro, não é um complemento extrínseco qualquer da Igreja particular, mas um dos seus princípios constitutivos internos, a condição de Igreja particular, de que gozam essas venerandas Comunidades cristãs, é de certo modo lacunosa.

Por outro lado, a plenitude da catolicidade própria da Igreja, governada pelo Sucessor de Pedro e pelos Bispos em comunhão com ele, encontra na divisão dos cristãos um obstáculo à sua realização plena na história.

Observação minha: Segundo a antiga tradição da Igreja, existe realmente uma Igreja (no sentido de Diocese) onde há um Bispo ordenado dentro da legítima sucessão apostólica e onde se celebra a Eucaristia plena (como sacrifício pascal de Cristo e sua presença real no pão e no vinho consagrados). Ora, nas comunidades cristãs que se separaram de Roma em 1054 esses elementos são plenamente presentes. As dioceses que se separaram e se chamam Igrejas ortodoxas, têm Bispos legítimos, ordenados na sucessão apostólica e em tudo guardaram a fé e os sacramentos. Falta-lhes somente a plena comunhão com o Sucessor de Pedro. Sendo assim se lhes pode dar o título de “Igrejas”, ainda que tenham a grave ferida da não-comunhão plena com o Sucessor de Pedro.

Quinta questão: Por que razão os textos do Concílio e do subseqüente Magistério não atribuem o título de "Igreja" às comunidades cristãs nascidas da Reforma do século XVI?

Resposta: Porque, segundo a doutrina católica, tais comunidades não têm a sucessão apostólica no sacramento da Ordem e, por isso, estão privadas de um elemento essencial constitutivo da Igreja. Ditas comunidades eclesiais que, sobretudo pela falta do sacerdócio sacramental, não conservam a genuína e íntegra substância do Mistério eucarístico, não podem, segundo a doutrina católica, ser chamadas "Igrejas" em sentido próprio.

Observação minha: Começo repetindo o que já afirmei acima: Os católicos denominam “igrejas” em sentido teológico somente aquelas comunidades que conservaram a plena sucessão apostólica dos Bispos e a Eucaristia plena. É o caso das Igrejas particulares (dioceses) ortodoxas e vétero-católicas. Teologicamente, não existe uma Igreja ortodoxa, mas Igrejas (dioceses) ortodoxas, que não estão em comunhão plena com o Bispo de Roma e, assim, não estão na plena unidade da Igreja de Cristo. Têm elas uma ferida grave: falta-lhes o ministério petrino, que Cristo quis na sua Igreja. Quanto às comunidades protestantes, os católicos as denominam “comunidades eclesiais”, pois faltam-lhes a sucessão apostólica dos Bispos recebida no sacramento da Ordem e a Eucaristia plena. Ora, sem o ministério ordenado na sua plenitude e sem a Eucaristia não há Igreja; há comunidades que possuem elementos da Igreja de Cristo! Nossos irmãos protestantes conservaram vários elementos da Igreja de Cristo: a fé em Jesus como único Senhor e Salvador, a proclamação da Trindade Santa, o amor à Palavra de Deus escrita, o Batismo em nome da Trindade, o apelo missionário, a esperança na vida eterna, vários dons e carismas, etc. Por tudo isto devemos dar graças a Deus e por tudo isto eles são nossos irmãos.

Finalmente, é digno de nota que o texto esclarece que também a Igreja católica se ressente das divisões entre os cristãos, pois que são um obstáculo à sua plena realização na história. O ecumenismo, busca da unidade visível de todos os cristãos, é, pois, uma necessidade também para o bem dos católicos.

Como se pode ver, a beleza deste Documento é a capacidade de dizer a verdade sem meias medidas e, ao mesmo tempo, o modo caridoso e humilde de dizê-lo, reconhecendo o bem e os valores presentes nas comunidades não-católicas. É um belo modelo de prática ecumênica: a verdade dita na caridade e a caridade vivida na verdade!


Fonte: http://costa_hs.blog.uol.com.br/

2 de ago. de 2011

Por Dom Henrique Soares: “Sai e fica na montanha diante do Senhor!”



Caro Internauta, leia este texto de 1Rs 19,1-15a); depois farei algumas considerações sobre o mesmo:

Acab contou a Jezabel tudo que Elias tinha feito e como tinha passado ao fio da espada todos os profetas de Baal. Então Jezabel mandou um mensageiro a Elias para lhe dizer: “Os deuses me cumulem de castigos, se amanhã, a esta hora, eu não tiver feito contigo o mesmo que fizeste com a vida desses profetas”. Elias ficou com medo e, para salvar sua vida, partiu. Chegou a Bersabéia de Judá e ali deixou o seu servo. Depois, adentrou o deserto e caminhou o dia todo. Sentou-se, finalmente, debaixo de um junípero e pediu para si a morte, dizendo: “Agora basta, Senhor! Tira a minha vida, pois não sou melhor que meus pais”. E, deitando-se no chão, adormeceu à sombra do junípero. De repente, um anjo tocou-o e disse: “Levanta-te e come!” Ele abriu os olhos e viu junto à sua cabeça um pão assado na pedra e um jarro de água. Comeu, bebeu e tornou a dormir. Mas o anjo do SENHOR veio pela segunda vez, tocou-o e disse: “Levanta-te e come! Ainda tens um caminho longo a percorrer”. Elias levantou-se, comeu e bebeu, e, com a força desse alimento, andou quarenta dias e quarenta noites, até chegar ao Horeb, o monte de Deus. Chegando ali, entrou na gruta, onde passou a noite. Então a palavra do SENHOR veio a ele, dizendo: “Que fazes aqui, Elias?” Ele respondeu: “Estou ardendo de zelo pelo SENHOR, Deus dos exércitos, porque os israelitas abandonaram tua aliança, demoliram teus altares, mataram à espada teus profetas. Só eu escapei; mas agora querem matar-me também”. O SENHOR disse-lhe: “Sai e permanece sobre o monte diante do SENHOR”. Então o SENHOR passou. Antes do SENHOR, porém, veio um vento impetuoso e forte, que desfazia as montanhas e quebrava os rochedos, mas o SENHOR não estava no vento. Depois do vento houve um terremoto, mas o SENHOR não estava no terremoto. Passado o terremoto, veio um fogo, mas o SENHOR não estava no fogo. E depois do fogo ouviu-se o murmúrio de uma leve brisa. Ouvindo isto, Elias cobriu o rosto com o manto, saiu e pôs-se à entrada da gruta. Ouviu, então, uma voz que dizia: “Que fazes aqui, Elias?” Ele respondeu: “Estou ardendo de zelo pelo SENHOR, Deus dos exércitos, porque os israelitas abandonaram tua aliança, demoliram teus altares e mataram à espada teus profetas. Só eu escapei. Mas, agora, querem matar-me também”. O SENHOR disse-lhe: “Vai e volta por teu caminho...”

Encontramos aqui Elias no turbilhão da sua missão, num momento de crise: sua vida está em perigo; ele tem medo (v. 3) e quer salvar a vida (v.3). Foge, então, sem rumo, e entra, sozinho no deserto de Judá, rumo ao Naguev (v.4). Desiludido, desorientado, com a sensação de derrota e impotência, senta-se e pede a morte! O que ele pode contra um tremendo poder hostil a Deus? O que pode contra um povo todo na apostasia, fascinado pelo relativismo, sem saber mais se é melhor servir ao Senhor ou a Baal; não sabe nem mais direito distinguir o Senhor de Baal (cf. 1Rs 18,20-21)? Que fazer com um povo minado, dilacerado por um tipo de religiosidade pagã, cômoda, sem compromisso moral nem incidência real na vida? O profeta encontra-se num profundo sentimento de solidão e desamparo... “Agora basta, Senhor! Retira-me a vida, pois não sou melhor que meus pais!”

Elias já não consegue vê o caminho de Deus, o traçado da sua providência, o rastro do seu modo de agir... Encontra-se em treva, desconcertado, vencido... O cansaço venceu Elias. Agora ele é um homem desencantado... Seu desejo é sumir, esquecer, desligar-se de tudo, desinteressar-se de tudo e não crer mais em nada: o ideal seria dormir e nunca mais acordar...

Mas, o Senhor Deus não o permite! Acorda-o, alimenta-o com seu alimento, revigora-o com sua água, sinal da graça que sustenta, restaura e reanima... Elias ainda teima em deitar-se, em fugir de tudo – até de si mesmo -, deixando tudo pra lá... Deus insiste, não larga aquele a quem escolheu, a quem chamou e marcou com a sua consagração... O Senhor traçou um caminho, uma sina para o seu servo, e ele deve percorrê-la fielmente: “Levanta-te e come, pois do contrário o caminho te será longo demais”. Foi assim com Elias; é assim com cada um de nós...

Elias alimenta-se abundantemente da graça do Senhor. Agora tem um rumo, tem força, sabe aonde vai: ao Horeb, às fontes, onde tudo começou, onde o Senhor se revelou, entregou a Lei a Israel e com ele fez aliança de amor. É preciso sempre voltar às fontes, reencontrar o primeiro amor, buscar a primeira inspiração (cf. Jr 2,1s; Os 2,16-22). Assim, ele caminha quarenta dias e quarenta noites e chega ao Horeb para encontrar a Deus face a face... O Deus com quem ele lidara na lida pesada da missão profética, agora o encontrará face a face, no cimo do Sinai!

No Horeb, Elias entra na gruta, na fenda da rocha que o Senhor tinha indicado a Moisés e na qual o Santo de Israel o tinha escondido: “Eis aqui um lugar junto de mim; põe-te sobre a rocha. Quando passar a minha glória, colocar-te-ei na fenda da rocha e cobrir-te-ei com a palma da mão até que eu tenha passado...” (Ex 33,22).

Para um cristão, a rocha na qual o Senhor nos coloca para que vejamos a sua glória – glória que refulge na face de Cristo (cf. Jo 1,14; 2Cor 3,14 – 4,6) – é o próprio Cristo Jesus (cf. 1Cor 10,4), cuja fenda que no esconde é o seu lado aberto, seu bendito e santo Coração, trespassado pela lança (cf. Jo 19,34). Elias entra na gruta e ali fica na noite, ali encontra aconchego, repouso, proteção... Lá também eu e você, meu caro Leitor, devemos aprender a encontrar refúgio nas noites da vida, nos momentos tão difíceis que a existência nos prepara... Esconder-se na fenda do Rochedo, abrigar-se no Coração de Jesus! Se o mundo soubesse; se o mundo experimentasse.

O Senhor Deus faz Elias entrar em si para encontrá-lo de verdade: “Que fazes aqui Elias? Que procuras? Que desejas?” (v. 9). Quantas vezes nem sabemos bem o que desejamos, nem conseguimos exprimir bem o que sentimos... Elias revela todo o seu amor pelo Senhor, expõe sua queixa e a sua visão da trágica situação na qual se encontra: “Eu me consumo de ardente zelo pelo Senhor dos Exércitos, porque os israelitas abandonaram a tua aliança, derrubaram teus altares e mataram teus profetas à espada. Fiquei somente eu e procuram tirar-me a vida!” Como Elias vê, como Elias sente, como avalia, a situação é desesperadora; o lugar do Senhor Deus no coração de Israel está em estágio terminal...

Observe-se que Deus nada diz sobre aquilo que Elias lhe conta da triste situação... Nada comenta... Apenas ordena: “Sai e fica na montanha diante do Senhor!” E então o passa... Deixa-se perceber, vislumbrar por Elias, para que Elias veja como ele vê, veja tudo à sua luz, na sua perspectiva, do ponto de vista da sua beleza (v. 11). Compreendeu, caro Internauta? Na Rocha que é Cristo, apoiado nele, poderemos contemplar realmente o Senhor!

E o Santo parece vir na força do furacão, na potência desestabilizadora do terremoto, no juízo tremendo do fogo... Mas, nessas realidades o Senhor não se encontrava (com Deus, nada de megaevento, nada de pirotecnia, nada de palcos); ao invés, vem na brisa suave (v. 12). Elias o reconhece e cobre o rosto – quem pode compreender, quem pode encarar esse Deus, que se revela se escondendo (ainda hoje, também para nós)? E o Senhor lhe repete a pergunta: “Que fazes aqui?” E Elias apresenta sua visão... E Deus o faz voltar à sua missão: “Vai, retoma o teu caminho...” Há uma missão a ser cumprida; nada está perdido! O Senhor tem nas mãos os corações e os acontecimentos! Elias pode agora descer do Monte revigorado, sintonizado com o querer do Senhor, e retomar sua missão...

Meu caro Leitor, tenhamos a coragem de subir a montanha que é Cristo; escondamo-nos na fenda do seu Coração aberto. Aí fiquemos até a noite passar; aí contemplaremos a face bendita do Senhor Deus – contemplaremos sem contemplar; veremos sem ver, compreenderemos sem saber... Com Deus, trata-se sempre de um saber não sabendo, toda ciência transcendendo... Olhe bem: quando contemplamos a Deus, escondidos no Coração de Cristo, o que era noite torna-se dia, a treva torna-se luz fulgurante, o pranto e enxugado, vai-se a incerteza, foge o desânimo e a doce paz de Deus invade o nosso coração!

Fonte: http://costa_hs.blog.uol.com.br/index.html