15 de jul de 2011

Dom Henrique Soares: Tempo e contratempo


“Há um momento para tudo e um tempo para todo propósito debaixo do céu. Tempo de nascer, e tempo de morrer”... (Ecle 3,1s).

Palavras que parecem tão óbvias, estas de Qohelet, o autor do nosso Eclesiastes! E, no entanto, são carregadas de uma profunda sabedoria de vida!

Há um tempo para tudo, diz o autor sagrado: para nascer e para morrer, para plantar e para arrancar, para matar e curar, para destruir e construir; tempo de chorar e de rir, de gemer e de dançar, de atirar pedras e de recolhê-las, de abraçar e de separar; tempo para buscar e tempo para perder, para guardar e jogar fora; tempo de rasgar, de costurar, de calar e falar, de amar e odiar, tempo de guerra e tempo de paz...

Com estes dizeres, a Escritura quer nos ensinar que a vida é mutável, instável, passageira: nenhum momento nosso é absoluto, duradouro: mudam constantemente as situações de nossa existência humana, do nosso mundo e, coitado do homem que se fixa somente nesta vida e nos seus valores, porque viverá sempre no contratempo, na ansiedade: “Não é acaso uma luta a vida do homem sobre a terra? Seus dias não são como os de um assalariado? Se me deito, penso: Quando poderei levantar-me? E, ao amanhecer, espero novamente a tarde...” (Jó 7,1.4). Quanto tempo dura nossa alegria? Por quanto tempo prolonga-se nossa tristeza? Até quando durará nossa saudade? E a gostosura da presença, a doçura da companhia da pessoa amada, por quanto tempo poderemos saboreá-la? Tudo é tão fugaz, incerto, passageiro! É este o alerta da Escritura! Num mundo que sonha em construir palácios bem estáveis, que promete segurança perene e paz duradoura... num mundo que nos quer dar a sensação de plenitude dando-nos migalhas como o ter, o poder, o prazer, o parecer, a Palavra santa do nosso Deus insiste: “Tudo tem seu tempo!”... Não se pode congelar os tempos da vida: na alegria, pensa na tristeza e nos que estão tristes e sê comedido; na tristeza, não te desesperes: pensa na alegria que virá e enche-te de esperança! No sucesso, não te esqueças que a vida é incerta: amanhã poderás fracassar, mantém-te humilde e pobre diante do teu Deus; e, quando fracassares, não te deprimas: levanta-te, sabendo que vida não terminou para ti! A Escritura quer nos inculcar a fugacidade da existência, a impossibilidade para o homem de alicerçar sua vida somente em si mesmo, nos seus mesquinhos propósitos; deseja nos fazer tirar os olhos do próprio umbigo e olhar para o Alto, para Aquele que está no céu e é eterno: “Eu levanto os meus olhos para os montes: de onde pode vir o meu socorro? Meu socorro vem do Senhor que fez o céu e a terra” (Sl 120). O seu nome é Eternidade, o seu nome é Amor: somente nele nossos tempos - sejam quais forem - terão sempre sentido e serão sempre tempos de salvação! Somente nele, venha o tempo que vier, não perderemos o rumo e a esperança e o gosto da vida! Tudo tem seu tempo e sua hora; para tudo há um propósito debaixo do céu... mas é sempre tempo de crer, de esperar, de alicerçar a vida em Deus!

Para nós, cristãos, estes tempos humanos, tão incertos e fugazes, ganharam uma dignidade inesperada, única: o Filho eterno do Pai entrou no nosso tempo, viveu a nossa vida, experimentou os nossos dias! Assim, deu novo sentido ao nosso tempo, à nossa vida, à nossa humana aventura. O cristão não se ilude: a vida é precária, passageira e incerta! O discípulo de Cristo não se engana com as promessas de segurança, conforto e paz que o mundo faz... promessas que nem poderia fazer... Por outro lado, os cristãos sabem que a vida é preciosa, que o mundo é bom, que nossa vida tem valor imenso aos olhos de Deus: seu Filho entrou na nossa vida, veio viver nossa aventura e, pela sua ressurreição, elevou os nossos tempos humanos à glória da eternidade! Por isso mesmo, para nós, as palavras de Qohelet têm um sentido tão profundo: tudo tem seu tempo, sua hora... mas sejam quais forem nossos tempos e horas – de dor ou alegria, de nascer ou de morrer – todos os nossos tempos são tempos do Filho de Deus, tempos que têm gosto de eternidade, tempos de salvação e de graça e de esperança e de vida eterna!

Se é assim, podemos terminar com as palavras do salmista: “Meus tempos, Senhor, estão em tuas mãos!” (Sl 31,15).

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