2 de ago de 2011

Por Dom Henrique Soares: “Sai e fica na montanha diante do Senhor!”



Caro Internauta, leia este texto de 1Rs 19,1-15a); depois farei algumas considerações sobre o mesmo:

Acab contou a Jezabel tudo que Elias tinha feito e como tinha passado ao fio da espada todos os profetas de Baal. Então Jezabel mandou um mensageiro a Elias para lhe dizer: “Os deuses me cumulem de castigos, se amanhã, a esta hora, eu não tiver feito contigo o mesmo que fizeste com a vida desses profetas”. Elias ficou com medo e, para salvar sua vida, partiu. Chegou a Bersabéia de Judá e ali deixou o seu servo. Depois, adentrou o deserto e caminhou o dia todo. Sentou-se, finalmente, debaixo de um junípero e pediu para si a morte, dizendo: “Agora basta, Senhor! Tira a minha vida, pois não sou melhor que meus pais”. E, deitando-se no chão, adormeceu à sombra do junípero. De repente, um anjo tocou-o e disse: “Levanta-te e come!” Ele abriu os olhos e viu junto à sua cabeça um pão assado na pedra e um jarro de água. Comeu, bebeu e tornou a dormir. Mas o anjo do SENHOR veio pela segunda vez, tocou-o e disse: “Levanta-te e come! Ainda tens um caminho longo a percorrer”. Elias levantou-se, comeu e bebeu, e, com a força desse alimento, andou quarenta dias e quarenta noites, até chegar ao Horeb, o monte de Deus. Chegando ali, entrou na gruta, onde passou a noite. Então a palavra do SENHOR veio a ele, dizendo: “Que fazes aqui, Elias?” Ele respondeu: “Estou ardendo de zelo pelo SENHOR, Deus dos exércitos, porque os israelitas abandonaram tua aliança, demoliram teus altares, mataram à espada teus profetas. Só eu escapei; mas agora querem matar-me também”. O SENHOR disse-lhe: “Sai e permanece sobre o monte diante do SENHOR”. Então o SENHOR passou. Antes do SENHOR, porém, veio um vento impetuoso e forte, que desfazia as montanhas e quebrava os rochedos, mas o SENHOR não estava no vento. Depois do vento houve um terremoto, mas o SENHOR não estava no terremoto. Passado o terremoto, veio um fogo, mas o SENHOR não estava no fogo. E depois do fogo ouviu-se o murmúrio de uma leve brisa. Ouvindo isto, Elias cobriu o rosto com o manto, saiu e pôs-se à entrada da gruta. Ouviu, então, uma voz que dizia: “Que fazes aqui, Elias?” Ele respondeu: “Estou ardendo de zelo pelo SENHOR, Deus dos exércitos, porque os israelitas abandonaram tua aliança, demoliram teus altares e mataram à espada teus profetas. Só eu escapei. Mas, agora, querem matar-me também”. O SENHOR disse-lhe: “Vai e volta por teu caminho...”

Encontramos aqui Elias no turbilhão da sua missão, num momento de crise: sua vida está em perigo; ele tem medo (v. 3) e quer salvar a vida (v.3). Foge, então, sem rumo, e entra, sozinho no deserto de Judá, rumo ao Naguev (v.4). Desiludido, desorientado, com a sensação de derrota e impotência, senta-se e pede a morte! O que ele pode contra um tremendo poder hostil a Deus? O que pode contra um povo todo na apostasia, fascinado pelo relativismo, sem saber mais se é melhor servir ao Senhor ou a Baal; não sabe nem mais direito distinguir o Senhor de Baal (cf. 1Rs 18,20-21)? Que fazer com um povo minado, dilacerado por um tipo de religiosidade pagã, cômoda, sem compromisso moral nem incidência real na vida? O profeta encontra-se num profundo sentimento de solidão e desamparo... “Agora basta, Senhor! Retira-me a vida, pois não sou melhor que meus pais!”

Elias já não consegue vê o caminho de Deus, o traçado da sua providência, o rastro do seu modo de agir... Encontra-se em treva, desconcertado, vencido... O cansaço venceu Elias. Agora ele é um homem desencantado... Seu desejo é sumir, esquecer, desligar-se de tudo, desinteressar-se de tudo e não crer mais em nada: o ideal seria dormir e nunca mais acordar...

Mas, o Senhor Deus não o permite! Acorda-o, alimenta-o com seu alimento, revigora-o com sua água, sinal da graça que sustenta, restaura e reanima... Elias ainda teima em deitar-se, em fugir de tudo – até de si mesmo -, deixando tudo pra lá... Deus insiste, não larga aquele a quem escolheu, a quem chamou e marcou com a sua consagração... O Senhor traçou um caminho, uma sina para o seu servo, e ele deve percorrê-la fielmente: “Levanta-te e come, pois do contrário o caminho te será longo demais”. Foi assim com Elias; é assim com cada um de nós...

Elias alimenta-se abundantemente da graça do Senhor. Agora tem um rumo, tem força, sabe aonde vai: ao Horeb, às fontes, onde tudo começou, onde o Senhor se revelou, entregou a Lei a Israel e com ele fez aliança de amor. É preciso sempre voltar às fontes, reencontrar o primeiro amor, buscar a primeira inspiração (cf. Jr 2,1s; Os 2,16-22). Assim, ele caminha quarenta dias e quarenta noites e chega ao Horeb para encontrar a Deus face a face... O Deus com quem ele lidara na lida pesada da missão profética, agora o encontrará face a face, no cimo do Sinai!

No Horeb, Elias entra na gruta, na fenda da rocha que o Senhor tinha indicado a Moisés e na qual o Santo de Israel o tinha escondido: “Eis aqui um lugar junto de mim; põe-te sobre a rocha. Quando passar a minha glória, colocar-te-ei na fenda da rocha e cobrir-te-ei com a palma da mão até que eu tenha passado...” (Ex 33,22).

Para um cristão, a rocha na qual o Senhor nos coloca para que vejamos a sua glória – glória que refulge na face de Cristo (cf. Jo 1,14; 2Cor 3,14 – 4,6) – é o próprio Cristo Jesus (cf. 1Cor 10,4), cuja fenda que no esconde é o seu lado aberto, seu bendito e santo Coração, trespassado pela lança (cf. Jo 19,34). Elias entra na gruta e ali fica na noite, ali encontra aconchego, repouso, proteção... Lá também eu e você, meu caro Leitor, devemos aprender a encontrar refúgio nas noites da vida, nos momentos tão difíceis que a existência nos prepara... Esconder-se na fenda do Rochedo, abrigar-se no Coração de Jesus! Se o mundo soubesse; se o mundo experimentasse.

O Senhor Deus faz Elias entrar em si para encontrá-lo de verdade: “Que fazes aqui Elias? Que procuras? Que desejas?” (v. 9). Quantas vezes nem sabemos bem o que desejamos, nem conseguimos exprimir bem o que sentimos... Elias revela todo o seu amor pelo Senhor, expõe sua queixa e a sua visão da trágica situação na qual se encontra: “Eu me consumo de ardente zelo pelo Senhor dos Exércitos, porque os israelitas abandonaram a tua aliança, derrubaram teus altares e mataram teus profetas à espada. Fiquei somente eu e procuram tirar-me a vida!” Como Elias vê, como Elias sente, como avalia, a situação é desesperadora; o lugar do Senhor Deus no coração de Israel está em estágio terminal...

Observe-se que Deus nada diz sobre aquilo que Elias lhe conta da triste situação... Nada comenta... Apenas ordena: “Sai e fica na montanha diante do Senhor!” E então o passa... Deixa-se perceber, vislumbrar por Elias, para que Elias veja como ele vê, veja tudo à sua luz, na sua perspectiva, do ponto de vista da sua beleza (v. 11). Compreendeu, caro Internauta? Na Rocha que é Cristo, apoiado nele, poderemos contemplar realmente o Senhor!

E o Santo parece vir na força do furacão, na potência desestabilizadora do terremoto, no juízo tremendo do fogo... Mas, nessas realidades o Senhor não se encontrava (com Deus, nada de megaevento, nada de pirotecnia, nada de palcos); ao invés, vem na brisa suave (v. 12). Elias o reconhece e cobre o rosto – quem pode compreender, quem pode encarar esse Deus, que se revela se escondendo (ainda hoje, também para nós)? E o Senhor lhe repete a pergunta: “Que fazes aqui?” E Elias apresenta sua visão... E Deus o faz voltar à sua missão: “Vai, retoma o teu caminho...” Há uma missão a ser cumprida; nada está perdido! O Senhor tem nas mãos os corações e os acontecimentos! Elias pode agora descer do Monte revigorado, sintonizado com o querer do Senhor, e retomar sua missão...

Meu caro Leitor, tenhamos a coragem de subir a montanha que é Cristo; escondamo-nos na fenda do seu Coração aberto. Aí fiquemos até a noite passar; aí contemplaremos a face bendita do Senhor Deus – contemplaremos sem contemplar; veremos sem ver, compreenderemos sem saber... Com Deus, trata-se sempre de um saber não sabendo, toda ciência transcendendo... Olhe bem: quando contemplamos a Deus, escondidos no Coração de Cristo, o que era noite torna-se dia, a treva torna-se luz fulgurante, o pranto e enxugado, vai-se a incerteza, foge o desânimo e a doce paz de Deus invade o nosso coração!

Fonte: http://costa_hs.blog.uol.com.br/index.html

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