8 de abr de 2005

A VENERAÇÃO DE MARIA

Gostaria que comentasse o conteúdo desse artigo que saiu em um jornal de confissão luterana, com o título: “Virgem Venerada”.                                                       (Hilário Cargnin – Tubarão/SC.)

            O artigo em questão, publicado no jornal “O Pescador”, é transcrito de outra publicação, chamada “Sinais dos Tempos”, e não traz indicação do autor.
            O texto pretende ser uma resposta à seguinte pergunta: “Como surgiu o dogma católico da veneração de Maria?”, pergunta feita, evidentemente, por alguém que desconhece a nossa fé, já que a veneração de Maria não é um dogma.
            Mas, talvez porque a pergunta fala em dogma, a resposta aborda a história dos dogmas marianos. Felizmente não há erros nas citações dos documentos da Igreja, mas o texto pretende mostrar que a doutrina da Igreja sobre Maria não tem validade, por ser “totalmente desprovida de base bíblica”. E com isso, como sempre, contradiz a própria Bíblia na qual diz basear-se.
            Diz o artigo que “a Igreja apostólica jamais atribuiu a Maria qualquer função especial junto à comunidade dos crentes”. Essa é uma interpretação gratuita, já que o fato de “não estar escrito” não prova que alguma coisa não aconteceu. O objetivo dos Atos dos Apóstolos não era detalhar as funções de cada membro das comunidades, mas sim documentar a propagação do Evangelho pela ação missionária dos apóstolos, com a fundação das primeiras comunidades. E o objetivo das Cartas era transmitir orientações e tirar dúvidas dessas mesmas comunidades, no que diz respeito à fé. Naturalmente, essa não era a função de Maria, nem de qualquer outra mulher naquele tempo, mas isso não significa que Maria não tivesse “nenhuma função especial”. É significativo o fato de que ela estava presente junto aos apóstolos no acontecimento de Pentecostes, quando a Igreja nasceu “oficialmente”, por meio da infusão do Espírito Santo, que capacitou os apóstolos para continuar a missão de Cristo. E é evidente, também, que o testemunho de Maria está na base das narrativas evangélicas sobre a concepção e o nascimento de Jesus, bem como sobre sua infância, uma vez que nenhum dos evangelistas presenciou esses fatos. Isso mostra, no mínimo, que Maria mantinha contato com os apóstolos, e conversava com eles com alguma freqüência. Embora esse contato não esteja explícito nos Atos ou nas Cartas, está certamente implícito... e era certamente importante, já que contribuiu, no mínimo, para a redação dos Evangelhos.
 Se a pregação dos apóstolos deu frutos, e se a fé cristã se conservou até nossos dias, é claro que isso supõe a ação de muitas outras pessoas, e também outros tipos de ação, além daquelas narradas na Bíblia. Supõe, principalmente, a profunda formação na fé realizada no seio das famílias e transmitida de geração em geração... e isso, como todo mundo sabe, é principalmente tarefa das mulheres. E Maria a terá desempenhado, junto aos primeiros cristãos, com particular excelência, ela que, mais do que ninguém, tinha intimidade com Jesus e seus ensinamentos.
Os protestantes, porém, restringem a ação do Espírito Santo unicamente ao que está escrito na Bíblia, como se, fora dela, nada tivesse valor ou merecesse crédito. Como se, depois dos tempos apostólicos, a ação iluminadora do Espírito Santo deixasse de ser necessária, bastando seguir “o que está escrito”... eles não percebem que essa é uma interpretação contrária à própria Bíblia, já que Jesus prometeu o Espírito Santo à sua Igreja até o fim dos tempos, e não apenas para inspirar os redatores bíblicos. Ele nem sequer menciona a Escritura ao falar da missão da Igreja. Quando Jesus se refere às Escrituras, é geralmente para alertar contra o perigo de interpretá-las erradamente... O Espírito, na Bíblia, é sempre dado a pessoas, e a função de ensinar e de zelar pela ortodoxia da fé é transmitida pela imposição das mãos dos apóstolos aos sucessores por estes indicados. Está na Bíblia... O critério de infalibilidade apontado por Jesus é a palavra dos apóstolos (“quem vos ouve, a mim ouve”... “o que ligares na terra será ligado nos céus”... etc.), e, se a Igreja estava destinada a permanecer e continuar atuando também depois dos tempos bíblicos, não faz sentido supor que, com a morte dos apóstolos, Deus tenha retirado o seu Espírito da Igreja, para limitá-lo à Escritura, como se, a partir daí, nada mais pudesse evoluir, como se não houvesse sempre situações novas a exigir discernimento e decisões, a fim de manter viva a mensagem e conservar a ortodoxia em matéria de fé. Afinal, Jesus diz: “Estarei convosco até o fim dos tempos”, e não apenas no tempo dos Apóstolos. A Bíblia não diz que toda a ação da Igreja deveria, a partir de certo momento, passar a pautar-se unicamente pela Escritura. Nada nela faz prever essa “extinção” da ação do Espírito. Ao contrário, ela mostra a preocupação dos apóstolos em formar seus sucessores... Os protestantes desprezam os próprios critérios bíblicos ao rejeitar o dinamismo já presente na Igreja apostólica, para idolatrar a escritura como único critério de ortodoxia... coisa que, absolutamente, a Bíblia não ensina. O Novo Testamento nem sequer existia no tempo dos Apóstolos... e, de qualquer forma, as evidências mostram que a Escritura, sozinha, é insuficiente como critério de unidade e de valores, se não houver para ela uma interpretação autorizada.
Essa “idolatria da escritura”, desprovida de critérios, leva o autor do artigo a considerar a doutrina dos Padres da Igreja sobre a veneração devida a Maria por seu papel relevante na obra da redenção, assim como a noção de sua virgindade perpétua e de sua qualidade de Mãe de Deus (que depois se tornaram dogmas), como “teorias especulativas” que “começaram a se infiltrar no cristianismo pós-apostólico”, como se o fato de ser “pós-apostólico” fosse indicador de invalidade. Como se a opinião de pessoas nascidas dois mil anos depois dos apóstolos tivesse mais valor, ou pudesse ser mais fiel ao seu ensinamento do que aquilo que foi assimilado e vivido por seus herdeiros diretos e imediatos... ao menos aquilo que foi legitimado pelo Magistério, que não perdeu a assistência do Espírito Santo (se quisermos crer na promessa de Jesus).
O articulista diz que “foi a oração da Ave-Maria, originária do século 11, que mais contribuiu para popularizar essa veneração”, que, segundo um outro autor por ele citado, teria degenerado em adoração, “a ponto de suplantar a própria adoração de Cristo”.
Além de apresentar um julgamento gratuito e errôneo (pois a veneração a Maria nunca foi confundida, em nossa Igreja, com a adoração devida a Cristo, nem a superou), o autor se esquece de que as palavras da Ave-Maria, em sua primeira parte, são palavras da Bíblia... e que o próprio Deus já exaltava Maria, pela boca do anjo, muito antes de nós, tendo Maria profetizado – também na Bíblia – que todas as gerações a proclamariam bem-aventurada – o que Isabel e João Batista já tinham feito pouco antes. Nossa veneração tem, sim, portanto, uma forte base bíblica. Se o próprio Deus exalta Maria, não faz muito sentido supor que isso seja algo contrário à vontade de Deus...
O artigo interpreta as palavras de Jesus em Lucas 11,27-28 (onde ele diz que “os que ouvem a palavra de Deus e a observam” são mais felizes do que “as entranhas que o trouxeram e os seios que o amamentaram”) como uma advertência de Jesus contra a veneração a Maria. Na verdade, isso em nada desmerece Maria, já que ninguém ouviu ou observou as palavras de Jesus melhor do que ela. Essa passagem diz, simplesmente, que os laços de sangue nada são em si mesmos, sem a fé e a prática da fé. É uma advertência dirigida aos judeus, que se consideravam justos e justificados pelo simples fato de serem “filhos de Abraão”... e, no entanto, não reconheceram o Messias enviado por Deus. Quanto ao fato de que Jesus se coloca como caminho necessário e único para chegar ao Pai (como também lembra o artigo), isso não impede que o próprio Jesus tenha agido a pedido de Maria, nas bodas de Cana, assim como escolheu, também, vir ao mundo por meio dela. Pedir a intercessão de Maria não significa negar o caráter indispensável e exclusivo da mediação de Jesus. Sabemos que Maria não faz nada sem Jesus, mas isso em nada impede que peçamos a ela para transmitir a Jesus os nossos pedidos e interceder em nosso favor, como ela fez em Cana, e para nos trazer Jesus como fez em Belém. A intercessão de Maria certamente não é indispensável para a salvação, mas também não se opõe ao ensinamento de Jesus, já que ele mesmo quis condicionar a salvação dos homens ao consentimento e colaboração dela. E o mais importante é que a devoção mariana, longe de prejudicar,  pode favorecer nossa fidelidade a Jesus – na verdade, é nisso que consiste o seu valor. Nosso amor por Maria só tem sentido na medida em que nos conduz para mais perto de Jesus. O papel de Maria em nossa fé é semelhante ao que a Bíblia desempenha junto aos protestantes. Num e noutro podem ocorrer desvios e erros, mas nem por isso devemos desprezar os auxílios que o próprio Deus nos envia para nossa caminhada de fé.
É claro que nossa devoção supõe a convicção de que Maria está viva junto de Deus, assim como todos os santos. E aqui, de novo, o articulista contradiz a Bíblia, ao escrever: “O próprio dogma da assunção de Maria ao paraíso cai por terra se levarmos em consideração o ensino bíblico de que os mortos permanecem em estado de completa inconsciência na sepultura, aguardando o dia da ressurreição final. Maria foi uma pessoa piedosa e temente a Deus, mas ainda não se encontra no Céu, e, como qualquer outra criatura, jamais deveria ser venerada (ver Apoc. 22,8-9).”
Para contradizer a Igreja Católica, os protestantes preferem dar relevo a uma crença do Antigo Testamento, já superada no tempo de Jesus, ao invés de acatar as palavras do próprio Jesus... que afirma que o Pai “não é Deus de mortos, mas de vivos, pois todos vivem para ele” (Lc 20,38; Mt 22,32), e que também promete ao bom ladrão: “Hoje mesmo estarás comigo no Paraíso”... Há ainda a parábola do rico e de Lázaro (Lc 16, 19-31) onde Jesus diz que “o pobre morreu e foi levado pelos anjos ao seio de Abraão”, que era diferente da “mansão dos mortos”, lugar de tormentos para onde foi o rico. Essa parábola refere-se claramente a uma vida consciente depois da morte, na qual os justos já gozam da bem-aventurança e os injustos são dela privados, mesmo antes da ressurreição dos corpos. Também o Apocalipse fala nos justos que estão junto de Deus e com ele dialogam (estão vivos, portanto), enquanto aguardam que se complete o número dos escolhidos (Apoc 6, 9-11). O trecho citado pelo articulista também fala em um ser vivente, um anjo, que não deve ser adorado porque não é Deus – o que nós também sabemos – mas nada tem a ver com a suposta inconsciência dos mortos.
Enfim: se nós estamos “contradizendo o ensino bíblico”, Jesus o fez antes de nós. São antes os protestantes que o fazem, nessa e em outras acusações, ao ignorar as palavras de Jesus na Bíblia. É claro que cada um tem o direito de acreditar no que quiser, e nós não obrigamos ninguém a pensar como nós. Só digo isso para mostrar a inconsistência dos argumentos utilizados pelos protestantes em suas acusações contra a Igreja Católica...                                           Margarida Hulshof (Dezembro/2003)

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