12 de jul de 2010

St° Agostinho:”O Pecado Vem do Livre-Arbítrio”


Pecar é sempre ato voluntário
Se a defecção que chamamos pecado assalta como febre – contra a vontade de alguém – com razão, pareceria injusta a pena que acompanha o pecador, pena que recebe o nome de condenação. De fato,o pecado é mal voluntário. De nenhum modo haveria pecado se não fosse voluntário. Esta afirmação goza de tal evidência que sobre ela estão de acordo os poucos sábios e os numerosos ignorantes que existem no mundo. Pelo que, ou se há de negar a existência do pecado ou confessar que ele é cometido voluntariamente.
Ora, quando se observa bem, ninguém nega a existência do pecado, ao admitir sua correção pela penitência e ainda o perdão concedido ao arrependido.A perseverança no pecado é considerada justamente condenável pela lei de DEUS.
Enfim, se o mal não fosse obra da vontade, absolutamente ninguém deveria ser repreendido ou admoestado(exortado). E com toda essa supressão, a lei cristã e toda a disciplina religiosa receberia golpe mortal.
Logo, à vontade deve ser atribuido o fato de se cometer o pecado. E como não há dúvida sobre a existência do pecado, tampouco se haverá  de duvidar do que se segue: – que a alma é dotada do livre-arbítrio de sua vontade.
Julgou DEUS que assim seriam melhores os seus servidores – se livremente o servissem. Coisa impossível de se conseguir mediante serviço forçado e não livre.
Os Benefícios da Liberdade
Os Anjos servem a DEUS livremente, o que é proveito deles e não de DEUS. A DEUS não é necessário nenhum bem alheio, por ser soberano por si mesmo. E aquele que é gerado (o Filho de DEUS) tem nele sua própria substância, porque não é criado, mas fruto de geração.
Por outro lado, as coisas criadas necessitam do bem divino, isto é, do soberano Bem(DEUS) ou Suma Essência(DEUS). Elas diminuem no ser quando, devido ao pecado, movem-se menos na direção de DEUS. Contudo, as criaturas não são apartadas totalmente, pois nesse caso seriam reduzidas a nada. O que dispõe a alma são os afetos e o corpo as posições que ocupa,porque a alma move-se conforme a vontade e o corpo conforme o espaço.
E ao que se refere à tentação do primeiro homem por um anjo mau, não faltou aí o livre consentimento da vontade. Se ele houvesse pecado por constrangimento, não teria sido réu de delito.
Relativamente ao corpo humano, era ele excelente em seu gênero, antes do pecado. Depois porém, tornou-se débil e destinado à morte. Isto mostra quão justo tenha sido o castigo da culpa, nele tendo se manifestado mais a clemência do SENHOR que a sua severidade. Desse modo, ficamos estimulados sobre o quanto nos convém erguer nosso amor dos prazeres terrenos para a eterna essência da verdade.
Além disso, vemos se conbinarem bem a beleza da justiça e a graça da benignidade. Por nos termos deixado enganar pela doçura dos bens inferiores,deveríamos ser corrigidos pela amargura do castigo. Mas de tal maneira a divina Providência moderou o rigor de seus castigos que, mesmo sob o peso deste corpo corruptível, podemos caminhar em direção a justiça. Renunciando a todo orgulho,chegamos a submeter-nos ao único verdadeiro DEUS, sem mais confiar em nós mesmos. Basta pormo-nos em suas mãos, para que nos governe e defenda.
Assim, o homem de boa vontade, guiado pelo próprio DEUS,converte as tribulações da vida presente em instrumento de fortaleza. No meio da abundância dos prazeres e bens materiais, ele mostra e robustece sua temperança. Nas tentações, afina sua prudência. Tudo isso para não se deixar arrebatar por elas, mas se fazer vigilante e ainda mais ardente no amor pela verdade, a qual é única a não falhar.
Benefícios da Encarnação do Verbo
DEUS, por todos os meios, cuida da salvação das almas, dispondo com admirável sabedoria, das circunstâncias dos tempos. Deste tema não se deve falar senão entre pessoas de piedade perfeita.
Nenhum outro plano ajustou-se melhor em proveito do gênero humano do que este realizado pela mesma sabedoria de DEUS: – o Filho unigênito, consubstancial ao Pai e co-eterno dignou-se assumir integralmente o homem.
“E o verbo se fez carne e habitou entre nós.”(Jo 1:14)
Demonstrou assim aos homens carnais e incapazes de captar espiritualmente a verdade, e escravos dos sentidos corporais, quão elevado lugar ocupa, na criação, a natureza humana. Com efeito, o Verbo não só apareceu visivelmente – pois isso poderia ter feito tomando algum corpo etéreo, ajustado e proporcionado à nossa vista. Apareceu entre os homens, como verdadeiro homem. Convinha que assumisse a mesma natureza a ser remida. E para que nenhum sexo julgasse ser preterido pelo Criador, humanizou-se em forma de varão, nascendo de uma mulher.
Cristo: Deus e Homem
Em nada, Cristo agiu com violência,mas em tudo, com persuasão e conselho. Passada a antiga escravidão, brilhou o tempo da liberdade, oportuna e salutarmente(utíl para conservar). O homem foi persuadido – como fora criado – no respeito a seu livre-arbítrio.
Cristo, por seus milagres, conquistou a fé dos homens no DEUS que é; e pela paixão, a fé na humanidade que assumia.
Assim, falando à multidão como DEUS, afastou sua Mãe, cuja chegada anuciavam (Mt 12:48). Não obstante, como ensinava o evangelho, sendo menino, viveu submisso a seus pais (Lc 2:51).
Por sua doutrina, mostrou-se DEUS; pelo crescimento na idade, mostrou-se homem.
Igualmente, antes de transformar a água em vinho, como DEUS disse: “Que temos nós com isso,mulher? Minha hora ainda não chegou.”(Jo 2:4). Mas quando chegou a hora de morrer como homem, do alto da cruz, vendo sua Mãe, confiou-a ao discípulo entre todos predileto (Jo 19:26-27).
Os povos apeteciam as riquezas com afã pernicioso,quais satélites dos prazeres. Ele, porém, quis ser pobre.
Os povos ávidos de honras e poder. Ele não permitiu que o fizessem rei.
Julgavam o maior bem ter filhos carnais. Ele não buscou matrimônio nem prole.
Fugiam aos insultos com grande soberba. Ele suportou as injúrias de todo gênero.
Tinham como intoleráveis as injustiças. E, contudo, que injustiça maior do que ser condenado, sendo Justo e inocente?
Execravam os homens as dores corporais. Ele foi flagelado e torturado. Temiam morrer. Ele foi condenado à morte. Consideravam a cruz como a mais ignominiosa(desonrosa) das mortes. Ele foi crucificado.
Com seu despreendimento, abateu o valor das coisas, cuja cobiça era causa de nossa má vida.
Com sua paciência, desviou tudo o que temíamos e evitávamos, no esforço em prol da verdade.
Nenhum pecado pode ser cometido sem apetecer as coisas que Ele aborreceu, ou sem evitar as que Ele sofreu.
Cristo: Mestre de Vida e Causa Exemplar
Toda a vida terrena de Cristo como homem, cuja natureza dignou-se assumir, foi ensino moral.
Por sua ressureição dentre os mortos, mostrou claramente que a natureza humana não se perdeu de modo absoluto. Deus tudo salva. Todas as coisas servem ao Criador, seja para castigo dos pecados, seja para a libertação do homem. Crsito mostrou também que tanto mais facilmente serve o corpo à alma, quanto mais esta submete-se a DEUS. Quando tal se realiza não só nehuma substância é má – o que seria impossível – mas nem sequer pode ela se atacada pelo mal. Este só pode vir do pecado e de suas consequências.
Essa é a doutrina cristã da natureza. Doutrina digna de total fé para os cristãos, sejam ele pouco instruídos ou doutos(sábios). Doutrina limpa de qualquer erro.
Fonte: Agostinho, Santo. De Vera Religione, A verdadeira Religião. Cap. 14 ao 16. Ed. Paulus.

0 comentários:

Postar um comentário