30 de jun de 2011

O que pedir na oração ?




Sabemos que precisamos pedir

Você, como todos os cristãos, pede coisas a Deus, para si e para outros. Faz bem. Mais ainda, quando pede está fazendo algo que Cristo deseja. Não lembra quantas vezes Ele nos mandou, de maneira explicita e insistente, que fizéssemos oração de petição?

Baste recordar, neste sentido, o Pai-nosso, com toda a sua sequência de pedidos (o pão de cada dia, o perdão das nossas ofensas, o socorro na tentação, a libertação do mal); e também as afirmações categóricas do Senhor sobre o dever de pedir, como: Eu vos digo: pedi, e vos será dado; buscai, e achareis; batei, e vos abrirão (Lc 11,9). Pedi e recebereis, para que a vossa alegria seja completa (Jo 16,24).

Nós pedimos, e achamos lógico fazer assim, porque temos consciência de que precisamos da graça, das bênçãos e dos dons de Deus. Sobre isso não há a menor dúvida: Toda dádiva boa e todo dom perfeito - escreve São Tiago - vêm de cima: descem do Pai das luzes, no qual não há mudança nem mesmo aparência de instabilidade (Tg 1,17).

Objeções sobre a oração de petição

Mas, não poucas vezes, alguns bons cristãos que sabem disso muito bem, dizem que não entendem por que devemos pedir. Todos cremos - comentam - que Deus é um Pai que nos ama e que, como Jesus diz, sabe o que vos é necessário, antes mesmo que vós o peçais? (Mt 6,8). Então, por que pedir - dizem -, se Ele já sabe de antemão o que precisamos, é bom, é todo-poderoso e quer o nosso bem?

Além disso, acrescentam: Se, como diz São Tiago, em Deus não há mudança nem instabilidade, não será pretensão nossa esperar que «mude», por causa da nossa oração, e nos conceda o que nós - não Ele - desejamos? Não seria mais perfeito dizer simplesmente Seja feita a vossa vontade? E alguns concluem, então: Por isso eu não peço nada, só agradeço e me abandono em Deus? (coisa que, seja dito de passagem, também fizeram determinados santos, mas só durante algumas temporadas - inspirados por Deus -, e só depois de terem feita uma intensa e contínua oração de petição).

Tudo o que essas pessoas dizem sobre a bondade, o poder e e ciência de Deus é verdade, mas as conclusões que tiram não estão certas. Em todo o caso, não há duvida de que aí está colocado um problema difícil: Como combinar essas verdades sobre a bondade e a ciência de Deus com o fato de que o próprio Deus mande pedir, e pedir insistentemente: É necessário rezar sempre, sem esmorecer (Lc 18,1)?

Seria absurdo achar que fomos nós, agora, os que «descobrimos» essa aparente contradição. Já foi «descoberta» faz muitos séculos pelos antigos cristãos, e os dois maiores teólogos católicos, Santo Agostinho e Santo Tomás de Aquino estudaram a questão amplamente e chegaram ambos a idênticas conclusões.

Como eles dizem (e eu apenas vou resumir), é verdade que nós não precisamos de rezar para «informar» Deus sobre as nossas necessidades, porque Ele já as conhece muito bem; e também é verdade que seria absurdo pretender «dobrar» Deus, fazendo com que «mude» a sua vontade, e se deixe «dominar» pela nossa.

Certo. Então, por que devemos pedir? A resposta a isso é dupla, e cheia de sentido para quem tiver a perspectiva da fé. É importante, sobretudo, para a nossa vida prática, para que compreendamos que nunca devemos relegar a oração de petição para um segundo plano, antes devemos considerá-la sempre uma necessidade espiritual básica, uma parte essencial da vida interior do cristão.

A dupla resposta

A) Vamos ver uma primeira resposta à indagação «por que devemos pedir?».

Seria suficiente responder que devemos pedir porque Deus assim o manda, como já dissemos e repisamos. Não há dúvida de que Ele assim o quer.

Mas é lógico que nos perguntemos: Por que o quer? Pense numa coisa: Deus, doador de todas as graças, sabe infinitamente melhor do que nós qual é a melhor maneira de nos fazer chegar com proveito os seus dons. Por isso, a sabedoria divina - que muitas vezes não alcançamos a compreender - determinou que um dos grandes canais que deviam trazer-nos as graças fosse a oração de petição (os outros canais são, como sabe, os Sacramentos, e o mérito sobrenatural das obras boas, praticadas no amor de Deus).

B) Embora isso seja claro, pode vir à alma outra pergunta: Por que Deus escolheu precisamente esse canal da oração de súplica? Poderíamos responder sem dar resposta concreta: «Ele sabe das coisas muito melhor do que nós». Está certo. Mas a Sagrada Escritura, através da qual Deus nos fala, traz luzes a esse respeito, que os santos souberam enxergar, e que nós podemos também, pelo menos, vislumbrar.

Santo Tomás no seu Compêndio de Teologia (Liv. II, cap. 2), explica que, quando oramos, pedindo a Deus os seus dons, estamos reconhecendo com humildade as nossas limitações, falhas e carências, e nos voltamos para Deus com uma humildade cheia de fé, colocando nEle a nossa esperança. Esta é uma resposta baseada na Bíblia, na Palavra de Deus, pois ela nos ensina, constantemente, que só as virtudes da humildade e da fé deixam a alma em condições de receber os dons de Deus. A humildade e a fé são como os dois batentes que abrem a porta do nosso coração a Deus.

Só a título de amostra, vou lembrar-lhe alguns ensinamentos da Sagrada Escritura a esse respeito. São Pedro e São Tiago, por exemplo, citam uma frase do Antigo Testamento, do livro dos Provérbios (Prov 3,34), que querem gravar a fogo na alma dos primeiros cristãos: Deus resiste aos orgulhosos, mas dá a sua graça aos humildes (1Pedr 5,5; Tg 4,6). A necessidade da humildade, para receber a graça, fica assim claríssima, e a oração nos faz humildes.

Quanto à necessidade da fé, bastaria citar os inúmeros trechos dos Evangelhos em que Cristo faz depender da fé a concessão das graças: Ó mulher, grande é a tua fé! Seja-te feito como desejas, diz a uma pagã que pede insistentemente a cura da filha (Mt 15,28); e igualmente ao Centurião romano, que pede a cura de seu servo: Vai, seja-te feito conforme a tua fé (Mt 8,13). Pelo contrário, aos seus conterrâneos de Nazaré recriminará a falta de fé que os tornava fechados aos dons de Deus: Por causa da falta de fé deles, operou ali poucos milagres (Mt 13,58).

Os primeiros cristãos acolhiam essas verdades sem a mínima dúvida. É significativo que o texto mais antigo do Novo Testamento, a primeira Carta de São Paulo aos Tessalonicenses, termine dizendo, como algo óbvio e necessário: Vivei sempre contentes. Orai sem cessar! (1 Tes 5,16-17).

Que conclusão vamos tirar, então, desta nossa reflexão? Penso que será a de rezar muito mais. Faz-nos muita falta. Mas é preciso pedir bem. É disso que vamos tratar com mais detalhe na próxima meditação.

fonte:http://www.padrefaus.org

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