18 de jul de 2011

Santa Joana d'Arc: uma mulher que não vendeu sua consciência

Há certas figuras históricas que fascinam pela excepcionalidade. Os biógrafos procuram se deter exatamente nos pontos que consideram fundamentais para desvendar (se é que é possível) os mistérios que motivam as ações dessas personagens capazes de feitos incomuns e que se destacam pelo extraordinário.

Essa busca justifica as centenas de estudos em torno daqueles que protagonizam grandes acontecimentos e, ao mesmo tempo, propiciam mudanças significativas em determinado contexto social. Dentre essas figuras, na história da França, está Joana d’Arc.

Mais de cinco séculos depois, “a estranha carreira de Joana d’Arc permanece ainda uma história cuja conclusão não foi encontrada”, afirma Victória Sackville-West, a consagrada autora da clássica biografia da Pucelle d’Orleans, intitulada Joana d’Arc, escrita em 1935, e publicada no Brasil, pela Nova Fronteira (363 págs.), com tradução de Marta Rodolfo Schmidt.

Como entender o fenômeno Joana d’Arc sem mitificações? Esta foi a proposta de Sackville-West, que inova com um trabalho ousado, imparcial e minucioso da trajetória da camponesa de Domrémy, que se tornou uma das mais empolgantes lendas do povo francês. Outros autores se debruçaram sobre o mesmo tema, como Hillaire Belloc, Alice Buchan, Anatole France, Gabriel Hanotaux, Grace James, John Lamond, Siméon Luce, Andrew Lang, etc; procurando relacionar Joana d’Arc na complexidade do cenário político, religioso e cultural de sua época. Sackville-West explicita no prefácio que desejou concentrar-se “na própria Joana d’Arc, apresentando o mínimo de referências políticas”. Para a autora, Joana d’Arc foi muito mais importante e problemática que qualquer uma das figuras políticas que a rodearam”.

Como pôde uma jovem campesina, num brevíssimo período de vida (viveu apenas 19 anos) ter influído de maneira tão decisiva no xadrez político de duas poderosas nações da Europa? Inglaterra e França vinham se dilacerando por décadas na terrível Guerra dos Cem Anos (1337-1453). Todos viviam marcados por toda espécie de instabilidade. Não foi difícil nesse ambiente de medo e insegurança generalizada, florescer misticismos e fanatismos religiosos de diversas naturezas. O povo se apegava a qualquer proposta que vislumbrasse a salvação.

É nesse contexto crítico, onde a guerra, a fome e a peste aterrorizavam a todos, que surgiu a pequena Joana, dizendo-se iluminada, instrumento divino, pelo qual manifestaria a vontade do Senhor, que era a de trazer a ordem, a paz, a prosperidade e o triunfo da nação francesa. Segundo ela, as vozes do arcanjo São Miguel, Santa Catarina e Santa Margarida teriam não só estimulado, mas como determinado a missão de Joana d’Arc.

Em Chinon, no quarto domingo da Quaresma, em 6 de março de 1429, ela se encontrava, finalmente, com o delfim para anunciar que ele seria brevemente coroado em Reims. “Joana fanaticamente inspirada; – conta Sackville-West – Carlos desejando apenas ser deixado em paz; Joana determinada a salvar a França e acreditando ter sido celestialmente designada para isso; Carlos ligando nada para a França, desde que pudesse manter algumas províncias agradáveis e castelos onde pudesse levar uma vida de prazeres e sossego”.

Mesmo assim, Joana soube impor sua vontade ao soberano. Era dotada de excepcional intuição (não era ilustrada), cuja determinação e coragem superaram a de quase todos os grandes guerreiros e estrategistas da época. Vitoriosa em Orleans, Joana gozou de popularidade e não se acanhava em discutir, em pé de igualdade, com os poderosos de seu tempo. Era curioso observar como os comandantes, os oficiais, eram levados a aceitar o que aquela menina ordenava, seja para atacar ou fazer trégua. Não era fácil também, para seus admiradores, como o duque de Alençon, “conduzir uma virgem enviada pelos céus através de um país infestado por bandos de guerreiros”. Autoritária, decidida. Fanática? Santa? O que importa é que foi coerente até o fim. Quando foi capturada pelos inimigos, não contou com o apoio de Carlos. A heroína teria de amargar o calvário das acusações, dos insultos, da tortura, até a morte na fogueira, em Rouen. Sackville-West percorre, passo a passo, a trajetória dessa fascinante e misteriosa criatura, santa da Igreja.

Hermes Rodrigues Nery.
Publicado originalmente em www.votocatolico.com.br | São Paulo, 07 de Julho de 2011.

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