2 de fev de 2012

Deus: sonho e tormento...


Deus! Que palavra, que realidade! Saudade do homem, sonho do homem, gozo do homem, tormento do homem!

Deus! Existe? Quem viu Seu rosto bendito? Quem jamais pôde imaginá-Lo, saber do Seu modo de ser, tão único, tão inefável, tão Outro em relação a tudo quanto possamos imaginar, sentir, pensar?

Deus. Onde está? Como chegar a Ele, conhecer Sua santa vontade?

Olhando a natureza, perscrutando o universo, o coração e a mente humanas sentem-se possuídos por uma sensação de mistério... O homem vai descobrindo tantas leis que regem o cosmo, vai decifrando tantos segredos do mundo... Mas, à medida que descobre, mais vai percebendo que fica por descobrir... E ainda que tudo descubra deste mundo maravilhoso, deste universo impressionante, com misteriosas conexões de espaço, tempo, energia, matéria, antimatéria, ficam ainda questões arrasadoras, que avassalam a alma: Por que existe tudo e não o Nada? E, mais ainda, para que tudo existe? E, tremendamente mais sério: por que eu existo? Eu, com tanto de sonho, de consciência de mim e do mundo, com sede de ser feliz, mendigo de eternidade? Por quê? Para quê?

E, então, naqueles que não são levianos, e não brincam com a existência sua e dos outros e de tudo, brota a tremenda sensação de vertigem, de impossibilidade de responder a tão fundamentais questões!

Vertigem, admiração... Aquela pedra ali, estática, no solo de Marte, aquele gelado tremendo deserto de Netuno, a beleza daquela galáxia gigante, Andrômeda, a bilhões de anos-luz da nossa Via Láctea... Que sentido tem tudo isto? Para quem tudo isto existe? E quando as duas galáxias (Andrômeda e Via Láctea) se chocarem, daqui a 5 bilhões de anos? Para que, para quem, tudo isto?

Ante tantas descobertas, tantas perguntas, tanta admiração, uns procuram fugir das questões fundamentais. Metem a cabeça e a inteligência no contingente: as leis do universo, seu dinamismo, sua história, sua composição... Ou então afogam-se no dia-a-dia... Fogem, sorrateiramente, das questões que realmente importam para a vida... Outros admiram, inebriam-se não somente pela vastidão dos espaços siderais, mas também pela singeleza de uma flor, pelo sorriso de uma criança, pela beleza de um casal de mãos dadas, pelo tremendo mistério da decrepitude que vai devorando nossa vida até a morte... E ousam, seguindo um instinto misterioso do coração, um chamado irrefreável do seu mais íntimo, ousam chamar a tudo de "Criação", e vislumbram por trás de tudo um Criador: Deus!

Mas, onde está Ele? Que fazer para compreendê-lo, para escutá-lo? Por que é tão misterioso, tão fugidio? Se nos fez para Ele, por que se esconde? Se colocou em nós essa saudade danada, por que não se mostra, não se nos dá sem mistérios? Deus tão presente! Deus tão ausente! Deus tão próximo! Deus tão distante! Deus tão íntimo! Deus tão estrangeiro!

E nós ficamos aqui, tão sozinhos... Parece, às vezes, que falamos sozinhos, procuramos sozinhos, choramos sozinhos, vivemos sozinhos, morremos sozinhos...

É verdade que o Universo diz algo sobre esse misterioso Ser! É certo que em tudo quanto existe há algo de suas marcas, grintando: Ele passou por aqui; nossa beleza é reflexo pálido da sua formosura infinita! É verdade que nosso ser, nosso coração e nossa vida balbuciam algo sobre Ele... Mas, Ele mesmo... Quem jamais ouviu? Quem pode dizer algo certo sobre Ele?

Mistério, Silêncio, Noite, Abismo, Vertigem! Eis o fato duro, doloroso, nostálgico, trágico: o homem não tem onde apoiar os pés para saber de Deus, falar de Deus, garantir de Deus! Silêncio nas estrelas, silêncio por trás do rumor das ondas, silêncio mesmo que o vento uive, amedrontador... Silêncio! Silêncio também em im, no meu coração: sei que sou, existo; mas não sei de onde vim nem para onde estou indo... Deus está, Deus não está... Deus é, Deus não é... Não está como pensamos, não é como imaginamos... Deus – a palavra mais tremenda, mais misteriosa, mais decisiva que o homem pode pronunciar! Quase que diante Dele só se pode calar, num silêncio adorante, ou falar, numa insolência blasfema...

E continua a pergunta, a questão: como saber de certeza se Ele existe, se é a mais doce das realidades ou a mais enganadora das quimeras?

Uma voz, milenar, tênue, insistente... Talvez seja ela a brecha... Talvez seja o buraquinho de fechadura, a portinhola estreita, diminuta, a frestazinha de nada pela qual possamos ter algo de certeza, algo de acesso ao Mistério... Há milhares de anos essa voz é repetida, é cantada, é suspirada, é rezada em momentos de dor e de alegria, de luz e de trevas, de vida e de morte... Uma voz! Um convite, uma exortação! Todos podem ouvi-la... Somente alguns a levam a sério e se jogam no que ela descortina: “Ouve, ó Israel, o Senhor nosso Deus, o Senhor é Um!” Ouve! Do Infinito, do Silêncio eterno do Ser, da Noite mais profunda que habita o coração do Mistério, uma voz ecoa neste insignificante planeta Terra, no coração do tempo do homem e do mundo, no meio de um antigo povo sem importância: “Ouve! Tu não podes saber tudo, tudo nunca verás tudo, tu nunca compreenderás tudo! Ouve, silencia, presta atenção, acolhe humildemente: há um Deus! O Senhor é o Deus! O Senhor é absolutamente Único, Original, Outro em relação a tudo quanto possa existir! Escuta, pois do Silêncio eterno brotou esta Palavra! Abandonando-te a ela, viverás a verdade de tudo, viverás a verdade da tua própria vida! Ouve, pois, ó Israel! Grava no teu coração, acalenta na tua vida, caminha nesta certeza: há um Deus! O Senhor nosso Deus! Ele é Único! Tu não podes compreendê-lo, tê-lo na palma da mão, domesticá-lo a teu gosto, esquadrinhá-lo com tua razão! A Ele abrirás teu coração, Nele viverás a tua vida, pelos Seus caminhos orientarás os teus passos! Tu não o verás, mas se a Ele te abrires, por vezes experimentá-Lo-ás de modo misterioso; verás que Ele, vez por outra, mostrar-Se-á sem se mostrar... E quando vierem estes momentos fugidios, tudo se enche de sentido e o inteiro Universo e a totalidade da existência tornam-se uma tremenda e maravilhosa epifania do Seu Ser e da Sua Presença!

Cala-te, pois. Deixa-te. Acolhe a Palavra antiga, sempre atual, mansa e tão imperativa: “Ouve, ó Israel! O Senhor nosso Deus – Ele É! Ele existe! –, o Senhor é Único!” Se acolhes esta tremenda revelação com todas as suas consequências, tudo muda de figura, tudo adquire sentido... "Se tu creres, verás! Verás a glória de Deus, Sua doce e estonteante Presença, mesmo nas ausências da existência!"


Fonte: http://costa_hs.blog.uol.com.br/

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