8 de jun de 2012

Pornografia


Talvez a geração nascida nos anos 60 tenha sido a última a chegar à idade adulta antes que a pornografia se tornasse ubíqua. Hoje cada tela – de computador, de celular, de televisão – é potencialmente uma janela aberta para uma visão da sexualidade em que o de menos importa é a pessoa. O trabalho em evitar a pornografia hoje é maior que o empenho de encontrá-la há algumas décadas.
O perigo maior desta situação é que a exposição constante à pornografia tende a reduzir a percepção do sexo ao que nele, na verdade, vale menos. Sexo, afinal, não é apenas encaixe e fricção. Sexo é e deve sempre ser prazeroso, mas buscar nele apenas o prazer físico é fazer do outro um mero objeto de onanismo, é negar ao sexo ser um mistério de união entre pessoas que se amam.
O próximo passo está sendo dado: programas para telefone celular que superpõem imagens pornográficas à própria realidade circundante estão começando a aparecer. Em breve será comum, num ônibus lotado, poder apontar o telefone na direção de uma pessoa e vê-la nua, quiçá carregando um chicotinho ou outro acessório fetichista a fazer dela uma coisa, não uma pessoa.
A vítima preferencial desta coisificação causada pela pornografia é a mulher, por uma razão simples: a sexualidade masculina, mais facilmente despertada por meios visuais, é a presa maior da pornografia. A pornografia é a caricatura da sexualidade do homem, um exagero do que é natural, um paroxismo do que é peculiar a este sexo. Há sempre no homem uma tendência a coisificar o objeto de seus desejos, que se não for combatida fará com que ele perca o respeito que lhe é devido; é esta a semente do estuprador, do abusador.
Há também, é claro, uma minoria de homens que fazem de outros homens, não de mulheres, os objetos desta coisificação. Mas é uma minoria. São as mulheres, como um todo, e as moças, em especial, que mais têm a perder com este processo.
Os rapazes, mais acostumados com o bizarro comportamento das atrizes pornográficas que com a infinita complexidade da sexualidade feminina real, tendem cada vez mais a esperar que as moças se comportem como aquelas. A intimidade, a cumplicidade e o romance femininos se veem correspondidos por expectativas de fricção gemente, de encaixes acrobáticos de coisa com coisa. Nega-se, assim, a plenitude da sexualidade humana ao substituir o mistério da intimidade que gera a vida – à qual o homem sempre foi conduzido pelas mãos da mulher – por uma triste paródia de acoplamento mecânico; sem amor, sem pudor, sem cumplicidade.


Carlos Ramalhete
 é professor.
Publicado no jornal Gazeta do Povo.

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